segunda-feira, 29 de dezembro de 2003

O Impulso Estético (1) – O custo de vida

Nestes dias de festa programada e consumismo assumido em que, quer queiramos quer não, acabamos por entrar no jogo, é talvez a altura ideal para meditar sobre certas coisas que compõem a nossa vida.
O burburinho da civilização levou-nos a viver rodeados de coisas que nos confortam a existência ou nem isso, mas que somos levados a ter porque, por pressão directa ou indirecta da sociedade, parece mal não termos. Não é que muitas delas não sejam úteis, o problema é a sua sobrevalorização! Além das coisas que são simplesmente sumptuárias ou nos amaciam o ego e nem deviam ser consideradas, mesmo o que nos facilita a existência foi colocado num pedestal e substitui hoje em dia a densidade intrínseca das pessoas. Dizerem-me que ela tem um vestido feito por A ou B ou que ele tem um roupeiro cheio de peças da marca X não diz nada sobre ninguém!
Não me interpretem mal! Não sou nenhum ecologista radical que pensa que devíamos viver em refúgios nas rochas e sermos novamente presas e não predadores para não perturbarmos o livre curso da natureza. Eu, consumista, me confesso. E adoro os meus gadjets e os meus DVD’s e os meus Cd’s e os meus livros e a minha X-Box e o meu automóvel e… Simplesmente acho que muitos de nós foram longe demais e substituíram todo um lado metafísico pelos bens materiais. Não há aqui qualquer sentido religioso na expressão – mas a vida não se resume às festas a que podemos ir, à roupa que podemos comprar ou ao automóvel que podemos ter. Tudo isto pode ser importante para uns e para outros, mas não ser exacerbado ou conquistar o todo quando devia ser apenas a parte.
Então e tudo aquilo que é intangível, como a amizade, o amor, o ódio (às vezes são parecidos) e a paixão, ou transcendente, como o sentido do divino (que não se limita aos cadernos de encargos daquilo a que chamamos religiões) ou o impulso estético, que nos leva a criar e que está na origem de todas as artes (entendidas em sentido lato), de qualquer acto de criação, daquilo que realmente nos diferencia da besta? Onde está o que dá espessura a uma pessoa, que lhe dá identidade e a torna diferente das outras? Somos cada vez mais arquétipos, clones de tipos definidos que repetem os mesmos tiques, os mesmos gestos. Todos usamos as mesmas marcas, temos os mesmos gostos e vamos às mesmas festas.
Se nos despirmos de toda a parafernália que produzimos ao longo de milhares de anos de civilização, o que é que fica? Seremos mesmo mais evoluídos do que os homens que pintaram as paredes de Lascaux? Ou simplesmente iguais? Eles só tinham a pedra das paredes da gruta e eu tenho um computador portátil, não preciso de misturar tintas nem de sujar os dedos e tossir com o fumo dos archotes.
O homem passou a ser verdadeiramente homem quando traçou algo sobre alguma coisa e o admirou pelo que era e não pela utilidade que poderia ter. Neste espaço epigrafado “O Impulso Estético” procuraremos sobretudo pensar, para lá de imediatismos e utilitarismos, sem intelectualites nem outras doenças culturais que tornam o tema uma seca. Não somos ratos de biblioteca nem lemos os clássicos (bem, alguns lemos mesmo…), somos um produto assumido da era da caixa que mudou o mundo, mas nem por isso desistimos de pensar ou nos resignamos a ser mais alguns a engrossar a rave ininterrupta da carneirada. We’ll be back!

Os Diletantes Preguiçosos (email4feedback: kronikastugas@hotmail.com)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2003

Ladrando à Lua (7) - E sair do raio do parque?

Pois é, lá vamos ter que zurzir em mais alguém. Então não é que os nossos amigos espanhóis fizeram um Corte Inglês em Lisboa com uma entrada para o estacionamento que enjoa, de tanta voltinha em espiral, e onde mal cabe um carro?
Mas se para entrar é mau, para sair é pior. Em dias de muito afluxo de trânsito, é o caos. Consta que chegam a ficar as saídas bloqueadas, o que é óptimo para quem tiver claustrofobia. Há quem demore uma hora e meia para sair do parque. Quem tiver crianças, como é? Podem ficar ali a apanhar todo aquele fumo? E os carros, sempre a subir, podem aguentar tanto tempo em arranques em ponto de embraiagem? Se algum avaria, então é que mais ninguém sai.
Se calhar esqueceram-se de verificar primeiro que aquela é uma zona de muito trânsito em horas de ponta, com vários semáforos que entopem o trânsito. Quem sair do parque e os apanhar, está tramado. O resultado é hora e meia para sair do raio do parque. Em comparação com o Colombo, por exemplo, a diferença é abismal, porque as saídas do Colombo dão todas para vias onde quase todo o trânsito é o que sai do parque, e só depois é que se entra nas outras vias de trânsito.
Por mim, também só me apanham lá por engano. Além de ser mais um produto espanhol francamente desagradável na sua concepção (nunca gostei daquele tipo de espaço, em que se está sempre dentro de uma loja mesmo que não se queira), arriscar-me a apanhar uma seca monumental para me ir embora é um excelente convite para não pôr lá os pés.
Ah, e já agora convém saberem que o chamado S. A. C. (Serviço de atenção ao cliente) demora mais de meia-hora se tivermos a módica quantidade de 6 pessoas à nossa frente. Já lhes sugeri que mudassem o nome para "Serviço de seca ao cliente".
Este Corte Inglês é mais um hino à estupidez, de que o nosso país está cheio. Por mim, digo-lhes o mesmo que aos cinemas com as malditas pipocas: PUTA QUE OS PARIU!!!

Kroniketas, sempre kontra as tretas

A Voz do Povo (periódico sem data certa)

Os outros países têm estadistas nos seus governos. Nós optámos por ter seguidistas…

