sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

As Tetas da Vida - A Primeira Vez

Algum dos senhores leitores (isto dispensa as senhoras leitoras desta cogitação) entende as mulheres? Ena, um senhor na terceira fila levantou a mão! Ah… só quer saber onde é a casa de banho… Pois é, ninguém respondeu afirmativamente.
Pediram-me os autores deste blog a colaboração presente (gratuita, obviamente) e deixaram-me a incauta liberdade de escolher o tema. Mal sabem eles no que se meteram! Não é que escolhi falar sobre esse divino bicharoco que é a mulher? Apesar de divino, partilha outra coisa com o conceito de divindade: embora aceitemos que existem, sabemos muito pouco sobre elas… e o pouco que conhecemos não sabemos se foi inventado por alguma mãe extremosa que quis endeusar o seu rebento.
Por vezes são completamente contraditórias nos sinais que emitem, evitando assim qualquer teorização ou sistematização sobre o seu comportamento típico.
Estava eu há poucos dias ao balcão de uma conhecida discoteca da capital, absorto no meu gin tónico e nos seios da dama que se abanava (dançava, suponho) mais perto de mim, quando a minha visão periférica captou um olhar insistente de uma companheira de balcão. A mim, que até ao quarto gin não me escapa nada deste tipo de manifestações, enfrentei aquele olhar com o meu e recebi um sorriso. Bem, Valter, é desta que não sais daqui sozinho, pensei eu com os botões do meu pulóver grená. Fui alternando o olhar entre o sorriso dela e os seios da outra (ainda não decidira o que valia mais a pena) durante alguns minutos, mas o mordiscar dela no palito de plástico da bebida da forma mais sensual que eu já vira (incluindo o canal 18!) decidiu-me. Avancei de cadeira em cadeira (ainda bem que estavam vazias) e acerquei-me dela com o meu melhor olhar matador, do alto do meu imponente metro e setenta. Ela continuava a mordiscar no raio do palito.
Se hoje estou aqui a contar-vos isto a partir do meu lar e não a ditá-lo de uma cama anónima de um hospital público é porque penso depressa. Consegui alterar o meu ar de engate para um pedido expressivo ao barman numa fracção de segundo o que, penso, me salvou de ser espancado pelo namorado que entretanto aparecera, estilo gigantone de Torres Vedras, e que por um momento me olhara com um olhar sanguinário, estilo Stalone mas mais selvagem.
Acho que ainda deve ter ficado desconfiado por eu estar a pedir outra bebida com um gin tónico ainda por metade na mão, mas como devia ter uma relação “tamanho do corpo – tamanho do cérebro” parecida com a dos dinossáurios, safei-me com a patranha engendrada no momento.
Agora digam-me – porque raio estava aquela fêmea a desencaminhar-me para caminhos do mal (o meu mal, obviamente – ser espancado não consta de nenhum dos meus fetiches ou obsessões) quando tinha o troglodita ali à distância de um soco?
Há certas pulsões femininas que penso funcionarem em modo automático e me parecem desencadeadas pelo ambiente e condições do exemplar – desencadeiam certas acções que me lembram aquelas flores magníficas que enganam os pobres insectos: eles pensam que estão no melhor dos mundos a sugar-lhes o pólen, mas quem vai colher os frutos da situação são elas (que lindo trocadilho, até me arrepiei!).
Não sou misógino (até porque só há três dias soube o que isso era), mas no meio de tantas falsas pistas sinto-me como um Poirot de meia-tigela que nem tem o seu Dr. Watson a quem recorrer. Ou era Livingston? Ou esse era do Sherlock Holmes, o investigador sobredotado que faleceu com Sida?
Bem, isto já vai longo e apenas introduzi (verbo curioso este, com tantas nuances) o assunto. Se os donos do blog me deixarem, voltarei a verter (no sentido figurado, é óbvio) algumas frases neste digno contentor. Como diria aquele actor, o Júlio César, “alea jacta est”, que acho que em bósnio quer dizer “agora já não te safas”.

Valter Rego, observador desassombrado (deste circo que é a vida)