Pérolas a Porcos – As Aventuras Inenarráveis de Ângelo Prepúcio, Detective Privado: Cap. 1 – O Inácio Gago era um vígaro!

Digo-vos desde já, leitores tablóidizados, que não gosto da pergunta! E como não a quero ouvir, respondo já: o Prepúcio era do meu pai, que o tinha herdado do meu avô paterno, como não podia deixar de ser. Noutro dia digo-vos qual é o meu nome do meio, por agora quero-os atentos, aos vossos poucos neurónios vivos, e não a rir à gargalhada até à inconsciência. Agora que já satisfiz a vossa curiosidade doentia, vamos ao que interessa.
O meu nome é Prepúcio, Ângelo Prepúcio, e tenho escritório de detective privado montado prós lados da Estrela – se quiserem saber onde, vão à lista e vejam em P de Prepúcio, Ângelo Arregaça (algo me diz que não devia ter dito isto…). Já fui croupier, dos bons, sempre com a mesa cheia, havia gente que se agredia só para ter lugar na minha mesa, mas fui despedido com a falsa alegação de que dava prejuízo à casa. Eu, que até ganhei algumas vezes aos clientes?! A vida é muito injusta! Foi aí que decidi ser patrão de mim mesmo e vim pró ramo. Tentei contratar uma secretária mamalhuda, como nos filmes, mas pelo ordenado que oferecia só consegui arranjar a dona Estrudes, que passa o tempo a fazer malha e deixa cair a dentadura quando adormece à secretária. Pensei, isto é só o começo, depois melhora, mas três anos depois continuo a ter a dona Estrudes a babar-se no teclado do 486 em terceira mão e mais surda do que nunca.
Mas até já sou considerado no milieu: três maridos vigiados já me espancaram e dois amantes de segunda fizeram-me uns arranhões! Só não gostei quando os médicos das urgências do São José me começaram a chamar “estaladinho”.
O caso que tenho entre mãos é complicado – vou deixar-vos vir comigo, mas não atrapalhem! Deixem-me trabalhar!
Tudo começou numa terça-feira, dia de Feira da Ladra, quando entrei no escritório ajoujado pela obra completa de Inácio Gago, comprada por tuta e meia a um vendedor inexperiente. A dona Estrudes já ressonava, um pouco mais do que o costume, pensei, seria da agulha de crochet enfiada na narina direita? Deixei-a sossegada e fui para a minha sala para apreciar o que tinha adquirido ao tanso.
Sentei-me no meu cadeirão – um pouco puído, é certo, mas confortável como só as coisas usadas podem ser – e dispus-me a passar umas horas com Inácio Gago e a sua obra, até me aparecer algum cliente. Foi só no folhear do terceiro volume que a dúvida me surgiu, arrepanhante: não é que os filhos da puta dos livros pareciam iguais? E não é que eram mesmo?! Eu devia ter desconfiado de que o Inácio Gago não tinha sido tão prolífico… Mas ainda havia tempo de apanhar o vendedor e… o ronco da Dona Estrudes mudou de tom quando o telefone tocou, mas continuou a servir-me de música de fundo quando atendi a chamada.
– Detective Prepúchio? – já me ia a sair um “vai gozar com o car…” quando reconheci a voz e o sotaque de Monsenhor Arcos de Valdevez, secretário de estado do mar e das capelinhas. Tinha ficado a apreciar-me desde que lhe tinha dito que costumava percorrer as capelinhas todas antes de me ir deitar – nunca desfiz o engano sobre o tipo de capelinhas que visitava.
– Monsenhor! Em que lhe posso ser útil?
– Prepúchio – por que caraças ele não me chamava Ângelo? – este é um cajo de xeguranxa do chetado! Prexijamos de chi para nos confirmar as xuspeitas xobre um barco que está ao largo da Figueira.
– No Largo da Figueira? Como é que o barco foi lá parar?
– Ó meu deuche! Venha ter comigo aqui ao Caldach e eu explico-lhe tudo.
– Às Caldas? O que é que o Monsenhor…
– Ó rapache, querej tirar o lugar ao xala como campeão dos trocadilhoj e piadas estúpidaj? Largo do Caldach!
– Na Sede do PP?
– Não, imbechile! Estou no Bora-Bora, mexmo em frente! Aquilo está cheio de arrivistas copinhos-de-leite e eu já não tenho paxiênxia, estou velho.
Sacana do Padre! E vocês, para onde é que estão a olhar? Por hoje acabou. Vá, vão para dentro. Não há aqui nada para ver. Dispersem, vá.

Apresentado por tuguinho, editor de cinismos

Comentários

Mensagens populares deste blogue

48 anos

Os quatro títulos para o Sporting: pequenez, mesquinhice, miserabilismo e complexo de inferioridade