Blogoberto, chico-esperto

As Tetas da Vida - A Primeira Vez

Algum dos senhores leitores (isto dispensa as senhoras leitoras desta cogitação) entende as mulheres? Ena, um senhor na terceira fila levantou a mão! Ah… só quer saber onde é a casa de banho… Pois é, ninguém respondeu afirmativamente.
Pediram-me os autores deste blog a colaboração presente (gratuita, obviamente) e deixaram-me a incauta liberdade de escolher o tema. Mal sabem eles no que se meteram! Não é que escolhi falar sobre esse divino bicharoco que é a mulher? Apesar de divino, partilha outra coisa com o conceito de divindade: embora aceitemos que existem, sabemos muito pouco sobre elas… e o pouco que conhecemos não sabemos se foi inventado por alguma mãe extremosa que quis endeusar o seu rebento.
Por vezes são completamente contraditórias nos sinais que emitem, evitando assim qualquer teorização ou sistematização sobre o seu comportamento típico.
Estava eu há poucos dias ao balcão de uma conhecida discoteca da capital, absorto no meu gin tónico e nos seios da dama que se abanava (dançava, suponho) mais perto de mim, quando a minha visão periférica captou um olhar insistente de uma companheira de balcão. A mim, que até ao quarto gin não me escapa nada deste tipo de manifestações, enfrentei aquele olhar com o meu e recebi um sorriso. Bem, Valter, é desta que não sais daqui sozinho, pensei eu com os botões do meu pulóver grená. Fui alternando o olhar entre o sorriso dela e os seios da outra (ainda não decidira o que valia mais a pena) durante alguns minutos, mas o mordiscar dela no palito de plástico da bebida da forma mais sensual que eu já vira (incluindo o canal 18!) decidiu-me. Avancei de cadeira em cadeira (ainda bem que estavam vazias) e acerquei-me dela com o meu melhor olhar matador, do alto do meu imponente metro e setenta. Ela continuava a mordiscar no raio do palito.
Se hoje estou aqui a contar-vos isto a partir do meu lar e não a ditá-lo de uma cama anónima de um hospital público é porque penso depressa. Consegui alterar o meu ar de engate para um pedido expressivo ao barman numa fracção de segundo o que, penso, me salvou de ser espancado pelo namorado que entretanto aparecera, estilo gigantone de Torres Vedras, e que por um momento me olhara com um olhar sanguinário, estilo Stalone mas mais selvagem.
Acho que ainda deve ter ficado desconfiado por eu estar a pedir outra bebida com um gin tónico ainda por metade na mão, mas como devia ter uma relação “tamanho do corpo – tamanho do cérebro” parecida com a dos dinossáurios, safei-me com a patranha engendrada no momento.
Agora digam-me – porque raio estava aquela fêmea a desencaminhar-me para caminhos do mal (o meu mal, obviamente – ser espancado não consta de nenhum dos meus fetiches ou obsessões) quando tinha o troglodita ali à distância de um soco?
Há certas pulsões femininas que penso funcionarem em modo automático e me parecem desencadeadas pelo ambiente e condições do exemplar – desencadeiam certas acções que me lembram aquelas flores magníficas que enganam os pobres insectos: eles pensam que estão no melhor dos mundos a sugar-lhes o pólen, mas quem vai colher os frutos da situação são elas (que lindo trocadilho, até me arrepiei!).
Não sou misógino (até porque só há três dias soube o que isso era), mas no meio de tantas falsas pistas sinto-me como um Poirot de meia-tigela que nem tem o seu Dr. Watson a quem recorrer. Ou era Livingston? Ou esse era do Sherlock Holmes, o investigador sobredotado que faleceu com Sida?
Bem, isto já vai longo e apenas introduzi (verbo curioso este, com tantas nuances) o assunto. Se os donos do blog me deixarem, voltarei a verter (no sentido figurado, é óbvio) algumas frases neste digno contentor. Como diria aquele actor, o Júlio César, “alea jacta est”, que acho que em bósnio quer dizer “agora já não te safas”.

Valter Rego, observador desassombrado (deste circo que é a vida)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2003

Ladrando à Lua (6) - Ora pipocas...

Fomos uma grande nação há 500 anos (atenção: escreve-se HÁ 500 anos, do verbo haver, e não À 500 anos). Segundo reza a história (isto se os cronistas não fossem todos uns grandes mentirosos), demos novos mundos ao mundo, passámos o cabo Bojador e o cabo das Tormentas, traçámos a rota para a Índia, descobrimos o Brasil, ajudámos a escrever o mapa do mundo (isto descontando, claro, que chegávamos aos territórios de África e dizimávamos os indígenas - não era propriamente uma ocupação pacífica; e que os marinheiros não eram intrépidos aventureiros, mas dos piores bandidos e condenados do reino que eram metidos quase à força nas caravelas, para se verem livres deles; mas isso são contas doutro rosário...). Enfim, tivemos algum poder no mundo, como outros países que tiveram colónias por aí e ainda hoje mantêm ligações aos ex-territórios, casos da Espanha, França e Inglaterra. Depois foi a decadência (alguns anitos depois, mas foi...). Um governo autista e fechado sobre si mesmo não resolveu a tempo a questão de África, deixando o odioso da descolonização e respectivas sequelas para os que vieram depois e tiveram que resolver tudo mal e porcamente, porque feito à pressa. Contingências da história...
O que é triste é termos deixado os nossos valores irem todos pelo cano, estando a transformar-nos cada vez mais numa colónia de todos os que cá entram, tanto a nível económico (ainda outro dia alguém escreveu que nem no tempo dos Filipes a Espanha nos dominou tanto como agora...), como, sobretudo (e isto é que é mais lamentável), a nível cultural. Hoje, cada vez temos menos referências, adulterando a nossa língua e os nossos hábitos ao sabor de qualquer moda imbecil que nos aparece pela porta dentro. Os exemplos multiplicam-se e estão a atingir proporções impensáveis. Desde a colonização linguística importada do Brasil, à assimilação indiscriminada dos mais estúpidos hábitos americanos (mas há alguma coisa que venha de lá e não o seja?). Entre estes, e já descontando os inevitáveis hambúrgueres, tivemos ultimamente o aparecimento de uma tal noite das bruxas, que só existe nos Estados Unidos e que nunca teve por cá qualquer significado, tal como antes já tivéramos o dia de S. Valentim, que não passam de mais pretextos para incitar ao consumismo desenfreado. Mais recentemente ainda, foi introduzido o Hard Rock Café, que para além de ser um espaço interessante nas referências a nomes famosos do rock, em termos gastronómicos é mais uma porta de entrada na comida americana, que eu francamente não sei se deva chamar “fast food” ou “fast die”, tal é o teor dos temperos usados. Provando um daqueles petiscos, facilmente se percebe porque é que uma grande parte dos americanos é obesa. Francamente, já tínhamos cá que chegasse para nos engordar, esta nova moda não fazia cá falta nenhuma.
Pior é outro hábito que se começa a enraizar, que é o das mulheres porem silicone no peito, porque querem fazê-lo maior (vá lá saber-se porquê), só porque nos EUA gostam de mamas do tamanho de pães de quilo, que como se pode ver em filmes ou fotografias são uma verdadeira aberração estética. Outra mania inexplicável é a de rapar os pêlos púbicos (nas mulheres e nos homens) ou fazer circuncisões (outra tradição de alguns povos que vivem na pré-história e de outros que já não deveriam viver), hábitos que são publicitados nalgumas séries americanas, como se questões relacionadas com os genitais fossem objecto de moda! Um dia destes, se calhar, ainda vamos começar a comemorar também o Dia da independência a 4 de Julho e o Dia de Acção de Graças, que ninguém sabe o que é!
Mas se muitas destas modas importadas são, já de si, suficientemente imbecis, há uma que é a estupidez levada ao extremo, e que é mais irritante que qualquer outra, porque incomoda quem está à volta. Refiro-me a essa mania aberrante que existe nalguns cinemas (da Warner Lusomundo, principalmente) de comprar e levar para dentro da sala baldes enormes de pipocas, que depois são furiosamente devoradas pelos ávidos cinéfilos (?), para quem parece que um filme não pode ser visto sem estarem a ruminar durante duas horas como se fossem bovinos. Se querem fazer papel de parvos, o problema é deles. Só que os outros espectadores, que APENAS pretendem ver um raio dum filme em sossego, têm que passar duas horas a ouvir um bando de imbecis a mastigar no cinema e a chocalhar as malditas pipocas no balde! Uma vez tive que mudar para um lado da sala onde ficasse o mais longe possível da manada de ruminantes, de modo a não ouvir aquela anormal banda sonora.
O mais grave nisto é que pessoas nossas amigas, que muitas vezes até consideramos inteligentes e sensatas, alinham nesta completa estupidez, encharcando-se parvamente dum produto que, francamente, nem sei que aliciante é que tem. Há um princípio que todos deveriam seguir: o cinema é para ser visto em silêncio e numa sala escura, ao contrário da televisão. Para além dos diálogos e da banda sonora do filme, são normais as gargalhadas do público nas comédias, ou umas lagrimazinhas nos maiores dramas. Mas o SOM DE MASTIGAÇÃO DE PIPOCAS, definitivamente, não faz parte dos adereços que devem estar presentes numa sala de cinema! E a coisa é tão perversa que eles até têm a lata de afixar um letreiro, onde avisam que não é permitido levar para a sala comidas ou bebidas que não tenham sido compradas no cinema. Ou seja, se comprarmos o famoso hamburger nos amigos do McDonald’s temos que comê-lo cá fora. Mas pipocas, não. Parece mesmo que a maior parte da facturação destes cinemas é, precisamente, com a venda das malditas pipocas. Comigo, iam à falência.
Por mim, já decidi não ir a cinemas destes. Felizmente ainda há cinemas (infelizmente poucos) onde o letreiro avisa que não se pode comer ou beber dentro das salas. Aleluia! Só lamento que a esmagadora maioria dos meus compatriotas não siga este princípio. Porque, já agora, gostava de perceber uma coisa: se toda a vida se viu cinema sem comidas nem bebidas, por que carga de água é que precisam de mastigar pipocas enquanto vêem um filme? (E já agora: VÊEM, do verbo VER, e não VÊM, do verbo VIR).

