sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Crime, dizem eles...

O que é criminoso é que o aborto seja considerado um crime. Os quadrados e obtusos “defensores da vida”, insensíveis a quaisquer argumentos de saúde pública (sim, isto é uma questão de saúde pública), continuam obstinadamente a ignorar a realidade do sofrimento de muitas mulheres, num autismo próprio de quem só olha para o seu umbigo, para os seus “moralismos” e para o seu catolicismo. Tal e qual como o Papa que continua a pregar contra o uso do preservativo.
Esta gente não vive no mundo real mas num mundo imaginário gerido por princípios e regras medievais, à luz das quais só os mandamentos da “santa madre igreja” devem ser seguidos. Por muitos casos de sida que haja no mundo, muitas grávidas adolescentes e mães solteiras, muitas crianças a nascer em bairros de lata e/ou filhos de pais toxicodependentes, para eles só uma coisa conta: o valor supremo e quase imensurável do “direito à vida”. Não interessa que vida. Não interessa que venham a nascer marginais, ladrões, drogados, assassinos, porque os meios em que nascem muitas vezes os tornam assim logo desde pequeninos (já ouviram falar num bairro chamado “Cova da Moura”? Porque não vão lá fazer uma visitinha?). O que interessa é que, contra tudo e contra todos... nasçam. Se for para passar fome, azar. Talvez se aumente 5 euros na pensão...
Não percebem que o que está em causa não é ser a favor ou contra o aborto. Ninguém aqui é a favor do aborto. Ninguém está à espera de uma nova lei para dizer “Bora, malta, toca a abortar!”. O que está em causa é deixar às mulheres que não têm condições para ter filhos e dar-lhes uma vida digna (sim, na Declaração Universal dos Direitos do Homem está consagrado o “direito à vida” com dignidade) a liberdade de escolherem se querem ou não pôr esse filho no mundo.
Mais grave ainda: os fanáticos “defensores da vida” (serão todos os outros “defensores da morte”?, inquieto-me eu) querem impor aos outros a sua vontade, a sua “moral”. O que está em causa é se é “moral” levar mulheres a tribunal por fazerem abortos clandestinos. Onde é que está o catolicismo desses senhores? Sentem-se bem com a sua consciência? Dormem descansados na sua almofada? Acham que contribuíram para um mundo melhor e mais justo ao obrigar as mulheres a passar pelo vexame de um julgamento depois do sofrimento de um aborto, sabe-se lá em que condições? Ou será que a ida à missa ao domingo lhes é suficiente para sentirem a alma lavada? Não serão eles os verdadeiros criminosos?
E já agora, uma pergunta para terminar: não há qualquer coisa de absurdo em querer fazer prevalecer o “direito à vida” de um embrião sobre os direitos de quem o gerou? O feto é dono da mãe?

Kroniketas, sempre kontra as tretas, os beatos e os falsos moralistas