sábado, 5 de junho de 2004

Ladrando ao Sol (19) - Malditos telemóveis

Um dia destes fui a um funeral. O pai da parte feminina de um casal amigo morreu quase de súbito, e os cuidados hospitalares não chegaram. A minha mulher tirou uma tarde para nos deslocarmos os dois a Palmela para assistir ao funeral.
Não sou religioso, mas respeito as cerimónias religiosas em que estou presente (se não fosse assim não ia lá). Como manda o bom senso e a boa educação, desliguei o telemóvel ao entrar na igreja.
Durante a missa por alma do falecido, com a igreja cheia, foi uma sinfonia de telemóveis a tocar. O padre, ainda jovem, fugindo àquele discurso maçador mais habitual nos padres, lá foi conduzindo a cerimónia com a calma possível. Mas depois de tocar um telemóvel, outro, e outro e mais outro (sempre com aquelas estúpidas musiquinhas irritantes que parecem saídas das barracas de feira), o padre fartou-se e reagiu assim (ainda com a calma suficiente): "o primeiro é distracção; o segundo é desleixo; o terceiro é falta de respeito. E já são 6 ou 7!" Foi preciso tanto tempo para ele reagir, caramba! Eu no lugar dele teria reagido bem mais cedo e de forma bem mais agressiva: teria simplesmente insultado os "distraídos" e, se calhar, posto os mesmos fora de igreja. E o pior é que depois ainda houve mais uns toquezinhos!
É inconcebível que se vá para um sítio destes e, depois de se começarem a ouvir os primeiros toques, as pessoas não tenham o respeito e o discernimento suficientes para imediatamente todas desligarem os seus telemóveis. Afinal, a grande maioria daquelas pessoas são (ou dizem ser) religiosas, católicas, praticantes e tementes a Deus. Parece é que não têm respeito pelos mortos nem pelo templo cujas cerimónias dizem venerar.
Situações destas são relatadas às dezenas. Desde toques em concertos de ópera ou de música clássica, em que se chega ao ponto de o maestro dizer que pára o concerto se não acabarem os toques dos telemóveis, a telemóveis a tocar em reuniões, apresentações, acções de formação ou enquanto se fala para programas de rádio, há de tudo um pouco. Esta utilização absurda dos telemóveis é apenas mais um sintoma do nosso atraso civilizacional. Queremos mostrar que somos evoluídos e modernos, mas não sabemos usar os instrumentos da modernidade de forma adulta, limitando-nos a exibições parvas de tiques de novo-riquismo ou, simplesmente, de estupidez e falta de educação.
É apenas mais um sinal, entre muitos, de que 30 anos depois do 25 de Abril continuamos muito longe de ser um país evoluído.

Kroniketas, sempre kontra as tretas