Kroniketas, sempre kontra as tretas

O presidente mais bronco da história

Só podia vir dos Estados Unidos, claro. Como quase tudo o que vem de lá que não se aproveita. Falamos, naturalmente, de George W. Bush, um texano ignorante e estúpido em último grau, que só poderia ser presidente daquele país. Razão tinha Fidel, quando disse que esperava que ele não fosse tão burro como parecia. Enganou-se! É mais! Até nós, com a nossa mentalidade pequenina, temos tido a sabedoria de eleger, normalmente, o melhor presidente. Se recuarmos ao 25 de Abril e olharmos para os candidatos presentes nas várias eleições, facilmente concluimos que, na hora de escolher o presidente, o povo português tem escolhido sempre bem. Qualquer outra escolha, em todas as eleições, teria sido sempre pior. Até agora.
Mas do país dos donos do mundo, onde tudo vale, até criar um método aberrante onde o candidato com mais votos pode perder as eleições (e assim aconteceu da última vez), chega-nos este espécime que só vê cifrões à frente e não olha a meios para atingir os seus fins, os fins que interessam ao país dele. Nem que para isso tenha que mentir descaradamente perante o mundo, garantindo que existem armas de destruição maciça onde, até agora, ainda ninguém as encontrou, quando toda a gente sabe que o seu único interesse é o petróleo.
Mas lá foram os patinhos todos atrás de sua excelência (com o nosso primeiro-ministro a fazer a triste figura do pigmeu que se põe em bicos de pés porque quer aparecer nas fotografias) até que, finalmente, puderam anunciar ao mundo, “urbi et orbi”, triunfantes: “ladies and gentlemen, we got him!” E o mundo rejubilou!
E agora? O homem vai ser julgado ou não? Aqui é que as coisas se tornam mais perversas. Toda aquela exibição do exame aos dentes e ao cabelo é profundamente degradante. Deteste-se o ditador, mas há ali um indivíduo, que para todos os efeitos era presidente de um país que foi invadido, que tem direitos como qualquer outra pessoa. Aliás, mostraram-se satisfeitos por tê-lo capturado vivo. Pergunto eu: porquê? Para poderem agora humilhá-lo? Para pedir a pena de morte? Claro que o bronco já pediu a pena de morte. Nem podia ser de outra forma. Mas se querem matá-lo, porque não o matam já? Porque não o mataram quando o capturaram? Ninguém via, podiam dizer que ele ofereceu resistência, houve troca de tiros e atingiram-no. Tal como se disse de Savimbi, que também ninguém viu. Era mais aceitável e ninguém contestava. Agora ISTO? Apanhá-lo vivo para mostrar o quê? Vão julgá-lo com a sentença já ditada? Então mais vale encostarem-no a um muro frente a um pelotão de fuzilamento, como faziam os nazis, e acabarem já com ele. Mas por favor, não continuem a fazer de todos nós parvos. Porque o parvo-mor é aquele que pensa que nos engana a todos. Mas nem todos engolem as patranhas de um qualquer Durão...

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terça-feira, 23 de dezembro de 2003

Ladrando à Lua (5) - Seja um NetNabo!

