quinta-feira, 24 de novembro de 2005

O aviltamento da língua portuguesa (II)

Carácter, s. m. – marca; sinal gravado ou escrito; impressão; tipo de imprensa; sinal distintivo; aspecto; sinal indelével impresso na alma pelos sacramentos do baptismo, confirmação e ordem, devido ao qual não podem ser recebidos senão uma vez; psicol: maneira habitual e constante de reagir, própria de cada indivíduo; expressão; índole; génio; energia; firmeza; força de ânimo; a carácter: com propriedade.

Caracteres, s. m. (plural de carácter) – letras escritas; tipos de imprensa.

(Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo, 5ª edição, 1979)

Ainda na passada semana (16 de Novembro) o nosso muito estimado José Pedro Gomes, na sua rubrica “Cromos TSF”, se insurgia contra os atropelos à língua praticados diariamente, quer nas conversas quer nos órgãos de comunicação social. Nos anúncios de rádio, então, é um fartote. Isto vinha a propósito do uso e abuso de estrangeirismos injustificados, quando há palavras em português para dizer exactamente o mesmo. Dava como exemplo o “now” da Vodafone, o “wireless” dos computadores (quando há muitos anos já existe a expressão “sem fios”, por exemplo a TSF é “Telefonia sem fios”), a “ladies night” e a “happy hour”, entre outros, e as deturpações irritantes como o “númaro”, o “treuze”, a “runião”, o “pugrama”, etc. E eu acrescento: o “hades” ou “hadem”, o “vistes”, “fostes”, “fizestes” e “dissestes”, o “póssamos”, “tênhamos” e “supônhamos”. Será que estas expressões se podem considerar consagradas pelo uso? E as pronúncias regionais? Será que a frase “tou a ber uma baca”, dita com pronúncia do norte, pode ser consagrada pelo uso, como o “lête” e o “caféi” ditos com pronúncia do Alentejo?
O caso mais flagrante de deturpação é o famigerado “carácter”. Não por causa do “carácter” em si, mas por causa duma mutação (assim como as mutações dos vírus) surgida do desconhecimento da língua, para “caractér”. No início dos anos 90, quando a utilização dos computadores começou a vulgarizar-se, comecei a ouvir aqui e ali o “caractér” para cá e “caractér” para lá, e aquilo não me soava bem. Falava-se nos caracteres e quando se ia para o singular lá vinha o “caractér”. Nada como consultar um dicionário, pensei na altura, vindo a confirmar as minhas suspeitas: estávamos perante uma deturpação injustificável duma expressão devidamente consagrada na língua portuguesa, “carácter”, cujo plural, “caracteres”, fez (e continua a fazer) muita gente pensar que a pronúncia do singular é igual.
Daí para cá tem sido uma cruzada que eu e o Tuguinho (que éramos colegas de trabalho na altura) temos levado a cabo para esclarecer as pessoas de que se está a praticar um atentado à língua. O problema, muitas vezes, não é só o desconhecimento, é sobretudo a ausência de critério e de sentido crítico na escolha das palavras: as pessoas ouvem um disparate e tomam-no como bom. Uma vez houve até quem me tentasse demonstrar a existência do “caractér” por causa de no plural se pronunciar “caractéres”: se no plural se acentua a letra “E”, então no singular é igual. Como se o singular se formasse a partir do plural e não o contrário!
Será este um caso de consagração pelo uso? De modo nenhum, nem o facto de muita gente o dizer (erradamente) pode servir como argumento. O carácter já existia muito antes dos computadores e já tinha esse significado, desde os caracteres de imprensa inventados pelo Guttenberg. Logo, não há qualquer justificação para, a pretexto de o distinguir do carácter das pessoas, se inventar outra palavra e tentar metê-la a martelo no vocabulário. Se vamos incorporar na língua oficial todas as burrices consagradas pelo uso, qualquer dia deixamos de ter uma língua e passamos a ter um dialecto em que ninguém se entende.
No que respeita aos estrangeirismos a situação já é diferente, porque muitas palavras entraram realmente na linguagem comum e justifica-se o aportuguesamento da grafia, como é o caso do ecrã, derivado do “écran” francês. Embora com inicial relutância, porque existem significados em português como tela ou monitor, acabei por me render à nova grafia porque esta é, de facto, a palavra mais usada para designar tanto os ecrãs de computador como os de cinema ou televisão. Já não concordo que se tente aportuguesar o “croissant”, porque aí teríamos que mudar toda a palavra. Escrever “croissã” não faz sentido, e mudar para “cruassã” seria ridículo, portanto este é daqueles estrangeirismos que mais valia ficarem como estão. O mesmo se passa com o “software” e o “hardware”. Se toda a gente percebe o que querem dizer mais vale não lhes mexer, senão teríamos que inventar um “sofetuére” e um “arduére”, o que seria uma anedota!
Por outro lado, não me choca absolutamente nada chamar “browser” ao programa de navegação na “Web” (não soa muito bem chamar-lhe “teia”) porque “pesquisador”, “varredor” ou “vasculhador” não melhorava nada, nem mandar um “e-mail” em vez de “uma mensagem de correio electrónico” (aqui é evidente a simplificação da linguagem se usarmos a expressão inglesa). Mas já me chateia ouvir chamar “headphones” a uns vulgares... auscultadores.
Também me aborrece ouvir as invenções de palavras caras, saídas sabe-se lá de onde: “contraditar” para “contradizer”, “recepcionar” para “receber”, “percepcionar” para “perceber”, “contratualizar” para “contratar”... Sem esquecer o detestável “enfoque”, outro brasileirismo que pode ser substituído com vantagem (e correcção) por “ênfase”.
Portanto, tudo na sua conta e em função do contexto, mas usar como único critério a consagração pelo uso é que não. Não contem connosco para assimilações forçadas e, nalguns casos, aberrantes. Sim, meu caro Pólis, acho o “bué” aberrante. Por muito que o Prof. Malaca Casteleiro ache o contrário.

Kroniketas, defensor da língua portuguesa