sábado, 31 de julho de 2004

Néctares de Baco (5) – Beber tinto à temperatura ambiente?

Para concluir esta série de dissertações vinícolas e antes de ir de férias, vou-me debruçar (sem entornar) sobre o último dogma: branco e verde bebem-se frescos e tinto bebe-se à temperatura ambiente.
Se a primeira premissa está certa, nada de mais errado para a segunda. “Temperatura ambiente” num dia como hoje significa beber o vinho a 30 graus. Isso seria se o vinho tivesse acabado de sair duma cave fresca. Qualquer livro ou revista refere as temperaturas a que os vinhos devem ser bebidos e nunca vi nenhum que recomendasse beber o vinho tinto a mais de 18º C. O que é grave é a falta de noção que existe nos nossos restaurantes a este respeito. Já tive algumas situações hilariantes com empregados de mesa ignorantes na matéria, havendo um que teimava que um vinho que trouxe morno para a mesa estava a 17º!!! Também tenho surpreendido alguns comparsas à mesa ao pedir um frappé, o que motiva este invariável comentário: “não sabia que se refrescava o vinho tinto”. A minha resposta também é invariável: “não se refresca, não se pode é beber morno”. Nada que uma hora no frigorífico ou um balde com gelo e água ou mesmo uma manga de refrigeração não resolvam (esta última, aliás, até refresca mais depressa que qualquer uma das outras opções). Se for no restaurante, não hesitem em pedir para arrefecer o vinho se este vier morno, porque fica imbebível e só se sente cortiça na boca, perdendo completamente os aromas.
Quanto aos brancos, verdes, rosés e espumantes, não há problema: se ficarem frios demais (o que também os faz perder os aromas, não se deve cair no exagero oposto), ao irem para a mesa e serem servidos nos copos a temperatura começa rapidamente a subir, por isso depressa atingirão uma temperatura ideal. Mesmo os tintos, depois de arrefecidos, começam a aquecer depois de servidos. E agora no verão a questão da temperatura é fundamental para não se andar a beber vinho “quente”. Porque não comprar um termómetro de vinho para tirar as dúvidas? Pode-se colocar o termómetro no copo ou na garrafa, quando esta ainda está cheia, e certamente haverá muitas surpresas em relação à temperatura a que se está a beber o vinho.

Este foi o meu último post antes de férias, pelo que fica o Tuguinho e os outros a tomar conta do estaminé. Em Setembro voltaremos com algumas sugestões vinícolas para a nova época, aproveitando as diversas feiras que se vão realizar. Até lá, bebam com moderação (lembrem-se que beber bem não é beber muito; quem bebe demais é porque não sabe apreciar o que está a beber) e, por favor, não o bebam morno. Vinho não é sopa.

Kroniketas, sempre kontra as tretas e de termómetro no copo

quarta-feira, 28 de julho de 2004

Néctares de Baco (4) – Vinho é tinto, branco é refresco e verde é a cor da garrafa?

