quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Prova de vida 2014


Ainda andamos por aqui. Quase parece que não, mas andamos. Pelas Krónikas Viníkolas, pelo Facebook, por outros lados, e menos por aqui, neste blog que foi o precursor das nossas actuais actividades de internautas.

Apesar da quase ausência, recusamos deixá-lo morrer. Um dia destes pode ser que nos dê novamente vontade de o usar como palco para as nossas declarações. Quem sabe?

Até lá, vamos pelo menos fazendo a nossa prova de vida anual, à laia de aposentados, além de diletantes e preguiçosos.

Bem hajam.

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Portugal - Albânia: Vergonha? Escândalo?

Após a derrota com a Albânia, que mereceu pelo mundo fora comentários como “ridículo”, “vergonhoso” ou “bizarro”, Paulo Bento não encontrou melhor do que afirmar que "colocar já tudo em causa no final da primeira jornada não me parece o melhor caminho". O problema, que Paulo Bento parece não perceber, é que não se trata de colocar "já" tudo em causa à primeira jornada: o problema vem de trás, da campanha miserável no Brasil. Já estava tudo em causa antes desta qualificação se iniciar, a começar pelo próprio Paulo Bento. Foi, aliás, como muitos analistas realçaram, a primeira vez que Portugal não passou a fase de grupos dum Mundial ou Europeu e não houve consequências para o seleccionador: só para o médico! E Carlos Queirós ainda foi crucificado em praça pública, de norte a sul, após o Mundial-2010, em que fomos eliminados nos oitavos-de-final pela campeã do Mundo e da Europa! Ao pé do Mundial-2014, o Mundial-2010 foi brilhante!

Se Paulo Bento não fosse obstinado e tão teimoso como um burro teimoso, se tivesse um mínimo de visão estratégica, se não convocasse ou desconvocasse jogadores por mera birra ou capricho, perceberia que, não sendo o problema só dele, também passa (e muito) por ele. Ele já não é (se é que alguma vez foi) parte da solução, passou desde há muito a ser parte do problema. E se tivesse dignidade não pedia a demissão: demitia-se JÁ! Não, hoje, não amanhã: JÁ! Irrevogavelmente!

E o mesmo devia fazer o presidente da FPF, que descobriu brilhantemente que “não fomos competentes” e despediu o médico! O que Henrique Jones deve estar a rir-se por dentro a esta hora...

Kroniketas, sempre kontra as tretas

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Todos gostamos de números redondos


Neste ano em que se comemoram quatro décadas sobre o evento que alterou para sempre a vida de todos os portugueses a situação está difícil e, no espírito de alguns, surge a pergunta se valeu mesmo a pena. Desculpem a franqueza, mas esta é uma dúvida estúpida: basta olhar para os indicadores da época e para os actuais para vermos a evolução tremenda que aconteceu nos últimos 40 anos! Os mais cínicos dirão que até durante o regime fascista as coisas evoluíram, e é verdade, mas esses números não são comparáveis aos do pós 25 de Abril. Todos os que viveram nessa época obscura se recordam certamente de como viviam as pessoas e de como eram as coisas. E nem estamos a falar do que não havia: liberdade de expressão! Só essa conquista já justificaria a Revolução de Abril, mas ganhámos muitas outras coisas que, hoje em dia, as pessoas já se tinham habituado a considerar como garantidas.
E é aqui que mora o problema actual: questionar o valor do 25 de Abril é estúpido (excepto para uns quantos fascistóides que ainda por aí andam), questionar porque estamos na actual situação é pertinente e, neste caso, ninguém é inocente. Desde o “não-político” Cavaco a Guterres, do Barroso da tanga que fugiu ao Sócrates da nossa desgraça, todos têm uma parte da culpa pela situação económica a que chegámos. Mas não é por isso que Sócrates deixa de ter razão quando disse que a dívida não se paga, gere-se – não se deve aviltar a mensagem só por não gostarmos do mensageiro. Aqui para nós, alguém acredita que todos estes sacrifícios a que fomos sujeitos pela última leva de políticos de aviário nos vai permitir pagar a dívida? Claro que não! Que alguma coisa tinha de ser feita era certo, mas este ajoelhar perante os mercados, esta atitude de ser mais papista que o Papa, esta sanha raivosa contra os mais pobres e desprotegidos “esconde” algo mais sinistro do que o pagamento da dívida: é toda uma atitude revanchista que ataca tudo o que de bom se tinha construído nestes últimos 40 anos sem dar nada em troca! Tudo o que foi feito até agora pelos que realmente estão a mandar no país (e de que o títere Passos Coelho é apenas o frontispício) tem objectivos bem precisos e o pagamento da dívida é só o pretexto: acabar com a mobilidade social, acabar com o Serviço Nacional de Saúde, transformar a Segurança Social em caridadezinha, acabar com a educação para todos, esmagar a classe média, etc., etc… e a criação da ideia de que não há alternativa surge como a fundação para tudo o resto…

