quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Direito de Antena - Associação de Comiseração pelos Pobres de Espírito (ACPE)

Em resposta ao post “Crime, dizem eles”, publicado pelo excelso Kroniketas há uns dias, tivemos um comentário do senhor subcitado que achámos merecer um post. Não pedimos a ninguém que concorde connosco, mas gostaríamos de ver críticas despidas de demagogia. O texto em itálico pertence ao comentarista, o resto é da nossa lavra.

On : 9/4/2004 6:26:08 AM João Titta Maurício (www) said:

- não é ser "quadrado e obtuso" defender uma solução que é típica dos tempos "pré-pílula"? – ninguém aqui defende uma solução dos tempos “pré-pílula”, não somos pró-aborto, somos pela sua descriminalização. Que me lembre, quem defende soluções arcaicas é o papa, que nem o preservativo considera.

- argumentos de saúde pública? Se em vez de citar números redondos invocados (leia-se, inventados) pela extrema-esquerda que usa a questão como arma de "arremesso de Verão" e olhasse para os números oficiais e os resultados de estudos científicos, verificaria o qual ridículo é afirmar (hoje) a questão do aborto clandestino como um problema de saúde pública (mesmo cedendo às vossas interpretações criativas de "saúde pública")! – os números oficiais, por serem oficiais, não incluem o aborto clandestino, percebeu Titta? E não se diz “qual ridículo”, é “quão ridículo”. E saúde pública não são só as epidemias, não sei se está a ver: qualquer higienista do século XIX lhe podia dizer isso. O aborto clandestino é um problema de saúde pública, independentemente da quantidade de abortos – ainda que fosse uma só mulher em perigo, seria um problema, ou será que o seu valor da vida varia consoante a pessoa à qual é aplicado e tem descontos de quantidade?

- é uma pena que acusem os outros de "umbiguismo moralista" e recusem conhecer a realidade e persistam em campanhas que nada têm a ver com os tempos e realidades de hoje, antes pretendendo usar esta questão como um instrumento (qual "cavalo de Tróia") para impôr o "moralismo" relativista que vos caracteriza! – além de não querermos impor nada a ninguém, ao contrário do que vocês demonstram, o Titta deve viver numa realidade muito distorcida ou limitada. E já agora, deixe-me lembrar-lhe que o Cavalo de Tróia só resultou por causa da cupidez dos homens, e que essa da moral relativista nos levaria para o campo da Física – não sei se sabe que tudo depende do referencial, e receio bem que o seu esteja um bocado anquilosado.

- a vossa afirmação sobre Sua Santidade só demonstra a vossa ignorância: conheçam a causa das coisas e depois atrevam-se a tentar compreender e só depois julgar! – francamente! É de arrepiar os cabelos esta mentalidade de sacristia que julga os outros pelas suas medidas e preconceitos! Em vez de dar atenção ao que sua santidade diz, leia antes o que Jesus disse, pode ser que aprenda alguma coisa em relação à tolerância e ao que é realmente importante.

- se vivemos segundo os princípios da Santa Madre Igreja é uma questão pessoal... ainda que esses princípios sejam a base de todas avaliações éticas e morais que nos regem! Diferente coisa se pode dizer do vosso "mundo imaginado", que já teve emanações bem sangrentas e canalhas sempre que chegaram ao poder aqueles que seguem as "cartilhas" do "tios" Marx, Lenine, Staline, Pol Pot, Choamsky e outros! – ó Titta, condenar o Marx porque uns imbecis lhe leram os livros e aproveitaram as ideias mal e porcamente é o mesmo que culpar o Aristóteles pela condenação do Galileu. Lembra-se do Galileu certamente, aquele que a igreja obrigou a abjurar porque as suas descobertas não estavam de acordo com o que a santa madre igreja pensava? E Giordano Bruno, sabe quem foi? Devia saber, pois foi queimado pela sua inquisição. Sabe que aquela da primeira pedra também se aplica às mãos sujas de sangue, e assassinos como Staline e Pol Pot tiveram émulos a lutar pela cristandade, mas com meios bastante mais parcos, em tempos que já lá vão.

- sim: o valor Vida é incomensurável! E só monstros o podem negar! Ou querem prescindir dos vossos?!? Ou os vossos são mais importantes que os de outros, indefesos! – se hoje existe uma Declaração Universal de Direitos do Homem não foi porque a igreja se mexesse para os elaborar; geralmente sempre preferiu a manutenção do seu status quo e das suas benesses.

- fico a saber o quanto odeiam os pobres... é que por vós não nascerão mais crianças dos bairros de lata! Que horror... pobres! Só os ricos é quem têm direito à paternidade... Hipócritas!!! – só uma mente simples poderia ter lido o texto desta maneira… Alegre-se porque já é seu o reino dos céus, Titta! Pelo menos se a quota de pobres de espírito na altura em que morrer (espero que daqui a muitos anos) não estiver esgotada!

