terça-feira, 29 de novembro de 2005

Cruci-ficção ou realidade?

Confesso que a notícia me apanhou desprevenido. Ao que parecia, o Ministério da Educação tinha enviado uma circular às escolas para serem retirados os símbolos religiosos que estivessem presentes nas salas de aula. O quê? Mas esses símbolos não foram retirados na altura em que os retratos do Tomás e do Caetano foram para a arrecadação? Parece que não… e parece incrível como 30 anos depois do estabelecimento da democracia ainda se esbarram nestes restos do antigo regime!
O Estado é laico, as escolas são laicas e não devem conter símbolos que não os nacionais. Quem tem religião são as pessoas (se quiserem) e não as instituições!
Colocar numa sala de aula um símbolo de qualquer religião é flirtar com uma situação que tão maus resultados já deu no passado – mais recente e mais longínquo – um casamento que só produziu aberrações, privilégios, injustiças e crimes.
Se se critica a promiscuidade entre religião e estado na esmagadora maioria dos países muçulmanos, com que direito se vem protestar contra a retirada de símbolos religiosos nas nossas escolas, como fez a igreja católica sem perder tempo?
Quem quer usar véu vai a uma mesquita, quem quer rezar o terço vai a uma igreja. E quem quer estudar vai para uma escola.
Não sou anti-religioso (isso é do foro íntimo de cada um) mas sou anti-clerical! A padralhada, com algumas honrosas excepções, não passa de uma cambada que ao longo dos séculos se habituou a mamar nas tetas do poder ou se tornou nele mesmo. Essa foi uma situação que no nosso país a igreja perdeu há 30 anos, mas de que ainda restaram uns quantos anacronismos, como os crucifixos na sala de aula e alguns padres caciques no interior mais esquecido. Ah! E o cónego Melo, que ao que parece ainda não pagou pelo que fez neste mundo mas, se acreditar realmente na sua religião, pagará no próximo durante muito tempo…
As saudades que muitos têm do tempo em que o povo era simples (leia-se iletrado, ignorante, pobre de espírito, manipulável), já não fazem sentido porque, por muito que lhes custe, esse tempo acabou. É certo que o analfabetismo, oficial e funcional, ainda é elevado mas, nem que seja por conta das telenovelas brasileiras, as pessoas não se deixam levar tão facilmente.
O Portugal bucólico do Botas, das paredes caiadas e do cheirinho a alecrim já não existe. Apesar de tudo e felizmente.

tuguinho, cínico crucificado (pela ignorância)