quarta-feira, 21 de julho de 2004

Na ressaca do Euro 2004: Krónikas Tugas, 2 – Intelectualóides, 0

Este post estava para ser escrito há algum tempo, mas o desfecho do Europeu deixou-me sem ânimo para escrever depois da análise ao jogo da final. Mas falta acrescentar qualquer coisa, agora que a poeira já assentou.
Como sempre acontece nestas ocasiões, quem não gosta de futebol acha que estes eventos ocupam demasiado tempo de antena nos media e demasiada atenção da população. Eduardo Prado Coelho escreveu que as manifestações de entusiasmo pela carreira da Selecção Nacional estavam a atingir as raias da demência. Pacheco Pereira achou que era uma bebedeira de futebol, que tinha uma atenção que não lhe era dedicada em mais nenhum país evoluído (mas nós somos um país evoluído?). Até o José Pedro Gomes, magnífico actor da nossa praça e que tem um espaço nos “Cromos TSF” onde tem apresentado algumas crónicas fenomenais, fez uma crónica a malhar no futebol. Pelos vistos, ele não vai em futebóis (parêntesis para aconselhar que ouçam os Cromos, de 2ª a 6ª feira a seguir às 8h e às 18h, ou o compacto ao sábado a seguir ao noticiário das 12h; ou agora que o programa está de férias procurem-nos nos arquivos do site TSF).
O que eu quero dizer sobre isto é que nós, em Portugal, temos tão poucos motivos para andarmos contentes com o nosso dia-a-dia (vide o artigo que escrevi sobre as Finanças), para nos sentirmos orgulhosos do país que somos e para exibir a nossa bandeira que um acontecimento destes, que nos faz encher o ego, colocar bandeiras nos carros e nas janelas e sair à rua para dar azo à alegria, deve ser aproveitado ao máximo para nos libertarmos das tristezas e exteriorizarmos as pequenas alegrias que, infelizmente, só o futebol, o hóquei em patins ou o atletismo nos dão de vez em quando. Nunca esquecerei uma madrugada de Agosto de 84, em que quase chorei com a corrida fantástica do Carlos Lopes, lá em Los Angeles, a caminho da medalha de ouro e do “record” olímpico na Maratona.
Sempre que se fala em indicadores económicos ou sociais estamos nos primeiros lugares nas coisas más (acidentes nas estradas, doenças cardiovasculares, casos de sida, gravidez de adolescentes, taxas de analfabetismo e de iliteracia, insucesso escolar, défice económico, preços de telefones, electricidade, gasolina e automóveis, etc. etc. etc.) e nos últimos lugares nas coisas boas (salário mínimo e médio, nível de vida e poder de compra, produtividade, regalias sociais, e fico por aqui que já chega).
Então, se estes pequenos sucessos que são os sucessos desportivos nos fazem sentir orgulhosos e felizes, porque não manifestá-lo? Deixem-nos aos menos estar contentes com alguma coisa, mesmo que seja por motivos fúteis. Não é de certeza com o governo que nos vamos alegrar, pois não?
Claro que os intelectualóides da treta, que não entendem estes fenómenos de massas, acham que tudo se resume a alienação e que tudo são manobras para distrair o povo dos verdadeiros problemas. Enganam-se. O povo sabe quais são os problemas que o afligem, e por isso mesmo alegra-se com o que pode. E apesar de pouco evoluídos, já mostrámos que na hora de manifestar a nossa vontade sabemos premiar ou punir aqueles que o merecem. Se houve coisa em que evoluímos foi em maturidade política. Quase sempre o povo português tem votado de forma justa. Essa tese da distracção ou da alienação já deu o que tinha a dar, noutros tempos.
Por outro lado, vi envolvidos neste fenómeno pessoas ligadas às artes, à ciência, à cultura e ao espectáculo, como Rui Veloso, Rui Reininho, Manuel Alegre, António Vitorino de Almeida, António Pedro de Vasconcelos, Eduardo Barroso e até o psiquiatra Carlos Amaral Dias, que não me parecem propriamente alienados ou distraídos dos problemas.
Por isso, aos intelectualóides só peço: deixem-nos andar alegres algum tempo com aquilo que realmente nos diverte. Agora que voltámos à rotina, já passou a alegria.
E já agora: repararam na quantidade de referências que foram feitas ao facto de desde o 1º de Maio de 74 não se ver o povo unido daquela forma? Tirem daí alguns ensinamentos, sim? Pode ser que, afinal, os intelectuais tenham algo a aprender com a populaça. O tempo dos grandes educadores da classe operária, como se intitulava o Arnaldo Matos, já lá vai...
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas