terça-feira, 11 de outubro de 2005

O erro crasso de Mário Soares

Para que a noite eleitoral fosse pior para o PS, uma sondagem da TVI apresentou Manuel Alegre à frente de Mário Soares nas intenções de voto para as presidenciais. Tanto na primeira como na 2ª volta, Manuel Alegre apresenta melhores resultados que Soares.
Comentando este estudo, Miguel Sousa Tavares (que prevê o descalabro de Soares nas presidenciais) disse que a continuar assim só restará uma saída airosa para Mário Soares: a desistência.
Não deixa de ser curiosa esta espécie de aversão a Soares que se nota em vários sectores da população. Muitas pessoas com quem tenho falado e que votam à esquerda manifestam a firme intenção de não votar em Mário Soares. Mais interessante ainda é verificar que os vários estudos até agora apresentados indicam que Cavaco vai buscar votos ao PCP e ao BE!!! Estando aqui em equação dar ou não a vitória ao putativo candidato Cavaco Silva, como se explica que o eleitorado de esquerda não queira Mário Soares e prefira Cavaco?
Quando Manuel Alegre anunciou a sua candidatura escrevi aqui um post a dizer que já tinha candidato. Também eu estava indeciso na escolha, partindo do princípio que não voto em Cavaco. Mas também não estava convencido com Soares. Porque acredito que Alegre luta por princípios e convicções, ao passo que Soares luta mais por cargos e pela carreira. Não quero saber se dificulta a vida a Soares ou a Cavaco: apenas o prefiro ao outro.
Acho que a esquerda pura e dura nunca perdoou a Mário Soares os combates de 74/75. Todos se lembram da 2ª volta das presidenciais de 86, em que o PCP disse aos seus eleitores para engolirem um sapo e taparem a cara de Mário Soares ao porem lá a cruzinha para derrotar Freitas do Amaral. Esse foi, claramente, um confronto esquerda-direita. Mas agora as coisas já não são assim, já não está em causa um tipo de regime, já se percebeu que o presidente não é assim tão decisivo no rumo do país e Cavaco aparece num papel um pouco supra-partidário. Por isso, porque não Cavaco?
Ora depois de termos tido Mário Soares durante 10 anos, parece-me que esta reaparição tardia surge como uma espécie de oportunidade de desforra para toda a esquerda que carregou os anticorpos contra Mário Soares durante 30 anos. Por isso, nada como varrê-lo de cena da forma mais radical: pela porta pequena e votando no candidato do centro-direita. Nesta altura dou comigo a pensar no que sentirão os simpatizantes do PCP, que devem ter um ódio de estimação a Soares: “O quê? Aquele outra vez? Não, duas vezes é demais! Antes o Cavaco!”. Se não for isto, é capaz de não andar longe.
Talvez tenha sido esta avaliação que faltou a Mário Soares. O erro crasso que ele próprio tinha dito que seria a sua candidatura resulta de pensar, erradamente, que poderia novamente reunir o pleno da esquerda. Só que o passado não se repete, e como se vê há quem não queira saber mais de Mário Soares. Pelo que se perspectiva, este poderá ser um fim da linha sem honra nem glória para um homem que, pelo seu longo trajecto, devia sair de forma honrosa. Ao sujeitar-se ao risco de ser humilhado por Cavaco e ultrapassado por Alegre, pode ter cometido, realmente, o último e maior erro da sua vida política. Mas a ambição desmedida por vezes paga-se cara.

Kroniketas, a fazer de analista político