Na continuação das generosas “ofertas” que nos fazem via telefone, temos dois planos de acesso à Internet que merecem ser contados, e que merecem ser denunciados à Deco e ao Instituto do consumidor.
Os simpáticos da Portugal Telecom, que todos os meses esmifram o cliente com uma assinatura de 3 contos só por ter um aparelho em casa, também me fizeram recentemente uma generosa oferta. Tratava-se de me instalarem gratuitamente uma segunda linha telefónica para me dar a possibilidade de aceder à Internet sem ocupar a linha do telefone de casa. Durante 6 meses a utilização desta linha seria gratuita, após o que eu passaria a pagar uma assinatura igual à que já pago para ter o telefone em casa. Isto quer dizer que, quer utilizasse ou não a Internet, pagaria sempre a tal assinatura. E pronto. Depois o acesso seria por minha conta e risco, naturalmente pagando o acesso que escolhesse. Falta dizer que esta linha não era RDIS, não era cabo, era uma linha normalíssima, com a lentidão que aqueles que usam (ou já usaram) este tipo de acesso bem conhecem. Depois haveria que juntar a este custo o próprio custo das chamadas de Internet, ou seja: gastando cerca de 20 euros por mês a somar à assinatura, chega-se facilmente a um gasto equivalente a uma assinatura na NetCabo com tempo de acesso ilimitado e 100 vezes mais rápida. Pergunto: isto não é uma vigarice?
E por falar em NetCabo, estes nossos amigos não podiam faltar no rol dos aldrabões. Valendo-se do monopólio que detêm em determinadas zonas do país, praticam os preços que querem e prestam um serviço que deixa muito a desejar. Para quem pretende ter um acesso por cabo, as hipóteses são duas: ligação ilimitada por 34,99 euros, disponível 24 h/dia (o sistema Speed On) ou pagar 62 cêntimos por cada meia-hora de utilização, 1,24 euros por hora (Speed Use). Este sistema é melhor para quem não faz uma utilização intensiva do serviço ao longo do mês, mas requer que se tenha atenção aos tempos de ligação, porque 28 horas de utilização por mês atingem o valor do Speed On, e aqui valerá mais a pena mudar para este sistema.
Mas os nossos amigos andam agora a anunciar outro acesso: o Speed Light. Um dia destes passei numa loja com um anúncio e fui-me informar. O preço é de 26,5 euros por mês e inclui 10 horas de navegação. A partir das 10 horas, paga-se 0,025 euros por cada meia-hora.
Agora é só fazer contas: com o Speed Use, por 26,5 euros pode-se navegar 21 horas, e navegando 10 horas gasta-se apenas 12,40 euros. Posto isto, pergunto: que vantagens tem isto para o utilizador? Quem souber que responda, porque a mim parece-me que se trata apenas de publicidade enganosa, e uma forma despudorada de enganar os incautos, que não estão bem informados nem habituados a fazer estas contas. Mas elas até não são difíceis de fazer, e mostram que a empresa, ao criar este sistema, não está a agir de boa-fé perante os consumidores.
É preciso denunciar estas vigarices para que estes golpes baixos sejam postos às claras perante toda a gente. Mas é este o resultado destes monopólios perversos. Afinal, são duas empresas (PT e TvCabo) que pertencem à mesma. E dali, já se sabe, nunca vem nada de bom!

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Com espírito pouco natalício

Estamos naquilo a que se poderia chamar uma “silly season”. Nesta época torna-se obrigatório ser solidário e bonzinho, mesmo que se passe o ano a sacanear o próximo. Dá-se presentes a torto e a direito, fazem-se almoços e jantares de empresas, onde se juntam em ambiente festivo pessoas que se calhar se detestam o resto do ano, somos bombardeados com possíveis ofertas para os pais, filhos, namorados/as, todo o tipo de bebidas e comidas adequadas à época, no dia 25 lá vão passar na televisão 50 reportagens, sempre iguais ano após ano, sobre as ementas de Natal com o famigerado bacalhau com couves (mas há tantas maneiras bem melhores de comer bacalhau, por que raio é que há-de ser com couves?). E, claro, vai passar pela 35ª vez o “Sozinho em casa” na SIC.
Passam-se dias numa azáfama absurda para comprar presentes, o que provoca filas intermináveis nos centros comerciais e no trânsito. E se todos ficassem sossegadinhos em casa e dessem só prendas aos filhos, como se fazia antes? Não havia “playstations”, nem catálogos do Continente onde os petizes escolhem e pedem os brinquedos que querem. Antes pedia-se ao Pai Natal e podia ser que se tivesse sorte. Segundo estudos recentemente divulgados, parece que há quem chegue a gastar 500 euros (sim, são 100 contos!!!) em presentes para os filhos. Mas está tudo doido? É assim que querem formar pessoas responsáveis? Caiu-se definitivamente na febre consumista sem qualquer critério, e sem mostrar às criancinhas que os presentes custam dinheiro e o dinheiro tem que ser ganho com esforço? Para alguns, pelo menos...
Mas o mais irritante nisto tudo são os detestáveis símbolos que começam a aparecer por todo o lado. Para além das inócuas iluminações de rua, que dão outra alegria (e se assim é, porque é que não ficam todo o ano? Só nesta época é que se pode gastar dinheiro em iluminações?), surgem uns ridículos barretes de Pai Natal nos logótipos das televisões, mas o pior de tudo é nas estações de rádio, aqueles separadores que vão passando entre as notícias, os anúncios e os sinais horários. Aquela música de 10 segundos que nos habituamos a ouvir ao longo do ano, sempre igual, e que se torna a imagem de marca da estação, passa a estar acompanhada com um som de fundo de sinos a tocar ou guizos a fazer lembrar as renas do Pai Natal. E assim todas as músicas separadoras na rádio transformam-se, subitamente, em separadores natalícios. Como se isso lhes desse alguma mais valia, as tornasse mais bonitas ou melhorasse a qualidade da estação.
Então e aqueles que não são religiosos? Porque é que hão-de levar com esta panóplia de lugares comuns e frases feitas, a propósito de factos em que não acreditam? Já para não falar nas costumeiras canções de Natal que ensinam às crianças, que continuam a falar na virgem Maria e no menino Jesus, e que os pobres inocentes repetem mecanicamente pensando que tudo aquilo é verdade. Mas já alguém pensou em explicar como é que uma virgem é mãe, ou uma mãe é virgem? A fraqueza do princípio é tanta que este se baseia, há 2000 anos, numa incongruência anatómica.

Kroniketas, sempre kontra as tretas
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2003

Ladrando à Lua (4) - Alcântara-Ar

É cíclico. De quando em vez surge uma alma iluminada que tenta à viva força transferir Manhattan para Portugal. É certo que ainda nenhuma dessas tentativas se lembrou de colocar um arranha-céus de dezenas de andares num monte alentejano, mas Lisboa e arredores não se livram destas consecutivas manobras de construção em altura.
Depois da Manhattan de Cacilhas – que nem era má de todo, não sou velho do Restelo – calhou-nos o empreendimento Alcântara-Ar, desta vez com tentativa de caucionamento cultural por via do autor do projecto, o Arquitecto Siza Vieira. Autor de diversas obras de grande valor (da que gostei mais foi mesmo dos novos cálices para vinho do Porto!), resolveu agora passar a obras de grande altura. Que isso se passasse em qualquer incaracterística cidade americana, vá que não vá – agora um arranha-céus no vale de Alcântara? Entalado entre a ponte e o aqueduto, qual paliteiro pós-moderno a limpar os dentes a algum deus mais rasteiro?
Mas mais maquiavélico que isso é quererem-nos convencer que a alternativa é ter uma espécie de Chelas para executivos com corredores fininhos entre prédios mais baixos mas mais numerosos! E não construir tanto, já pensaram nisso? Os poderes públicos nada têm a dizer? O lobby do cimento continua a mandar, e com o Santana que não é Vasco (infelizmente) na Câmara apenas ganhámos obras de fachada (túnel para que vos quero!) e magníficos cartazes publicitários – que pelo menos servem para tapar fachadas degradadas e dar mais cor à cidade (mais propriamente, cor de laranja…).
Ouçam antes o Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que é dos poucos que consegue pôr o interesse público à frente das cores partidárias! E tem a vantagem de ser paisagista, pelo que qualquer projecto que risque não vai além das copas das árvores que nele colocar.
Vá a acordar, carneirada! Quem manda no país somos nós todos e não as abéculas, mandaretes e maquiavéis de trazer por casa que ajudámos a colocar nos poleiros a que chamamos Governo e Câmara Municipal! Um cargo político é um mandato para representar quem os elegeu, não para se esquecerem do que prometeram e fazerem o que lhes dá na gana!
(Depois deste arroubo revolucionário, certamente inspirado noutros tempos do nosso Primeiro, voltemos lá à nossa terceira via de vagão de mercadorias…)
Em conclusão, se nada fizermos desta vez, outros paliteiros hão-de aparecer por essa Lisboa fora, nos sítios mais inomináveis, e talvez acabemos por ver uma colina do castelo cercada por magníficos arranha-céus com magníficas penthouses para os barões do cimento e suas marionetas amestradas verem de cima o que tanto Afonso penou para conquistar…
tuguinho, cínico encartado (email4feedback: kronikastugas@hotmail.com)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2003

