quarta-feira, 9 de junho de 2004

O Opúsculo Sarnento

Chegou-me ontem à caixa de correio um folheto anónimo que rezava assim:
“Tem compaixão de nossa senhora. Com o teu voto não permitas que o seu filho seja posto fora da Europa!”
Chegado aqui pensei tratar-se de um problema qualquer com emigrantes clandestinos, mas logo o “Alerta!” escarrapachado no reverso me elucidou sobre o verdadeiro objectivo do opúsculo: contar-me detalhadamente como os deputados dos partidos de esquerda portugueses votaram contra a inclusão de referências ao cristianismo na futura constituição europeia, posição contrária à dos tementes e crentes deputados dos partidos de direita, que votaram a favor…
Pois é, trinta anos depois dos últimos resquícios do botismo (a doutrina política do Botas), ainda há quem não se tenha desenvencilhado de certos tiques paroquianos de outrora, e tente por métodos que nada têm a ver com a democracia conseguir vantagens sobre os adversários. E nem falta o logótipo da coligação “Força Portugal” bem juntinho aos símbolos do PSD e do PP! Fazendo aqui um parêntesis no tema deste post, ao contrário da maioria das pessoas que liga o nome desta coligação ao mundo do futebol, a mim parece-me que a ideia terá sido bastante mais escatológica: imaginem o país com prisão de ventre e o Durão e o Portas junto a ele a berrarem “Força, Portugal! Há-de sair, há-de sair! Força!”. Fim do parêntesis.
Tal como o funesto acontecimento da morte de Sousa Franco não deve influenciar o voto do cidadão esclarecido, também este opúsculo sarnento – do mesmo calibre do outro sobre o aborto distribuído pelas escolas há uns meses – não deve influenciar ninguém no sentido do seu voto, mesmo o daqueles que se dizem cristãos.
Não se está aqui a negar que o cristianismo, umas vezes bem outras vezes mal, constitua uma das bases da matriz que nos define como civilização, mas não se misturem pilares culturais com instrumentos políticos! Pela mesma ordem de ideias, também os alemães poderiam querer uma referência na mesma constituição à cerveja, contributo fundamental da sua identidade como povo! Poucos concordariam, não é? Parece que os ouço: “Mas não são de igual importância, não tem nada a ver!” – o problema é que a argumentação é exactamente a mesma e, dependendo das pessoas, a cerveja pode ser bem mais importante que qualquer religião.
Um autodenominado “Comité para um Portugal livre-Free Portugal” (sic) assina a peça. Desde já adiro e proponho como acção imediata uma cruzada a Sadr City para converter os infiéis! De mãos nuas e sem blindados!
“É triste ver como os da esquerda votaram contra.”, afirma a catilinária de paróquia de província. Eu diria antes: é triste ver como esta padralhada continua a tentar influenciar a vida dos outros, tanto tempo depois de o botas bater as botas…
A nossa sorte é já não terem a Inquisição – churrascos no Rossio, agora, só se forem de carne de vaca!

tuguinho, cínico enojado (por estes métodos fascistas e parolos)