No meio de tudo isto é fácil tomar a nuvem por Juno e culpar o que nos deu um mundo novo e a possibilidade de questionar esse mundo em vez dos verdadeiros culpados. A única forma de sairmos deste poço em que nos encontramos é reforçar os valores de base que o 25 de Abril nos concedeu, não é procurar salvadores miraculosos nem receitas duvidosas. É não nos limitarmos a votar e esquecer a política o resto do tempo (e contra nós próprios falamos). É sermos mais cidadãos do que eleitores.
Não duvidemos, estes cães mordem-nos mas a caravana há-de passar, a bem ou à força – meus senhores, não tomem como garantidas as cadeiras em que estão sentados. Não seriam os primeiros a cair delas… E não, não somos perigosos revolucionários, somos apenas dois cidadãos que não se conformam com esta canga que nos puseram.

Viva o 25 de Abril! Viva Portugal!

tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos (de cravo vermelho na lapela mas ainda sem G-3 na mão)

 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dos cravos da esperança à revolução em liberdade

Com a devida vénia, reproduzo abaixo um brilhante texto sobre o 25 de Abril, publicado aqui, no blog do FRES. Tiro o meu chapéu e curvo-me respeitosamente perante o brilhantismo e a clarividência deste testemunho.

Um aplauso!

"A Revolução de Abril é digna de singularidade histórica. Não me refiro à ingenuidade associada à escassa assertividade quanto ao caminho até agora traçado e às decisões tomadas ao longo das últimas quatro décadas. Refiro‑me à espontaneidade de um povo que, de um modo geral, transformou o veneno da dor e a sede da vingança em cravos da esperança.

Ante as atrocidades cobardes desferidas por batalhões de repressores com raciocínio automático e curto e com orelhas maiores do que as suas cabeças, seria expectável que com a Revolução se aplicasse a justiça do olho por olho, dente por dente. Ou seja, esperar‑se‑ia que a justiça viesse não só com a pena de prisão mas com a merecida (e no mínimo comparável) tortura física e psicológica. Ao invés, a aguardada sentença de dar a conhecer aos carrascos o inferno terrestre foi substituída pela amnésia de ignorar as desumanidades impostas pela lei da miséria a muitos milhares de patrícios trabalhadores e íntegros.

Meteu‑se tudo no mesmo saco: os que, apesar de exercerem as suas funções profissionais de defesa do regime ditatorial, ali e além transpiravam sinais de quem vivia em conflito com a própria consciência – admito que houvesse pessoas do regime com algum sentimento –; e os que desempenhavam, de corpo e alma, a tarefa vil de regar com tortura o desejo de liberdade acerrimamente enraizado no sonho dos indefesos que estiveram sob a mira dos informadores ignóbeis e dos gorilas abjetos da doutrina da desgraça. Por não ter existido qualquer distinção, como acabou de ser mencionado, parece que até em termos de perdão a democracia quis estabelecer‑se. Custou aceitar, sobretudo quem conviveu permanentemente com a lembrança insanável do passado.

