sábado, 4 de setembro de 2004

Pérolas a Porcos – As Aventuras Inenarráveis de Ângelo Prepúcio, Detective Privado: Cap. 1 – O Inácio Gago era um vígaro!

Digo-vos desde já, leitores tablóidizados, que não gosto da pergunta! E como não a quero ouvir, respondo já: o Prepúcio era do meu pai, que o tinha herdado do meu avô paterno, como não podia deixar de ser. Noutro dia digo-vos qual é o meu nome do meio, por agora quero-os atentos, aos vossos poucos neurónios vivos, e não a rir à gargalhada até à inconsciência. Agora que já satisfiz a vossa curiosidade doentia, vamos ao que interessa.
O meu nome é Prepúcio, Ângelo Prepúcio, e tenho escritório de detective privado montado prós lados da Estrela – se quiserem saber onde, vão à lista e vejam em P de Prepúcio, Ângelo Arregaça (algo me diz que não devia ter dito isto…). Já fui croupier, dos bons, sempre com a mesa cheia, havia gente que se agredia só para ter lugar na minha mesa, mas fui despedido com a falsa alegação de que dava prejuízo à casa. Eu, que até ganhei algumas vezes aos clientes?! A vida é muito injusta! Foi aí que decidi ser patrão de mim mesmo e vim pró ramo. Tentei contratar uma secretária mamalhuda, como nos filmes, mas pelo ordenado que oferecia só consegui arranjar a dona Estrudes, que passa o tempo a fazer malha e deixa cair a dentadura quando adormece à secretária. Pensei, isto é só o começo, depois melhora, mas três anos depois continuo a ter a dona Estrudes a babar-se no teclado do 486 em terceira mão e mais surda do que nunca.
Mas até já sou considerado no milieu: três maridos vigiados já me espancaram e dois amantes de segunda fizeram-me uns arranhões! Só não gostei quando os médicos das urgências do São José me começaram a chamar “estaladinho”.
O caso que tenho entre mãos é complicado – vou deixar-vos vir comigo, mas não atrapalhem! Deixem-me trabalhar!
Tudo começou numa terça-feira, dia de Feira da Ladra, quando entrei no escritório ajoujado pela obra completa de Inácio Gago, comprada por tuta e meia a um vendedor inexperiente. A dona Estrudes já ressonava, um pouco mais do que o costume, pensei, seria da agulha de crochet enfiada na narina direita? Deixei-a sossegada e fui para a minha sala para apreciar o que tinha adquirido ao tanso.
Sentei-me no meu cadeirão – um pouco puído, é certo, mas confortável como só as coisas usadas podem ser – e dispus-me a passar umas horas com Inácio Gago e a sua obra, até me aparecer algum cliente. Foi só no folhear do terceiro volume que a dúvida me surgiu, arrepanhante: não é que os filhos da puta dos livros pareciam iguais? E não é que eram mesmo?! Eu devia ter desconfiado de que o Inácio Gago não tinha sido tão prolífico… Mas ainda havia tempo de apanhar o vendedor e… o ronco da Dona Estrudes mudou de tom quando o telefone tocou, mas continuou a servir-me de música de fundo quando atendi a chamada.
– Detective Prepúchio? – já me ia a sair um “vai gozar com o car…” quando reconheci a voz e o sotaque de Monsenhor Arcos de Valdevez, secretário de estado do mar e das capelinhas. Tinha ficado a apreciar-me desde que lhe tinha dito que costumava percorrer as capelinhas todas antes de me ir deitar – nunca desfiz o engano sobre o tipo de capelinhas que visitava.
– Monsenhor! Em que lhe posso ser útil?
– Prepúchio – por que caraças ele não me chamava Ângelo? – este é um cajo de xeguranxa do chetado! Prexijamos de chi para nos confirmar as xuspeitas xobre um barco que está ao largo da Figueira.
– No Largo da Figueira? Como é que o barco foi lá parar?
– Ó meu deuche! Venha ter comigo aqui ao Caldach e eu explico-lhe tudo.
– Às Caldas? O que é que o Monsenhor…
– Ó rapache, querej tirar o lugar ao xala como campeão dos trocadilhoj e piadas estúpidaj? Largo do Caldach!
– Na Sede do PP?
– Não, imbechile! Estou no Bora-Bora, mexmo em frente! Aquilo está cheio de arrivistas copinhos-de-leite e eu já não tenho paxiênxia, estou velho.
Sacana do Padre! E vocês, para onde é que estão a olhar? Por hoje acabou. Vá, vão para dentro. Não há aqui nada para ver. Dispersem, vá.

Apresentado por tuguinho, editor de cinismos