Néctares de Baco (1) - O preço é só um começo

Lá dizia a propaganda do beato de Santa Comba Dão, que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses.
Nos tempos que correm não serão tantos a comer, com certeza, mas os que produzem fazem-no bem melhor. Findo que está o reinado do vinho a granel, que corria baixo das tabernas esconsas de bairro, nas últimas duas décadas tem sido percorrido um longo caminho em direcção à qualidade.
Não só os produtores, na sua maioria, apostaram definitivamente nessa qualidade, como também os consumidores, inundados de informação vinícola, com guias, roteiros e feiras de vinhos anuais, estão mais exigentes e por isso a selecção dos produtos vendidos tem de ser ainda mais rigorosa. Só há uma coisa que espanta: como é que podem aparecer todos os anos mais não sei quantas marcas de vinho, em particular do Alentejo? Haverá vinha para tanto vinho?
De qualquer modo, há por aí umas preciosidades que vale a pena descobrir (e não queremos com isto armar-nos em críticos da matéria, nem sequer rivalizar com os escritores da nossa praça, até porque os nossos patamares são mais modestos, mas totalmente honestos), sem entrar na loucura de alguns preços verdadeiramente obscenos (cá para mim, 35, 40, 50, 75 euros ou mais por uma garrafa é escandaloso, principalmente para o país que somos).
Um dia destes, quase por acaso, deparei com umas garrafas da Sogrape, sem grande aspecto, com rótulo modesto, preto com letras vermelhas. Dizia apenas isto: Quatro regiões, 1997. Feito com uvas provenientes de quatro das mais famosas regiões do país, Douro (Tinta Roriz), Dão (Touriga Nacional), Bairrada (Baga) e Alentejo (Trincadeira), vinificadas separadamente e depois loteadas para produzir o vinho de que aqui se fala. Classificado como vinho de mesa. Preço: 12,77 EUR, carote.
Contactados os potenciais compinchas do costume, ficou decidido comprar duas que seriam deglutidas por três (sim, porque os amigos não são só para partilhar o néctar, mas também o seu custo). E assim, na primeira ocasião lá se despejaram (para dentro) as garrafas, com a promessa de voltar à carga. Resultado: um espectáculo! Mas vindo da Sogrape outra coisa não seria de esperar. Afinal, de que serve uma classificação do IVV, quando o que está dentro da garrafa é que conta?
Actualmente exagera-se no preço dos vinhos, aproveitando um pouco a moda. Caros amigos, errado é comprar pelo rótulo, ou comprar só o caro porque o caro deve ser bom (se puderem fazê-lo). Se não sabe, procure o conselho de quem conhece, ou um dos inúmeros guias que por aí andam. Mas deixe-me afirmar-lhe que muitas vezes temos confirmado que diferenças grandes de preços - por exemplo entre um vinho "normal" de uma marca e a respectiva Reserva - não se justificam minimamente. Gastando muito menos podem comprar-se vinhos quase tão bons. Só um exemplo. O Duas Quintas, vinho do Douro, em que uma garrafa custa 7,5 EUR. O preço do Reserva vai para os 35, 40 EUR. Será que este é 5 vezes melhor que aquele? Dificilmente o será. Não que não seja melhor, mas nesta como noutras coisas, há que conhecer a relação qualidade-preço e escolher ponderadamente. Não limite o seu prazer, mas não o faça depender demasiado do recheio da sua carteira.

Kroniketas

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Ladrando à Lua (3) - Variações sobre o telemarketing

Está um indivíduo posto em sossego na sua casa, quando o telefone toca, por volta da hora do jantar. Normalmente, a esta hora, ou é alguém conhecido, ou (hipótese mais desagradável) é aquilo que nós não queremos: um daqueles impertinentes funcionários de uma qualquer obscura empresa, que decoraram a martelo um arrazoado infindável de banalidades e que, acto contínuo, depois de nos perguntarem se estamos bem de saúde e fazerem votos para não nos estarem a incomodar (hipótese altamente improvável, uma vez que estamos por volta da hora de jantar; e se não querem incomodar, porque é que telefonam?), começam a bombardear-nos com uma torrente de vantagens sobre o excelente negócio que nos estão a propor. Depois de os ouvirmos pacientemente (se não lhes tivermos já desligado o telefone na cara), recusamos amavelmente a generosa oferta que nos é feita, com a frase-tipo “não estou interessado”.
Às vezes, a coisa toma proporções um pouco inesperadas. Certa vez, foi-me oferecido um conjunto de livros de banda desenhada do Walt Disney, com a habitual garantia de que se não gostasse não tinha que receber mais nada, etc. e tal, mas que iria receber uma primeira remessa absolutamente grátis e sem compromisso. Escusado será dizer que nunca mais pensei no assunto, até que algumas semanas depois chegou um aviso de encomenda. O conteúdo da dita cuja eram os famosos livros do Walt Disney (Peter Pan, Rei Leão, etc.), com um suporte de plástico preparado para, digamos, uns 10 livros.
Mas o mais interessante (lá diz o ditado: galinha gorda a soldado, choca vai ela) é que vinha junto uma folha de pagamento (com a respectiva data limite) do material entregue, que TINHA SIDO GARANTIDO QUE ERA GRÁTIS. E ainda vinha uma carta muito amável a agradecer por eu ter aderido (!!!) ao clube dos livros Disney.
Posto perante a situação, o terrível dilema: que fazer? Devolver o material? Escrever ou telefonar a dizer-lhes que não tinha encomendado nada, logo nada tinha a pagar? E ia eu gastar dinheiro a avisá-los de que não queria gastar dinheiro? Ou simplesmente não fazer nada e esperar por novidades? Oh drama! Oh inclemência! Oh tragédia! Oh terrível dilema de consciência! Optei por não fazer nada. Se os tipos me quiserem cobrar alguma coisa, mando-os bugiar. Felizmente tiveram o bom senso de não enviar mais nada.
Este é apenas um exemplo da falta de vergonha que tomou conta desta gente, que nem nos deixa respirar antes de querer, à viva força, impingir-nos qualquer coisa. Só que às vezes dão-se mal, e é muito bem feito. Mas há outras, porventura mais perversas, que vou contar em próximo episódio.

(A suivre)

Kroniketas, sempre kontra as tretas

feedback para kronikastugas@hotmail.com

terça-feira, 16 de dezembro de 2003

O post(e) ensebado

Pois, lá diz o outro: não deixes de deixar para amanhã aquilo que podes não fazer hoje!
Esquecemos uma coisa: o eixo da via também serve para nos aproximarmos antes de virar à esquerda! Amen.

Kroniketas

Ladrando à Lua (2) - O Post Eléctrico

Somos um país do caraças! Qual é a outra nação do mundo, por mais rançosa ou atrasada, das profundezas do terceiro mundo ao aglomerado insalubre de barracos mais pobre, que tem um poste eléctrico plantado a meio duma estrada?
Qual é o povo que concluiria que um acidente provocado por esse poste teria certamente origem no excesso de velocidade (espécie de aspirina que explica tudo em matéria de acidentes de viação) e não na colocação inaudita do referido mastro? Bem, é certo que estava no eixo da via, que só deve ser cruzado para ultrapassar, portanto, tecnicamente, não devia estorvar a condução (meu deus, isto pega-se!).
Andava ali a boa da EDP, naquele ritmo característico “chove não molha” tão do agrado dos nossos serviços públicos, a braços com o poder local que também não arranjou melhor solução do que asfaltar à volta, quando vieram os intrometidos da tv a estragar a situação! Aquilo resolvia-se, mais ano menos ano, qual era a pressa? O poste não ia fugir, a estrada também não…!
Às vezes, até a tv trabalha por uma boa causa. E não é que o raio do poste, um par de dias depois de ter aparecido na televisão, já tinha fugido para a berma, eliminando assim duma penada o assunto de reportagem e uma possível atracção de interesse turístico? Realmente, ser famoso dá jeito…
Agora pergunto: se foi possível resolver o problema assim tão rápido, porque não tinha ainda sido resolvido? Porque o português só resolve os problemas com o cão a morder-lhe os calcanhares (ou o chefe, ou o patrão – os animais são intercambiáveis), e se puder deixar para daqui a 6 meses, resolve-se nessa altura, porque agora não dá jeito e um poste no meio da estrada não é um assunto urgente. Ainda se fosse uma conta em atraso!
tuguinho, cínico encartado

Pedimos desculpa pela interrupção, o programa segue dentro de momentos...

Por motivos alheiros à nossa vontade, ainda não aparece no nosso blog de estalo (ou mesmo pontapé!) o e-mail para feedback. Podem dissertar sobre os assuntos epigrafados para o kronikastugas@hotmail.com
E perguntar-nos-ão: "Para quê uma merda de uma linguagem tão rebuscada?"
Bem, tal como o vinagre afasta as moscas, talvez assim afastemos grunhos e afins que nada têm a dizer (de jeito).
Bem hajam
tuguinho & kroniketas, tanto vão imperiais como lambretas

segunda-feira, 15 de dezembro de 2003

Tal como os Dupondt...

Eu diria mesmo mais: não se pode esquecer as "cotas" de malha que os cavaleiros usavam nas batalhas.
É nisto que dá transformar os tão prosaicos "sujeito" e "predicado" em "sintagma nominal" e sintagma verbal". Desculpe, importa-se de repetir?
Pois então, o que esperavam dum sistema de ensino (ensino?) em que chumbar os meninos é anti-pedagógico, marcar faltas é anti-pedagógico, pôr fora da sala é anti-pedagógico? Pelos vistos, o que é pedagógico é criar licenciados analfabetos.
E já agora: não seria de obrigar os jornalistas a fazerem primeiro um curso de português?

Kroniketas

A iliteracia na tugalândia – A vingança do chinês

Já pensou se, de cada vez que inspirasse ou expirasse, tivesse de pensar em tudo o que tinha de fazer o seu corpo para executar essa simples acção? Milhares de vezes por dia?
Agora pense se tivesse de fazer o mesmo de cada vez que fizesse uma simples conta de multiplicar – se não soubesse imediatamente que 7 x 9 são 63, lá teria de somar 7 parcelas iguais a 9 para saber o resultado. Parece estúpido, não parece? Mas é isso que está a acontecer (para não irmos mais longe) com os nossos nóveis universitários. Estão a entrar na universidade, mas ainda contam pelos dedos…
Que anátema caiu sobre o acto de decorar que foi banido das nossas escolas primárias? Dizem que o que é fundamental é compreender antes de criar os automatismos. Muito bem, então comecem a ensinar teoria dos números no 1º ano do 1º grau! Não foi preciso conhecer essa teoria para que conseguíssemos executar operações aritméticas normais, tal como não é necessário saber de antemão física e química avançadas para compreender os estados fundamentais da matéria.
Que mal há então em decorar a tabuadazita, que até é coisa que nos vai ser útil mais à frente? Que não se decorem todas as estações e apeadeiros da Linha do Norte entendo, porque era completamente estúpido e praticamente inútil – bastaria saber que ela existe e onde começa e acaba. Mas alguém me explica que malefício insondável advém à mente das criancinhas por decorarem a tabuada antes de saberem o que é um anel?
Tal como quem lê normalmente não soletra, antes reconhece formas, padrões e palavras, também quem faz uma multiplicação elementar não pensa no algoritmo da soma de parcelas iguais – pensa na tabuada que decorou ainda pequenino e que lhe dá a base para poder fazer operações mais complexas.
É por estas e por outras que ainda hoje li no Expresso, numa entrevista com o Rui Veloso, que ele era a favor de “cotas obrigatórias” de música portuguesa na rádio. Parece que com o advento dessa lei só poderão passar nas rádios músicas com cota igual ou superior a 30 metros! Porra, comprem um dicionário!!! Ou é preciso ser “cota” para saber a diferença entre “cota” e “quota”?
Outra que agora me ocorre é precisamente esta: ao longo destes anos, na tv, rádio e imprensa, quantas pessoas não “ocorreram” já a locais para presenciarem eventos que lá “acorreram”? Ó santa ignorância! Esta de chamar santa à ignorância também tem que se lhe diga – haverá alguma santa com este nome, patrona dos pobres de espírito? Ou a ignorância é mesmo um estado de beatitude? Cheira-me a influências cripto-salazarentas…
Um dia destes prometo que abordarei a odisseia dos pronomes clíticos, que tão mal são tratados nesta terra.
tuguinho

