sábado, 13 de dezembro de 2003

Com coisas sérias não se brinca

Nada disso. Não se pode ofender os poderes instituídos, os puritanismos hipócritas tão típicos deste povo marcado a ferro e fogo por meio século de obscurantismo salazarista, a santa madre igreja com as suas missas, beatas e os padrecos pedófilos, sua santidade o papa decrépito, a cair da tripeça, mas tentando aguentar firme e hirto, como diria o Alexandrino, para levar o seu pontificado até ao fim... dele próprio! Não se pode pôr em causa a moral (que moral?) católica e cristã (confesso que não sei muito bem qual é a diferença, e também nunca me preocupei muito com isso) que impede que se faça uma lei do aborto justa e moderna, que acabe de uma vez por todas com a farsa dos abortos clandestinos que só prejudicam as próprias mulheres que os fazem, enquanto os defensores do “direito à vida” (mas não do “direito a uma vida digna”) continuam teimosamente a manter o seu autismo em relação aos dramas da vida real das pessoas reais (sim, muitas são aquelas que, infelizmente para elas próprias, são as tais quase analfabetas que não puderam aprender mais), que passam 4 horas por dia nos transportes como se fossem gado, que se levantam às 6 da manhã e chegam a casa sabe-se lá quando, e ainda têm que tratar do jantar, dos filhos, da lancheira para o dia seguinte para pouparem dinheiro no almoço, e no meio disto tudo de vez em quando ainda têm que arranjar um bocadinho para o sexo... se calhar sem grande vontade.
E depois, ou se esquecem do preservativo ou da pílula, e quando por azar, por descuido ou ignorância, surge uma gravidez indesejada, a sociedade retrógrada condena-as a terem que carregar com o peso de mais um filho para quem não há quarto em casa, não há cama, não há dinheiro...
Com coisas sérias não se brinca. O direito à vida acima de tudo. Será? Não para nós, obviamente. Se não se brinca com coisas sérias, valerá realmente a pena brincar? Pois nós prometemos brincar com todas as coisas sérias, ser politicamente incorrectos, ser socialmente deslocados, desbocados se for caso disso. Prometemos brincar com tudo o que nos der na real gana, malhar sem olhar a quem, distribuindo pancada democraticamente!
Afinal, se o Herman José pode gozar com tudo e com todos, porque é que nós não podemos?...

Kroniketas, sempre kontra as tretas