domingo, 23 de janeiro de 2005

Não, sr. Trapattoni, não é normal

Depois de mais uma exibição vergonhosa a roçar o zero de qualidade e de sermos humilhados no nosso próprio estádio pelo penúltimo classificado (que só tinha ganho 3 jogos e é treinado por um especialista em descer de divisão as equipas que treina), o treinador do Benfica, depois de repetir pela 20ª vez que o campeonato é longo (como se isso fosse atenuante para a vergonha exibicional que se arrasta há 6 meses, isto é, desde que o campeonato começou) disse que É NORMAL os adeptos assobiarem quando a equipa perde. E eu acrescento: É NORMAL os adeptos pedirem a saída do treinador quando se mete pelos olhos dentro que este é incapaz de pôr a equipa a jogar a um nível minimamente aceitável.

  • O que NÃO É NORMAL é que ao fim de 18 jornadas a equipa de futebol do maior clube português continue a ser uma das que pior joga neste país;
  • O que NÃO É NORMAL é que qualquer equipa do fundo da tabela (daquelas que lutam para não descer de divisão) que se apresente no estádio da Luz com um mínimo de organização dê um banho de futebol ao Benfica e saia como merecedora indiscutível da vitória;
  • O que NÃO É NORMAL é que depois de 4 vitórias nos primeiros 5 jogos, o Benfica esteja há 3 meses e meio sem ganhar fora, que não consiga duas vitórias seguidas desde então e que só tenha ganho 6 dos últimos 13 jogos;
  • O que NÃO É NORMAL é que um treinador que tem fama (e proveito) de ser defensivo não consiga, pelo menos, pôr a equipa a defender de forma minimamente segura, sofrendo mais de um golo por jogo (20 em 18 jogos) e na maioria dos casos como resultado de erros absolutamente primários;
  • O que NÃO É NORMAL é que enquanto as outras equipas evoluem com o decorrer dos jogos, no Benfica não se veja qualquer melhoria no jogo da equipa ao longo da época; pelo contrário, vê-se um constante decréscimo de entrosamento entre os jogadores, como se os que entram em campo fossem apenas um grupo excursionista que não se conhece de lado nenhum e se encontrou ali por acaso para fazer um joguinho de fim-de-semana do tipo “solteiros contra casados”;
  • O que NÃO É NORMAL é que uma equipa que se diz que é candidata a ganhar algo (não se sabe o quê) perca sistematicamente todos os jogos decisivos ou com adversários de algum peso e nalguns casos de forma expressiva (Anderlecht 3-0, Estugarda 3-0, Belenenses 4-1, Porto duas vezes, Sporting);
  • O que NÃO É NORMAL é que o presidente da “instituição” (por favor, alguém que lhe ensine outra palavra para ele mudar o disco, pois já não há paciência para o ouvir repetir até à exaustão as referências ao clube como “a instituição”) continue a assobiar para o lado, como se nada de especial se passasse, e se mantenha na firme disposição de continuar com este treinador até ao desastre final;
  • O que NÃO É NORMAL é que o ex-dirigente Gaspar Ramos que, bem ou mal, enquanto lá esteve fez algo pelo clube, ganhou títulos e até se sentou no banco dos réus em defesa do clube num processo movido por Pinto da Costa, de quem sempre foi um feroz opositor (ao ponto de numa assembleia do Porto ter sido declarado inimigo nº 1 daquele clube) seja agora apelidado de “abutre” por um presidente em exercício que, por acaso, quando o Benfica foi vilmente atacado pelo “Papa” e seus acólitos – ao ponto de alguns dirigentes terem que sair do estádio das Antas escondidos numa ambulância – ninguém sabe onde estava, ou se calhar estava aliado a esse declarado inimigo da “instituição”. Que autoridade moral tem Luís Filipe Vieira para chamar “abutre” a alguém que lutou pelo clube muito antes dele?
  • O que NÃO É NORMAL é que o director do futebol seja o fundador da casa do F. C. Porto no Luxemburgo e que a gestão do plantel profissional do clube esteja inteiramente dependente dos seus interesses particulares, só assim se justificando as contratações feitas no Estoril, de que o dito cujo é o principal accionista – ainda ontem se viu a (in)utilidade da contratação de Carlitos.
  • E NÃO É NORMAL, sobretudo, que o presidente da “instituição” reaja com um “qual é o problema?” após uma das várias humilhações da época, o desastre dos 4-1 no Restelo, coisa que não acontecia há meio-século.

Será que os benfiquistas acham tudo isto NORMAL? Eu não acho e também aqui (porque me recuso a ir ao estádio alimentar ainda mais aqueles calões) mostro o meu lenço branco ao treinador e à direcção.
Há alguns anos um jornalista escreveu que o grande problema do Benfica é que quem tem dinheiro não tem classe e quem tem classe não tem dinheiro. Mas há outro que se junta a esses dois, e que é o principal de tudo: com ou sem dinheiro, o que não há é COMPETÊNCIA para gerir um clube de futebol. Este negócio não é bem igual a uma loja de pneus. E só por manifesta incompetência se pode fechar os olhos ao descalabro por que o futebol do Benfica passa. Não fazer nada e continuar a fingir que tudo está bem só pode ter dois motivos: incompetência ou apenas estupidez. A não ser que haja outros interesses, ligados ao director do futebol, que escapam a quem está de fora…

Kroniketas, farto da incompetência do presidente e do treinador