sábado, 13 de dezembro de 2003

Futebolices

Como não podia deixar de ser, lá vem o futebol. Portanto, quem não gostar pode parar de ler por aqui. E quem não for benfiquista nem devia ter começado a ler...
Então agora está na moda a renovação do jovem João Pereira. Parece que o rapazinho (19 anos) não está agradado com os números do contrato que lhe é proposto (ele ou o empresário, claro). Parece que 900 contos é pouco.
Esperem lá. Eu disse 900??? E disse que ele tem 19 anos? Há qualquer coisa aqui que está mal. O puto até é promissor, e está em alta. Mas ainda não passa disso mesmo, uma promessa, um projecto de jogador. Tal e qual como Laszlo Boloni disse do Ricardo Quaresma. E já estar a armar aos cucos, a armar em vedeta? Mas quem é que ele pensa que é?
Dão 900 contos? Parece que entretanto a parada já subiu. Mas digam-me lá onde é que pagam 900 contos, que eu vou já para lá sem discutir.
Esta história da renovação começa a parecer uma novela, e já começa a cheirar mal. Parece a renovação do Camacho. Passam semanas e semanas e não aparece outra coisa nos jornais. Será que não há um contrato que se faça no Benfica que não tenha que ser discutido na praça pública? Não será isto mais um sintoma da inabilidade dos dirigentes para tratar destes assuntos? (descansem que eu prometo voltar à carga em relação a isto...)
Mas afinal, porque é que o jovem João Pereira não renova? Estará já a sonhar com o estrangeiro? Ou tem propostas de outros clubes? Quererá ele ir para o Porto, para depois dizer, como o Maniche, que 1 ano nas Antas valeu mais que 15 na Luz? Se quer ir, que vá. Ele que veja o que está a acontecer aos últimos emigrantes do futebol tuga: fazem uma boa época e aí ficam eles, aos 18 anos, de cabeça no ar a sonhar com a Espanha, a Itália, a Inglaterra. Resultado: o Hugo Viana vai ser recambiado para ver se cresce, o Cristiano Ronaldo joga aos bochechos e já foi repreendido pelo hábito das simulações, o Ricardo Quaresma está muito longe de se afirmar no Barcelona. Qualquer jovem que se destaque durante 6 meses já pensa que é o maior, quando afinal ainda não provou nada. O Figo teve que correr muito e ter uma grande força mental para se aguentar no Barcelona e se ir impondo até chegar a capitão. Depois, foi o que se viu. Mas Figos não aparecem todos os dias. Veja-se a carreira da maior parte dos nossos emigrantes, mesmo os considerados grande jogadores. Humberto Coelho, Alves, Oliveira, Chalana, Fernando Gomes, Jordão, Futre, Simão Sabrosa. Quem fez uma carreira ao nível do Figo? O próprio Futre, afinal, nunca passou de um clube mediano como o Atlético de Madrid, para acabar a saltitar de clube em clube todos os 6 meses. O próprio Rui Costa brilhou inutilmente durante anos na Fiorentina, um clube sem a expressão que o seu talento merecia. Fernando Couto e Sérgio Conceição jogam de vez em quando. Só o Pauleta brilha com os golos que marca em França. Dos outros nem vale a pena falar, porque muitos deles não se sabe sequer onde estão. Seria melhor que os “conselheiros” dos jogadores (os empresários, essa classe parasita que é o grande cancro do nosso futebol) lhes abrissem os olhos, em vez de os iludir com transferências milionárias que redundam quase sempre em fracasso.

Kroniketas, sempre kontra as tretas

Filosofia de vida das Krónikas

São estes os nossos princípios, as regras que nos guiam no nosso dia-a-dia. Ora vejam se aprendem alguma coisa:
• Who cares?
• As férias são uma coisa demasiado séria para ser gozada
• Sexta-feira é sempre santa
• A inocência é o supra-sumo da arte de enganar os outros
• Nada está completo

E agora algumas frases preferidas:
• Só sei que nada sei, e o não saber é o princípio de todo o conhecimento (Sócrates – o filósofo, não o político)
• Aqueles que julgam que sabem tudo, serão porventura os mais ignorantes (Kroniketas)
• Todos os grandes homães se tornam lêndeas (Kroniketas)
• A man’s got to know his limitations (Dirty Harry)
• Prognósticos só no fim do jogo (João Pinto, FC Porto)
• O meu coração só tem uma cor: azul e branco (João Pinto, FC Porto)
• Derby é derby e vice-versa (Mário Jardel, FC Porto e Sporting)
• O clube estava à beira do abismo, mas agora tomou a decisão correcta: deu um passo em frente (esta frase já foi atribuída a diversos futebolistas, mas não há a certeza sobre quem a proferiu)
• E por fim, a “pièce de résistance”: chutei com o pé que estava mais à mão (João Pinto, FC Porto)

Kroniketas

Com coisas sérias não se brinca

Nada disso. Não se pode ofender os poderes instituídos, os puritanismos hipócritas tão típicos deste povo marcado a ferro e fogo por meio século de obscurantismo salazarista, a santa madre igreja com as suas missas, beatas e os padrecos pedófilos, sua santidade o papa decrépito, a cair da tripeça, mas tentando aguentar firme e hirto, como diria o Alexandrino, para levar o seu pontificado até ao fim... dele próprio! Não se pode pôr em causa a moral (que moral?) católica e cristã (confesso que não sei muito bem qual é a diferença, e também nunca me preocupei muito com isso) que impede que se faça uma lei do aborto justa e moderna, que acabe de uma vez por todas com a farsa dos abortos clandestinos que só prejudicam as próprias mulheres que os fazem, enquanto os defensores do “direito à vida” (mas não do “direito a uma vida digna”) continuam teimosamente a manter o seu autismo em relação aos dramas da vida real das pessoas reais (sim, muitas são aquelas que, infelizmente para elas próprias, são as tais quase analfabetas que não puderam aprender mais), que passam 4 horas por dia nos transportes como se fossem gado, que se levantam às 6 da manhã e chegam a casa sabe-se lá quando, e ainda têm que tratar do jantar, dos filhos, da lancheira para o dia seguinte para pouparem dinheiro no almoço, e no meio disto tudo de vez em quando ainda têm que arranjar um bocadinho para o sexo... se calhar sem grande vontade.
E depois, ou se esquecem do preservativo ou da pílula, e quando por azar, por descuido ou ignorância, surge uma gravidez indesejada, a sociedade retrógrada condena-as a terem que carregar com o peso de mais um filho para quem não há quarto em casa, não há cama, não há dinheiro...
Com coisas sérias não se brinca. O direito à vida acima de tudo. Será? Não para nós, obviamente. Se não se brinca com coisas sérias, valerá realmente a pena brincar? Pois nós prometemos brincar com todas as coisas sérias, ser politicamente incorrectos, ser socialmente deslocados, desbocados se for caso disso. Prometemos brincar com tudo o que nos der na real gana, malhar sem olhar a quem, distribuindo pancada democraticamente!
Afinal, se o Herman José pode gozar com tudo e com todos, porque é que nós não podemos?...

