quinta-feira, 16 de setembro de 2004

Admirável Mundo Novo

É agora que vou falar sobre o terrorismo.
1ª Premissa: não há bom ou mau terrorismo.
2ª Premissa: não há vítimas de primeira e de segunda.
3ª Premissa: as evidências acabam por nos fazer duvidar das duas primeiras premissas.
Vamos esquecer o politicamente correcto, o que não se diz para não ferir susceptibilidades de uns e outros. A verdade é que, como cidadãos da Europa Ocidental, a atenção dada a certas vítimas não é a mesma que damos a outras. Alguém sabia dos 12 nepaleses raptados no Iraque e que foram executados? Mas todos ouvimos já dezenas de referências às 2 italianas nas mesmas circunstâncias. A maioria das vezes esta relatividade não é propositada – é natural que nos interessemos mais por quem está mais próximo ou por quem temos mais afinidades – e acontece mais na comunicação social, mas no fim o efeito é um pouco discriminatório…
Quando se trata de governos, a situação já é diversa, pois estes têm o dever de serem imparciais e considerar todos os casos por igual. Não é isso que se passa, mas devia ser. Quantos esbracejam ocultos do nosso conhecimento por causas justas em terras que a ninguém interessam? Daí que algum conselheiro de Bush já deve ter descoberto que há petróleo em Darfour, daí as afirmações de Collin Powell sobre o conflito.
Não há bom nem mau terrorismo, mas há diferenças entre colocar uma bomba algures e avisar a polícia de quando vai explodir ou arrasar duas torres imensas usando como mísseis dois aviões cheios de inocentes. Ou chacinar crianças sem pingo de remorsos. Mesmo dentro do mal há uma escala.
O terrorismo dos anos 70, seja o do IRA, da ETA, dos grupos palestinianos ou do grupo Baader-Meinhof, era um terrorismo político, e as suas vítimas foram quase sempre seleccionadas de acordo com os propósitos políticos dos grupos. Não que não tenham morto inocentes (mesmo do ponto de vista desses grupos), como se sabe, mas a esmagadora maioria das suas acções foi sempre direccionada tendo em conta os seus objectivos bem precisos.
O actual terrorismo global é uma guerra civilizacional, não é de forma nenhuma estritamente político, daí o seu carácter cruel: excluindo o terrorismo de estado que Israel faz e que a Rússia também fez na Tchéchénia, todos os outros pretendem impor a hegemonia da sua forma de pensar, da sua “civilização”, aqui consubstanciada pela respectiva religião. Mas não foi sempre assim?
A moral ocidental, ainda que na mente de um terrorista, acaba por colocar limitações às coisas indignas que se podem realizar quando as motivações são puramente políticas. O ódio cega e pode fazer-nos transpor essa barreira, é certo e viu-se na ex-Jugoslávia, mas é um caso extremo mesmo quando falamos de extremismos. Quem não tem esse tipo de referências – inculcadas na nossa civilização pela moral judaico-cristã (e a firme noção do bem e do mal que esta transporta) e por séculos de humanismo que desaguaram nas modernas filosofias políticas – é um potencial monstro que não mede os seus actos senão pela adoração fanática corporizada no “martirismo” e no desprezo pela vida própria e pela dos outros.
Pode sempre argumentar-se que é a pobreza que gera os terroristas, embora seja um argumento um pouco simplista e redutor. Também se pode dizer que foi o fim da Guerra Fria que deixou os malucos à solta, livres do espartilho americano-soviético – o equilíbrio existente, ainda que baseado na força, obrigava a um controlo de terceiros que hoje não se realiza. Mas todos estes argumentos não explicam tudo, são apenas factores que levaram à actual situação. E o mais absurdo é que foram os antigos imperialismos americano e soviético que semearam os ventos que se tornaram tempestades. O Afganistão (não, não leva “e” nenhum depois do “f”!) foi o cadinho no qual se misturaram os ingredientes, o conflito israelo-árabe o catalizador que sempre lhes deu força.
E como é que vamos sair disto, perguntam? Não há guerras sem dinheiro, e são os petrodólares sauditas (e não os iraquianos, mas noutra altura falaremos sobre as ligações perigosas entre Bush e os sauditas) que financiam o armamento, a logística e a disseminação do islão radical. Portanto, ou o petróleo se esgota ou deixamos de basear a nossa civilização global nos hidrocarbonetos. Como vêem, é fácil! (Também se podem conquistar os países produtores mas, pela amostra do Iraque, não acho conveniente...)
Ainda que considerando o que aqui foi dito, e mesmo quando defende alguma causa justa, o terrorismo é indefensável, tal como a tortura, o esclavagismo, a guerra ou a desigualdade de direitos. Uma vítima é uma vítima, qualquer que seja a sua nacionalidade ou condição, e as armas têm o mesmo cheiro independentemente do lado em que estejam.
Gostaria de deixar aqui uma referência ao artigo “O Islão e o Terror” de Miguel Sousa Tavares, no jornal Público, que põe os pontos nos “ii” em muita coisa, sem medo de ser politicamente incorrecto, e que acaba por complementar (passe a imodéstia) o que se escreveu aqui.
A Verdade não é relativa. É só uma. Nós temos razão, eles não.

tuguinho, cínico encartado