quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Ladrando à Lua (3) - Variações sobre o telemarketing

Está um indivíduo posto em sossego na sua casa, quando o telefone toca, por volta da hora do jantar. Normalmente, a esta hora, ou é alguém conhecido, ou (hipótese mais desagradável) é aquilo que nós não queremos: um daqueles impertinentes funcionários de uma qualquer obscura empresa, que decoraram a martelo um arrazoado infindável de banalidades e que, acto contínuo, depois de nos perguntarem se estamos bem de saúde e fazerem votos para não nos estarem a incomodar (hipótese altamente improvável, uma vez que estamos por volta da hora de jantar; e se não querem incomodar, porque é que telefonam?), começam a bombardear-nos com uma torrente de vantagens sobre o excelente negócio que nos estão a propor. Depois de os ouvirmos pacientemente (se não lhes tivermos já desligado o telefone na cara), recusamos amavelmente a generosa oferta que nos é feita, com a frase-tipo “não estou interessado”.
Às vezes, a coisa toma proporções um pouco inesperadas. Certa vez, foi-me oferecido um conjunto de livros de banda desenhada do Walt Disney, com a habitual garantia de que se não gostasse não tinha que receber mais nada, etc. e tal, mas que iria receber uma primeira remessa absolutamente grátis e sem compromisso. Escusado será dizer que nunca mais pensei no assunto, até que algumas semanas depois chegou um aviso de encomenda. O conteúdo da dita cuja eram os famosos livros do Walt Disney (Peter Pan, Rei Leão, etc.), com um suporte de plástico preparado para, digamos, uns 10 livros.
Mas o mais interessante (lá diz o ditado: galinha gorda a soldado, choca vai ela) é que vinha junto uma folha de pagamento (com a respectiva data limite) do material entregue, que TINHA SIDO GARANTIDO QUE ERA GRÁTIS. E ainda vinha uma carta muito amável a agradecer por eu ter aderido (!!!) ao clube dos livros Disney.
Posto perante a situação, o terrível dilema: que fazer? Devolver o material? Escrever ou telefonar a dizer-lhes que não tinha encomendado nada, logo nada tinha a pagar? E ia eu gastar dinheiro a avisá-los de que não queria gastar dinheiro? Ou simplesmente não fazer nada e esperar por novidades? Oh drama! Oh inclemência! Oh tragédia! Oh terrível dilema de consciência! Optei por não fazer nada. Se os tipos me quiserem cobrar alguma coisa, mando-os bugiar. Felizmente tiveram o bom senso de não enviar mais nada.
Este é apenas um exemplo da falta de vergonha que tomou conta desta gente, que nem nos deixa respirar antes de querer, à viva força, impingir-nos qualquer coisa. Só que às vezes dão-se mal, e é muito bem feito. Mas há outras, porventura mais perversas, que vou contar em próximo episódio.

(A suivre)

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