Praticamente nada aconteceu aos carniceiros que, julgando‑se os representantes máximos de um Deus maior, vasculharam os sentimentos e os valores de jovens e de homens e mulheres adultos; espancaram e assassinaram sem piedade nem razão; praticaram a insuportável tortura do sono; perpetraram outros inúmeros sofrimentos sórdidos aos inquiridos durante os interrogatórios, tais como arrancar unhas, apagar cigarros na pele ou – como fizeram ao meu avô – espetar na cara garfos de ferro (bem afiados, não como os de inox). A suavidade ou a impunidade da resposta no pós-25 de Abril aos crimes cometidos foi extensível aos mentores e aos capatazes, nomeadamente, da «frigideira» do Tarrafal, das idas para o «segredo» dos cárceres e das celas subterrâneas encostadas ao mar para que os presos políticos beneficiassem do conforto de uma cama de água salgada independentemente da estação do ano.

Tantas crianças órfãs, tantas viúvas desconsoladas, tantas mulheres humilhadas, tanta virilidade infértil; enfim, tantos telhados que desabaram nos lares escuros da fome, iluminados apenas pela desconfiança e pelo medo. Sacrifício hercúleo para cumprir com a vida a função do livre pensamento que se impôs aos bravos que desafiaram a opressão, monstro de dezenas de milhares de tentáculos viscosos e inúmeras vezes venenosos, e que a ousaram fitar de cima para baixo. Compreensivelmente, quem viveu na primeira pessoa as crueldades da ditadura sentiu o sabor amargo da injustiça e pôde, com total e exclusiva autoridade, concluir que o sofrimento foi em vão. Como o magnífico José Mário Branco escreveu e musicou, «Quando a nossa festa se estragou/E o mês de Novembro se vingou/Eu olhei para ti/E então entendi/Foi um sonho lindo que acabou/Houve aqui alguém que se enganou». Os excessos esboçados ou praticados desde abril de 1974 até novembro de 1975 foram uma gota perante o rio de sofrimento contínuo a que a chusma foi submetida.

O sentimento da sublime libertação popular consumou‑se em termos políticos em 1974. Acima do que Hermes fizera ao gigante Argos de cem olhos, os combatentes lusitanos usaram a espada da liberdade para decepar o monstro atrás descrito. Quando brotou a primavera não houve tempo para a vingança. Esta morreu no mesmo instante em que nasceu a tão aguardada esperança. Cumpre reconhecer que somente uma gente pachorrenta mas nobre em intenção incorpora tamanho estofo, de passar o sofrimento para o estrato mais baixo do esquecimento.

Duas décadas depois, a História registou a repetição de um perpétuo episódio semelhante referente à capacidade de perdoar os carrascos: o conduzido por Nelson Mandela. Xanana Gusmão, nos primeiros anos deste milénio, deu o mesmo exemplo de reconciliação nacional, ao fim de a excelsa população timorense ter sido submetido a cerca de três décadas de barbárie. Apenas os povos e as pessoas de superior dimensão conseguem tamanhos feitos de humanismo.

Para honrar os que tiveram de padecer como a única via para podermos inalar um futuro diferente, a homenagem que continua em falta consiste em colocarmos a reflexão e a vontade, despidas de umbiguismos, ao serviço do bem comum. Haja humildade para reconhecer que o derrube do muro da ditadura não abriu todas as portas da verdadeira democracia. Urge agora derrubar as muralhas da ignorância e do egoísmo, para sair do mundo da palavra e entrar no da ação.


É o que ainda carece. Para não dilapidar mais o tempo, tarda a segunda parte da revolução: a revolução em liberdade. Esta era com certeza a convicção última, e porventura íntima, dos compatriotas que sofreram durante o carcomido Estado Novo e se entregaram desinteressada e heroicamente à façanha da mudança de destino do País. Liberdade à alma dos que tombaram para alcançar a primeira fase da revolução. Ao fim de quarenta anos é hora de concretizar a segunda fase da obra."

domingo, 5 de janeiro de 2014

Até sempre, Pantera Negra



Eusébio da Silva Ferreira
(25/1/1942 - 5/1/2014)