terça-feira, 1 de junho de 2004

Peixeirada em directo

Ponto prévio: o autor das linhas que se seguem é sócio do Sport Lisboa e Benfica há 27 anos (já com direito a emblema de prata), além dos dois filhos menores, accionista da SAD (modesto, mas há mais onde gastar o dinheiro do que em futebóis), e quando fala do Glorioso expressa as suas opiniões pessoais, segundo a sua consciência e as suas convicções, independentemente da linha de pensamento maioritária existente no clube ou do que alguns considerem o politicamente correcto.
Quero deixar isto bem claro desde já, porque nunca me pronunciei acerca de nenhum assunto relacionado com o meu clube (parece que agora se chama "instituição") com grilhetas impostas pela corrente dominante. Aliás, sempre achei muito perigosas essas correntes que querem impor um pensamento igual a toda a gente. No futebol como na política ou em qualquer aspecto da vida. Por isso, sei que o que vou escrever pode desagradar a quem ache que se tem sempre que estar de acordo com o poder instalado. Eu não vou por aí, porque não abdico da minha liberdade de expressão e pensamento, sobretudo não abdico de pensar pela minha cabeça. Bem ou mal, mas é à minha maneira.
Vem este intróito a propósito do episódio ocorrido na 2ª feira, dia 24 de Maio, no estúdio da SIC Notícias, durante o programa "O dia seguinte".
Tratava-se de discutir uma notícia avançada pela SIC nesse mesmo dia, segundo a qual o jogador Ricardo Rocha estaria mal inscrito. Para quem se lembra, a possibilidade que resultava da notícia - o Benfica perder a Taça de Portugal e o 2º lugar no campeonato - fez manchete em quase todos os jornais do dia seguinte e, pasme-se, até deu origem a um fórum TSF sobre o tema (tive pena de não o ouvir, mas não soube da sua existência antecipadamente).
Pouco depois das 23:30, já com uma hora de programa, estava Fernando Seara no uso da palavra quando o apresentador Pedro Mourinho disse que tinha uma surpresa. Fernando Seara suspendeu o discurso e o presidente do Benfica eleito com mais de 90% dos votos, Luís Filipe Vieira, irrompeu pelo estúdio dentro e sentou-se na mesma mesa do apresentador, onde começou a desfiar a argumentação que achou necessária para defender o Benfica e repor a verdade dos factos que, segundo ele, estava a ser deturpada no debate.
Até aqui tudo bem: como presidente do clube (ou da instituição), pediu para entrar em directo no programa e esclarecer a opinião pública, suportando as explicações numa série de documentos onde se encontrava o contrato de Ricardo Rocha e o registo do jogador na Liga de Clubes, o que não me parece nada de extraordinário.
Pior foi o resto: o estilo e os modos parecidos aos de varina, o atrevimento e a forma deselegante como se dirigiu aos comentadores do programa, em particular a José Guilherme Aguiar, chegando a pedir a Dias Ferreira que lesse qualquer artigo que, segundo o próprio Dias Ferreira, não estava lá escrito da forma que supostamente deveria estar, deixaram o comentador benfiquista Fernando Seara visivelmente embaraçado e sem palavras para comentar aquele episódio. No lugar dele, eu também não saberia o que dizer, mas no conforto de casa, metido com os meus botões, também fiquei embaraçado. Embaraçado com a imagem pouco digna que uma figura do meu clube passou para o país.
É isso que me deixa triste. Um após outro, os presidentes do Benfica não engrandecem a imagem do clube. Depois de um grupo de jet-set liderado (mal) por Manuel Damásio, depois do gatuno Vale e Azevedo e da sua quadrilha (deveriam estar todos presos, e não apenas um), que com despudor arrastou o nome do clube pela lama sem dó nem piedade, temos agora um presidente que, fazendo jus a uma escolaridade pouco letrada, se comporta com a subtileza dum elefante numa loja de porcelana, à boa maneira de Sousa Cintra no Sporting. No meio disto tudo, o estilo muito "soft" de Manuel Vilarinho, quase se apagando propositadamente, é o único que transmite para o exterior uma imagem de seriedade e alguma elegância, de acordo com os pergaminhos do clube.
Quanto à aparição de Luís Filipe Vieira na SIC Notícias, não aprecio o estilo, a forma, nem o conteúdo. Este domingo, o cenário ficou completo com a notícia de que na inauguração de uma casa do Benfica Luís Filipe Vieira disse "se a SIC estiver a filmar não descerro a placa". Daqui aos insultos e aos empurrões foi um passinho. Em menos de nada os repórteres (que estavam a trabalhar) estavam na rua a ser ameaçados pelos jagunços de serviço, sempre com o inevitável homem de bigode à cabeça da matilha a atiçar os cães.
Se para a populaça isto é um festim, e os malandros da comunicação social são sempre os culpados de tudo, eu não me revejo nestes métodos, que se limitam a copiar o que de pior existe no estilo de Pinto da Costa. Parece que todos querem imitá-lo, mas apenas nos piores defeitos. Nos seus méritos, ainda não apareceu ninguém com competência para o fazer. Não seria mais elegante, por exemplo, fazer um comunicado a exigir à SIC um pedido formal de desculpas e anunciar que enquanto o mesmo não fosse feito não seria permitida a presença da SIC em eventos do clube? Ah, mas isso não empolga as massas nem provoca tumultos, não é? Desculpem, era só uma ideia!
Não me revejo nestes métodos nem neste tipo de discurso. Não basta dizer que somos o maior clube português e que queremos ser respeitados. Para isso temos que nos dar ao respeito, mas não é com presidentes que, mesmo quando vestem fatos Armani, se comportam como labregos que vamos consegui-lo. O que é que querem? Não faz o meu género! Acho que a boa educação nunca fez mal a ninguém! Mas se ninguém se preocupou em ensinar o homem a não dar pontapés na gramática e a não dizer "póssamos" ou "ambos os dois", porque é que alguém haveria de ensiná-lo a comportar-se como um senhor?

Kroniketas, sempre kontra as tretas