segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

A iliteracia na tugalândia – A vingança do chinês

Já pensou se, de cada vez que inspirasse ou expirasse, tivesse de pensar em tudo o que tinha de fazer o seu corpo para executar essa simples acção? Milhares de vezes por dia?
Agora pense se tivesse de fazer o mesmo de cada vez que fizesse uma simples conta de multiplicar – se não soubesse imediatamente que 7 x 9 são 63, lá teria de somar 7 parcelas iguais a 9 para saber o resultado. Parece estúpido, não parece? Mas é isso que está a acontecer (para não irmos mais longe) com os nossos nóveis universitários. Estão a entrar na universidade, mas ainda contam pelos dedos…
Que anátema caiu sobre o acto de decorar que foi banido das nossas escolas primárias? Dizem que o que é fundamental é compreender antes de criar os automatismos. Muito bem, então comecem a ensinar teoria dos números no 1º ano do 1º grau! Não foi preciso conhecer essa teoria para que conseguíssemos executar operações aritméticas normais, tal como não é necessário saber de antemão física e química avançadas para compreender os estados fundamentais da matéria.
Que mal há então em decorar a tabuadazita, que até é coisa que nos vai ser útil mais à frente? Que não se decorem todas as estações e apeadeiros da Linha do Norte entendo, porque era completamente estúpido e praticamente inútil – bastaria saber que ela existe e onde começa e acaba. Mas alguém me explica que malefício insondável advém à mente das criancinhas por decorarem a tabuada antes de saberem o que é um anel?
Tal como quem lê normalmente não soletra, antes reconhece formas, padrões e palavras, também quem faz uma multiplicação elementar não pensa no algoritmo da soma de parcelas iguais – pensa na tabuada que decorou ainda pequenino e que lhe dá a base para poder fazer operações mais complexas.
É por estas e por outras que ainda hoje li no Expresso, numa entrevista com o Rui Veloso, que ele era a favor de “cotas obrigatórias” de música portuguesa na rádio. Parece que com o advento dessa lei só poderão passar nas rádios músicas com cota igual ou superior a 30 metros! Porra, comprem um dicionário!!! Ou é preciso ser “cota” para saber a diferença entre “cota” e “quota”?
Outra que agora me ocorre é precisamente esta: ao longo destes anos, na tv, rádio e imprensa, quantas pessoas não “ocorreram” já a locais para presenciarem eventos que lá “acorreram”? Ó santa ignorância! Esta de chamar santa à ignorância também tem que se lhe diga – haverá alguma santa com este nome, patrona dos pobres de espírito? Ou a ignorância é mesmo um estado de beatitude? Cheira-me a influências cripto-salazarentas…
Um dia destes prometo que abordarei a odisseia dos pronomes clíticos, que tão mal são tratados nesta terra.
tuguinho