- e depois, ao determinismo histórico, sucede agora o determinismo individual: os filhos dos pobres e das mulheres que não podem abortar resultam em «marginais, ladrões, drogados, assassinos, porque os meios em que nascem muitas vezes os tornam assim logo desde pequeninos (já ouviram falar num bairro chamado "Cova da Moura"! Se a ignorância... sabem quem disse o mesmo? Sabem quem procurou determinar o futuro das pessoas a partir da sua origem? Sabem?!? Então sabem como estão bem acompanhados! É a primeira vez que vejo tamanha barabaridade: defender o aborto (afinal há quem o defenda, há quem seja a favor... mas, cobardes... não ousam afirmá-lo!) como instrumento de eugenia social... pobres de todo o mundo, já sabem o que eles vos destinam! – e a estupidez continua! Deixe o determinismo em paz que não é para aqui chamado! Se vivesse numa barraca e tivesse de ir trabalhar para ajudar a sustentar a sua família até podia ser que chegasse a médico. Mas o mais provável era não chegar, porque o estado que temos não é apoio para nada. Não quer dizer que se tornasse ladrão, bandido ou assassino – mas já vi muita vida perdida pelas pressões do meio. E você, já viu?

- mulheres, se não sabem se, no futuro, podem dar uma vida digna aos vossos filhos (bem gostava de conhecer o vosso conceito de "vida digna"?!?), não os deixem nascer... e se já nasceram, ora porra, matem-nos... assim terão uma "morte digna"! – Titta, alguma vez foi ao dicionário ver o significado da palavra “demagogia”? Explica tudo o que conseguiu transmitir com este parágrafo.

- que baboseira é essa a de afirmar que os que se opõem à despenalização do aborto colocam em causa «a liberdade de escolha se querem ou não pôr esse filho no mundo»? Alguém obrigou ao acto sexual? Alguém impediu que meios anti-conceptivos (gratuitamente distribuídos nas consultas de Planeamento Familiar, prestadas em qualquer Centro de Saúde) fossem usados pelo amantíssimo casal? Se não querem filhos protejam-se... e, se um dia o azar vos bater à porta, sejam homens e mulheres: assumam as consequências! – estou mesmo a ver o casal de putos, engalfinhado nas traseiras do liceu, a parar de repente e exclamar em uníssono: “espera aí! Devemos ir às consultas de planeamento familiar primeiro! Assim não pode ser! Maria, baixa lá a saia e vamos esperar pelo casamento, que é melhor.” E já agora, Titta, alguma vez pôs os pés num “posto da caixa” para ver em que condições são dadas as consultas de planeamento familiar quando há? Ou também não sabe o que isso é?

- o que está em causa é que é legal a abertura de processos pela notícia da prática de um acto jurídico-penalmente relevante... que o é porque a maioria da sociedade faz recair sobre o acto uma avaliação ética negativa! Sobre o acto e não sobre as pessoas!!! Sobre o comportamento das pessoas só se podem fazer juízos depois da análise do caso concreto. – então leve-se apenas o acto a julgamento e não a mulher que o praticou. O que é certo é que existem muitos interesses na manutenção do acto como clandestino. Sossega as mentes mais puras e evita problemas. E se a sanha é assim tão grande, porque não se vigiam melhor as fronteiras para tentar apanhar quem o foi fazer a Espanha ou a Londres? Ou mais uma vez o acto é relativo? Só é crime se for barato e for praticado sem condições? Ninguém é a favor da utilização do aborto como método “contraceptivo”, mas isto vale para todos, não só para quem tem menos possibilidades.

- quanto às "baboseiras" e "patacoadas" anti-católicas... nem dou resposta: são abjectas e hipócritas! – tenho pena de si por precisar de religião para se sentir alguma coisa e chegar a Deus. Repare que estou a falar de qualquer religião. Quanto ao que chama “baboseiras” e “patacoadas”, seu mariola, é o que nós pensamos, chama-se opinião. Pode concordar ou achar abjecta, mas ainda bem que nos tempos que correm não a pode calar. Confesse lá: teve uma visão do Kroniketas ali no Rossio, já bem passado pelas chamas do auto de fé, não foi? Era um bonito espectáculo que atraía gentes muitas e variadas! Foi uma pena ter acabado, não foi?

- a pergunta final: a prevalência do Direito à Vida faz-se, uma vez mais, circunstância a circunstância, caso a caso! As suas afirmações não sei se resultam de pura ignorância ou por manipulação: então não sabe que na actual lei essa prevalência não é absoluta? E à demagogia final («o feto é dono da mãe?») só apetecia responder que, não, não é dono da mãe... e que, depois de um aborto, ficamos a saber que ele apenas era filho de uma ....! – finalmente revelou-se no final! Custou, Titta! Quer dizer que para si, mulher que abortou passou a ser puta? Diga-me cá, já teve uma conversa franca com a sua mãe? Pode ser que tenha uma surpresa.

Como já se tornou habitual, o Titta deixou o contacto não.me.apetece.dizer_to@mas.imagino.que.o.vais.descobrir.pt, que desconfio não ser válido. Descanse Titta, que a nós não nos move qualquer ódio nem sanha persecutória e quem tem as fragatas até é o Tio Portas.

tuguinho, cínico encartado