domingo, 20 de junho de 2004

O Jogo do Ano: Krónikas Tugas, 1 – Intelectualóides, 0

Existe uma casta de pessoas que lida mal com certos aspectos mais populares da cultura. São os tais que já não consideram um livro se vendeu mais do que 100 exemplares (contando com os amigos do autor), um filme se foi visto por mais de mil indivíduos (contando com os que dormem no cinema) ou um músico se tiver a mais pequena ideia de se aproximar dos tops (mesmo que a possibilidade seja mais remota do que uma aldeia perdida nas faldas dos Himalaias). Dentro desta casta existem algumas variantes, que normalmente se expressam pela exacerbação de determinada coisa ou assunto: ele é o livro que é o suprasumo da literatura e que só a seita sabe apreciar, ele é o colunista que se eleva acima dos mortais e que só aqueles eleitos são dignos de admirar, etc., etc., ad nauseam.
Esta visão elitista das coisas normalmente alarga-se a outras áreas das actividades humanas, com especial incidência no futebol: quem gosta de futebol é a populaça, que horror, gostar dessa coisa era o mesmo que descer ao lúmpen da sociedade! Gostar de futebol é para essa gente sinónimo de comportamento indigno, boçalidade, motivo para ostracismo. Dizer que não nos interessamos por futebol faz-nos logo franquear o portal do clube, embora não possamos ainda aceder à sala de leitura.
Existem certas áreas da actividade humana, física ou mental, que não me interessam minimamente, mas não é por essa razão que as considero indignas ou aviltantes, ou simplesmente desprezáveis. Simplesmente não me interesso ou não gosto. Não me aponho atitudes de arrogância intelectual em relação a elas, como a casta dos intelectualóides o faz, como referi, ao futebol.
Por que não há-de ser a vitória num campeonato europeu ou mundial de futebol tão importante como a atribuição de um prémio Nobel? Vá, livrem-se lá desses fios de nylon barato dos preconceitos e pensem um bocadinho: há alguma razão para estabelecer uma escala de valores tão díspar entre estes dois, digamos, cometimentos? Não envolvem ambos mérito, esforço, genialidade mesmo? É mesmo uma diferença que um seja alcançado por manipulação exímia duma bola com os pés e o outro por manipulação das pequenas células cinzentas (obrigado, Monsieur Poirot)?
Não me quero armar em educador do povo, nem com isso estar a cair na mesma arrogância dos intelectualóides, mas neste tempo de campeonatos europeus de futebol, de febre dos fenos e de outras alergias, causam-me mais pruridos estas posições hieráticas deste escol de auto-iluminados…

tuguinho, cínico encartado (e armado em intelectual de bancada)