quarta-feira, 6 de outubro de 2004

O senhor tem licença de isqueiro?

Não sei se já se aperceberam do que está a acontecer. Do que subrepticiamente se está a tornar vulgar. Do que um governo não eleito que é o mais à direita desde 1974 está a fazer.
Primeiro foi o primitivismo beato de negar ao Borndiep a entrada em águas nacionais, quando o caso teria muito menos impacto se o barco atracasse e o controlo do cumprimento da lei fosse feito aí. E isto nada tem a ver com a opinião de cada um sobre a questão do aborto! Mas certos condicionalismos mentais perpetrados ao longo dos anos sobre certas mentes impedem que o bom senso conduza a bom porto certas situações.
Agora foi a saída de Marcelo Rebelo de Sousa das suas funções de comentarista da TVI. Não sendo da sua linha política, sempre ouvi os seus comentários e opiniões com interesse, e é muito gratificante ver um político com cérebro próprio. Agora digam-me: alguém acredita que Marcelo saiu por sua vontade e não houve pressões sobre o Barão para o pôr fora? Que Marcelo desistiu da luta e saiu a meio sem sequer responder ao ente partidário rastejante que o atacou? Há muitos e muitos anos que não via uma jogada deste tipo por parte dos governos, que atenta contra a liberdade de expressão de forma gritante.
Então agora um comentador para expressar uma opinião negativa sobre alguém ou alguma coisa é obrigado a ter logo ali um vate da opinião contrária para rebater as suas posições? Então já não nos podemos exprimir livremente? Ou será que tudo isto aconteceu porque faziam mossa no partido do governo (falamos no partido do governo oficial, o PPD/PSD) as críticas de Marcelo, membro do partido, antigo líder e certamente ainda com muitos adeptos das suas ideias dentro desse partido? E que não morre de amores por Santana Lopes? Nem por Paulo Portas?
E o que disse ele de tão grave? Simplesmente o que estava à vista de todos: se o governo diz que luta pela produtividade e pela redução na despesa pública, se as aulas ainda nem conseguiram começar a sério, que sentido tem inventar uma ponte no dia 4 de Outubro? Este ano calharam muitos feriados em fins-de-semana e isso reduziu o seu gozo efectivo? É verdade, mas não aconteceu isso já tantas vezes sem nos ter caído do céu a benesse de uma ponte extra?! O que houve de diferente agora? Apetecia a Pedrito gozar os últimos fulgores do sol algarvio? Ou quis acompanhar Cinha no seu ingresso na Quinta dos Animais, perdão, das celebridades?
Podia não gostar minimamente do governo de Durão Barroso, mas nem ele fez nada parecido com isto! E acabei de ver Marques Mendes na TV a perorar sobre o assunto e a dizer-se preocupado.
Eu também começo a ficar apreensivo. Não tarda muito os preservativos tornam a vender-se apenas na candonga, ter isqueiro exigirá a respectiva licença e um certo edifício na rua António Maria Cardoso não terá como destino ser um condomínio de luxo e albergará antes um organismo governamental que controlará as pulsões dos cidadãos, sejam elas religiosas, sexuais ou políticas. Onde é que eu já vi isto?

tuguinho, cínico preocupado