terça-feira, 23 de dezembro de 2003

Com espírito pouco natalício

Estamos naquilo a que se poderia chamar uma “silly season”. Nesta época torna-se obrigatório ser solidário e bonzinho, mesmo que se passe o ano a sacanear o próximo. Dá-se presentes a torto e a direito, fazem-se almoços e jantares de empresas, onde se juntam em ambiente festivo pessoas que se calhar se detestam o resto do ano, somos bombardeados com possíveis ofertas para os pais, filhos, namorados/as, todo o tipo de bebidas e comidas adequadas à época, no dia 25 lá vão passar na televisão 50 reportagens, sempre iguais ano após ano, sobre as ementas de Natal com o famigerado bacalhau com couves (mas há tantas maneiras bem melhores de comer bacalhau, por que raio é que há-de ser com couves?). E, claro, vai passar pela 35ª vez o “Sozinho em casa” na SIC.
Passam-se dias numa azáfama absurda para comprar presentes, o que provoca filas intermináveis nos centros comerciais e no trânsito. E se todos ficassem sossegadinhos em casa e dessem só prendas aos filhos, como se fazia antes? Não havia “playstations”, nem catálogos do Continente onde os petizes escolhem e pedem os brinquedos que querem. Antes pedia-se ao Pai Natal e podia ser que se tivesse sorte. Segundo estudos recentemente divulgados, parece que há quem chegue a gastar 500 euros (sim, são 100 contos!!!) em presentes para os filhos. Mas está tudo doido? É assim que querem formar pessoas responsáveis? Caiu-se definitivamente na febre consumista sem qualquer critério, e sem mostrar às criancinhas que os presentes custam dinheiro e o dinheiro tem que ser ganho com esforço? Para alguns, pelo menos...
Mas o mais irritante nisto tudo são os detestáveis símbolos que começam a aparecer por todo o lado. Para além das inócuas iluminações de rua, que dão outra alegria (e se assim é, porque é que não ficam todo o ano? Só nesta época é que se pode gastar dinheiro em iluminações?), surgem uns ridículos barretes de Pai Natal nos logótipos das televisões, mas o pior de tudo é nas estações de rádio, aqueles separadores que vão passando entre as notícias, os anúncios e os sinais horários. Aquela música de 10 segundos que nos habituamos a ouvir ao longo do ano, sempre igual, e que se torna a imagem de marca da estação, passa a estar acompanhada com um som de fundo de sinos a tocar ou guizos a fazer lembrar as renas do Pai Natal. E assim todas as músicas separadoras na rádio transformam-se, subitamente, em separadores natalícios. Como se isso lhes desse alguma mais valia, as tornasse mais bonitas ou melhorasse a qualidade da estação.
Então e aqueles que não são religiosos? Porque é que hão-de levar com esta panóplia de lugares comuns e frases feitas, a propósito de factos em que não acreditam? Já para não falar nas costumeiras canções de Natal que ensinam às crianças, que continuam a falar na virgem Maria e no menino Jesus, e que os pobres inocentes repetem mecanicamente pensando que tudo aquilo é verdade. Mas já alguém pensou em explicar como é que uma virgem é mãe, ou uma mãe é virgem? A fraqueza do princípio é tanta que este se baseia, há 2000 anos, numa incongruência anatómica.

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