sábado, 3 de julho de 2004

Para definitivamente vermos a Luz

Toda a Tugalândia está em festa! Portugal está na final do Europeu, o Durão fugiu para Bruxelas e, se Deus existir, Santana Lopes continuará a só poder cavar buracos no concelho de Lisboa.
Nestes tempos de euforia e mudança, em que tudo parece acontecer à velocidade da luz (que como sabemos só é ultrapassada pela velocidade do boato), convém arrastarmo-nos para fora de cena para olharmos desassombradamente o desenrolar da trama. Só assim nitidamente se poderá discernir a escondida transitoriedade de quase tudo o que parece importante.
É, por exemplo, mais importante uma vitória no Europeu de futebol do que a ida de Durão Barroso para Bruxelas, para um cargo em que ser tuga ou inuit tem para Portugal exactamente a mesma influência. Acreditem que é! O facto de Durão ser presidente da comissão não vai arrastar hordas de turistas ao nosso país, mas o Europeu de certeza que terá uma influência real e positiva nessa área. Além do que já fez pelo nosso amor-próprio (auto-estima é coisa para depressivos) e pelos fabricantes chineses de bandeiras, este campeonato foi muito mais além do contabilizável: deu-nos confiança – para andar para a frente, para escolher a competência e eliminar pústulas paleolíticas como o Torres e o Jardim da pele da nação. As pessoas estão fartas de mediocridade e a selecção de futebol fez-nos ver que é possível. Basta querer.
Ser tuga é ser contraditório e nessa mesma contradição encontrar as razões para existir como tal. Não é ser medíocre – esse é o lado malsão da aventura de ser tuga. Não é a inevitabilidade.
E depois existem aquelas coisas que de tão naturais só nos merecem a leitura do título, que surgem com a inexorabilidade da existência e cuja importância não é legível pelo olhar desatento: faleceu Sophia de Mello Breyner Andresen. Não marcou golos, não foi para Bruxelas, mas creiam que, quando todos nós formos apenas dados estatísticos, o nome dela ainda andará por cá. Cantou o mar, a liberdade por que lutou e principalmente a luz – aquela luz cálida que só existe numa parede caiada de branco e que encerra toda a verdade do mundo. Até sempre.

Cal

Lutar por mares diferentes
não foi sina – foi das escolhas
a que a liberdade prefere;
Porque antes a espuma branca
sem limites, que o pedestal
dourado que só cerceia.

É por lutar por mares só desses
que o mundo em si se encanta
e se eleva da luz a cor de ti,
mediterraneamente branca…

(poema gentilmente cedido pel’A Esfinge na Face)

tuguinho, cínico encartado (esperando também que amanhã, na Luz, haja Luz)