Kroniketas, sempre kontra as tretas

Declaração de Extensões (que é como quem diz, tensões que já passaram)

Alto lá, cambada. Mas quem é este gajo que está pr’aqui armado em bem falante, com palavras caras? O quê? Tuguinho? Mas que nome mais foleiro. Ah, ele não vos disse que além das KRONIKAS dele também ia haver KRONIKETAS? Pois é. Vejam lá que ele até se esqueceu de dizer, na sua (dele) declaração de intenções, que as Krónikas Tugas vão ser uma lança apontada, sim, mas às lacunas culturais e linguísticas desta malta: às lacunas das mães, às lacunas das primas, às lacunas das tias. Se bem que, nisto da língua, cada um faz o que quer com ela...
E já agora: já repararam naqueles irritantes textos que passam em rodapé nos telejornais? É cada “tuguice” que até dói. Alguém disse, uma vez, que as entrevistas feitas aos cantores de rock eram artigos escritos por pessoas que não sabem escrever, com pessoas que não sabem falar, para pessoas que não sabem ler. Vendo estes pontapés na gramática, dá vontade de perguntar onde é que este pessoal aprendeu a escrever. Ou melhor: será que aprendeu?

Do vosso mui nobre e sempre leal

Kroniketas, sempre kontra as tretas

Por falar em ministra das finanças...

Sabiam qual vai ser o método usado pelo governo para dissuadir os fumadores? Naquele lugar onde aparece aquela frase terrível nos maços de tabaco, vão pôr uma fotografia da nossa Manuela com a legenda: MATA!

Kroniketas

Ladrando à Lua (1) - O país com orelhas de burro

Acabámos de saber pela nefanda ministra das finanças (não encontrei razão até agora para usar maiúsculas) que 50% da actividade dos funcionários públicos não era produtiva, sendo aquilo que eufemisticamente se chama burocracia. Não me diga! Como é que descobriu? Os serviços secretos, talvez. Espero que agora esse bicho improdutivo da burocracia seja extirpado da função pública! Mas, neste país em que se criam comissões para estudar as conclusões de outras comissões e que um problema surgido não leva à sua resolução mas antes à criação de um gabinete que vai estudar o problema, dizia eu, num país assim, esta brilhante conclusão vai ficar como isso mesmo. Bem, talvez se crie uma comissão para estudar o problema.
Pois, diz o leitor, lá estão os vermelhuscos a atacar até nos blogs! Cambada de comunas!! Fim de citação. Este tipo de apartes é típico do português… Se não é dos nossos não pode ter razão. Se a ideia veio dos tipos da oposição, pode ser boa mas não é nossa – e isto sucede qualquer que seja a oposição e a situação. Não existe a honestidade de pegar nas boas ideias, independentemente do quadrante de onde vieram. E é por isso que continuamos no cu da Europa – já cheira mal!
Porque não pegamos no problema, não o analisamos rápida e eficientemente, não construímos um plano para o resolver e não executamos esse plano com controlo e sem ninguém meter dinheiro ao bolso e os custos dispararem disparatadamente? É assim tão difícil? Porque é que continuamos a ser o país que vai de castigo para o canto da sala com orelhas de burro?
tuguinho, cínico encartado
(continua)

IMPORTANTE: Adenda à Declaração de Intenções

Olá! Só um momento. […] Pronto. Estava aqui a acabar de me fustigar com um látego especialmente criado para esta ocasião, para melhor me rasgar a pele dos costados pela minha falha lobotómica na Declaração de Intenções. Então não é que me esqueci de duas das coisas que mais apreciamos e que serão sem dúvida tema de alguns dos nossos posts? Nada mais, nada menos do que a Música e o Vinho! Melómanos diletantes dos sons (sem limites) e amantes dos néctares de Dioniso (com conta, peso, medida e bom gosto), fui amargamente fustigado por ter olvidado estes dois vértices do hipercubo que é a vida (a fase científica do post termina aqui). Foi talvez efeito deste ecletismo de interesses das nossas pessoas (acaba aqui a fase gabarola do post), que acaba por diluir os interesses individuais nesta floresta de gostos.
Pronto, já disse.
tuguinho

sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

A iliteracia na tugalândia

Se há coisa com que não posso é com as calinadas que se dão no português. Anos e anos de novas técnicas pedagógicas deram nisto: várias gerações seguidas que não sabem escrever português nem entendem frases com mais de três palavras…
Se não fosse tão triste, por vezes seria hilariante: desde os casos de gritante analfabrutismo até às gralhas por evidente ignorância e falta de cultura geral, o tuga iletrado já chegou a todo o lado – da Antártida sovada pela “Antártica” (muito frequente, esta), à “medula-espinhal” que me ficou atravessada na garganta (recorrente, num programa de tv sobre o corpo humano), há de tudo para todos, há gralhas que vão ao encontro do gosto de qualquer um (e não “de encontro ao”, senhores jornalistas!)

Dantes o arquétipo do analfabeto era o do pastor que tinha passado a vida com as cabras (das que dão leite) que, como ele, também não sabiam ler nem escrever. Ou o pobre que teve de ir trabalhar antes de aprender as primeiras letras. Ou seja, analfabetos pelas circunstâncias da vida. Agora é mais grave, porque o analfabeto pode estar à nossa frente a vender-nos um seguro de vida ou um Mercedes último modelo (não faz mal sonhar), de calça de fazenda cara, sapatinho de vela e camisinha de marca! Eles andam entre nós e não se distinguem à primeira vista!!
Ó que saudades dos honestos “há-des” da minha infância (não é que seja velho, mas já tenho algum uso)!
Esta quinta-coluna insidiosa andou nos liceus e até nas universidades e, mais grave, alguns saíram de lá com diplomas. Pensar que podem estar a governar o país daqui a alguns anos causa-me calafrios…
Bem, mas já me estou a alargar, vamos concluir. Podem contar com as Krónikas Tugas para combater as labaredas de ignorância que grassam por esse país fora, qual lança apontada para o sítio onde doer mais a essa gente (aceitam-se sugestões).
É que se, como dizia o poeta, a nossa pátria é a nossa língua, então vamos perder a independência se continuarmos por este caminho…

Declaração de intenções

Não nos comprometeremos com nada, para podermos gozar com tudo.
Prometemos posts brincalhões, alguns alarves porventura, mas nunca fúteis, e outros mais sérios ou empenhados.
Prometemos falar de literatura e poesia, mulheres (sim, ao contrário do que está na moda, gostamos muito), futebol (aqui somos mesmo sectários; Benficaaaaa!!!), automóveis, mulheres (sim, eu sei que já referi, mas nunca é demais), áreas mais públicas e outras mais púbicas, política, fotografia, cinema e o mais que nos acudir às meninges. Toiros não! Toiros aqui só entram por nítido azar com as consortes.
Não encontrarão vernáculo neste blog (vá lá, uma escorregadela ou outra podem acontecer), mais por questões estéticas do que por questões morais, pois não somos propriamente uns puritanos (até já lemos os livros todos do Mestre Vilhena).
Post’o isto (eu sei que o trocadilho é estúpido, mas não resisti!), vamos à vida que o tempo é de crise e o Natal está à porta.
Vosso, tuguinho

quinta-feira, 11 de dezembro de 2003

Olá a todo o universo tuga! Isto é só para abrir as hostilidades! O sumo aparecerá nos próximos dias.
tuguinho