sábado, 29 de outubro de 2005

A palhaçada da justiça à portuguesa

Esta semana a minha indignação com este triste país em que vivemos atingiu um novo patamar com a ocorrência de dois factos sobrepostos: a greve dos juízes e a anulação das provas contra Fátima Felgueiras pelo Tribunal da Relação de Guimarães. Nada poria mais a ridículo as razões espúrias duma greve injustificável do que, ao mesmo tempo que esta decorria, saber-se que todo o processo do “saco azul” de Felgueiras voltou à estaca zero, por douta decisão dos doutos juízes que em dois dias consecutivos se entretiveram a fazer greve por acharem que ter um mês de férias em vez de dois e um sistema de saúde que todos os funcionários públicos têm lhes tira a independência! Ridículo!
Foram estes mesmos juízes que, do alto da sua independência, da sua inimputabilidade (porque não respondem perante ninguém pelas constantes machadadas que a justiça leva em Portugal, nem pelo atrasos intermináveis na resolução dos processos) e da sua douta sapiência mandaram às malvas todo o trabalho de obtenção de provas que levou Fátima Felgueiras a fugir para o Brasil. Mais uma vez, em lugar de se preocuparem em apurar a verdade dos factos, os juízes deram prevalência às questões processuais que, bem vistas as coisas, servem para anular tudo. Mais importante do que apanhar um criminoso, o que vale é saber como é que ele foi apanhado. Ah, roubou? Matou? Bom, as provas não foram validadas em tempo útil, por isso vai em paz, meu filho. O mesmo tempo útil que eles não usam para resolver os processos, que se arrastam até à prescrição.
De repente lembrei-me do despacho dum juiz que considerou que a ponte de Entre-os-Rios tinha caído por causas naturais! Como se fosse natural uma ponte cair e a sua função não fosse estar lá para se poder atravessar o rio sem cair nele!
Com esta decisão, os senhores juízes mataram, se calhar, a pouca credibilidade que restava à justiça portuguesa e deram uma grande força à actividade dos vigaristas, dos gatunos, de todos os pulhas e chicos-espertos que enxameiam as instituições deste país, de que o mais recente exemplo é o caso das nomeações cruzadas CP-Refer. Como diz Miguel Sousa Tavares no seu artigo do Público desta sexta-feira, “a lição foi esta: o único crime que não se perdoa é a falta de esperteza”.

Kroniketas, sempre kontra as tretas