E agora a questão que, aparentemente, seria a mais fácil, mas pode ser a mais difícil. Que vinho é que se bebe em cada circunstância? Mais uma vez, devemos deixar de lado os fundamentalismos. O que é curioso aqui é que os dogmas são muitos e quase sempre estão completamente errados.
1º - Vinho é tinto, branco é refresco e verde é a cor da garrafa. Por acaso é uma questão que me deixa algures a meio caminho entre o sim e o não. Quando falo de vinho, normalmente falo de tinto. Quase todas as referências que fiz até agora a marcas de vinhos eram acerca de tintos. Quando falo de branco ou verde refiro-o expressamente.
Também é verdade que nas compras que faço, compro uma garrafa de vinho branco ou verde por cada 8 ou 9 de tinto. As cartas de vinhos nos restaurantes são esmagadoramente maioritárias em tintos, as feiras de vinhos também. Um facto é que em Portugal a produção de vinho tinto é muitíssimo superior à de branco (excepção feita à região de Bucelas que só tem denominação de origem para brancos, mas onde se produzem tintos como Vinho Regional Estremadura). No caso do Alentejo, sou até da opinião de um dos mais conhecidos autores de guias de vinhos que acha que, pura e simplesmente, não se devia produzir ali vinho branco. Pode parecer estranho mas a verdade é que, contrariamente ao que penso dos tintos, aos brancos alentejanos falta elegância, suavidade, e por muito que tente não consigo encontrar um de que goste realmente. Também acho que o tinto é, por natureza, “mais vinho” que o branco. Há outra estrutura, outros aromas para descobrir que faltam nos brancos. É preciso não esquecer que os tintos são fermentados em contacto com a pele da uva e é daí que extraem a cor e os taninos (que dão ao vinho adstringência e capacidade de envelhecer), o que nos brancos não acontece. À partida, a matéria-prima é mais favorável para a produção de bom vinho tinto do que branco, sendo mais fácil obter um bom produto a partir de uvas tintas do que de uvas brancas – isto é dito por um produtor que também é especialista em análise sensorial, o Prof. Virgílio Loureiro. Mas...
Estaria a ser fundamentalista se dissesse que o vinho branco é apenas refresco. Apesar de ser um confesso fã dos tintos (ou se calhar até por isso mesmo), nos últimos anos tenho tentado alargar o meu leque de conhecimentos nos brancos. É certo que me é mais difícil gostar dum branco que dum tinto, mas há vinhos brancos francamente bons, e para cada um a sua função. Pessoalmente gosto dos brancos leves, suaves e secos. Neste aspecto, acho que os de Bucelas são os melhores, muito equilibrados em todas as suas características. Na região de Setúbal também há bons brancos, como o BSE, o João Pires, o Quinta de Camarate e o Catarina. No Douro também há brancos com alguma leveza.
Quanto aos verdes, têm características muito próprias e, devo confessar, são aqueles em que sou menos exigente. Se é verdade que os da casta Alvarinho têm normalmente uma estrutura e uma elegância que os distingue dos outros, a facilidade com que se bebem (até como aperitivo) permite-me gostar de quase todos, com destaque para os das casta Loureiro, que permite obter vinhos excelentes. Mas o facto de tanto os brancos como os verdes poderem servir de aperitivo não nos deve deixar com essa visão redutora de que são apenas refrescos. A prova final faz-se sempre com a comida, o que nos leva ao segundo dogma.
2º - Tinto bebe-se com carne, branco com peixe, verde com marisco. Já foi tempo em que este pensamento fazia lei, mas na realidade não é tanto assim. Como regra geral funciona e nada impede que se siga o princípio, mas devemos ter alguma abertura para as excepções, que não são assim tão poucas. Há pratos de carne que não ficam nada mal com vinho branco e, curiosamente, algumas carnes até são difíceis de ligar com vinho tinto. Frango é uma delas. Muitas vezes um vinho tinto pode ser demasiado pesado para a carne de frango. Do mesmo modo, certos pratos de peixe casam perfeitamente com vinho tinto, como as sardinhas assadas (aqui até se pode misturar Seven-up ou optar pela sangria, mas nesse caso não vale a pena escolher um bom vinho...), alguns peixes assados no forno ou certos pratos mais pesados de bacalhau (embora eu prefira um branco mais leve ou um verde).
De qualquer modo, o que é importante é não chocar os sabores e equilibrar o “peso” do vinho e do prato: nem o vinho deve abafar o sabor da comida, nem a comida deve anular o sabor e o aroma do vinho. Por isso, vinhos mais leves para entradas e comidas delicadas e vinhos mais cheios e pesados para pratos substanciais. É impensável servir um vinho branco com feijoada ou um tinto com peixe grelhado e menos ainda com marisco. É que há sabores que não ligam mesmo. Mas com muitas carnes um vinho branco encorpado não vai nada mal, ao contrário do que se pensa, e agora no verão até se torna agradável. Em todo o caso, choca-me menos acompanhar carne com brancos do que peixe com tintos.
Quanto aos verdes, já disse que gosto deles com bacalhau mas o consumo mais habitual é com mariscos. São vinhos geralmente leves, aromáticos e frescos na boca por causa da sua acidez. Um branco leve, como os de Bucelas, muitas vezes também servirá para o mesmo efeito. Quando falamos de verdes costumamos esquecer o verde tinto, que é praticamente desconhecido fora da região onde se produz. Bebe-se fresco mas é agressivo e por isso difícil de gostar por quem não está habituado a bebê-lo. No entanto adequa-se bem a pratos pesados como rojões, sarrabulho ou cabidela.
Ainda há os rosés, que são feitos com uvas tintas mas estão menos tempo a fermentar em contacto com a pele das uvas. Devido à sua leveza e frescura também se aplicam em muitas ocasiões em alternativa aos brancos, mas eu gosto deles é com comida chinesa ou italiana.
Para finalizar temos os espumantes, que pretendem imitar o Champanhe (atenção que este nome só se aplica aos produzidos naquela região de França) e que não servem só para festas. São muito recomendados, por exemplo, para acompanhar leitão à Bairrada, aconselhando-se aqui que seja espumante bruto. Os mais doces, por serem doces só ficam bem com... doces. E esqueçam os Asti’s italianos: esses parecem mais Seven-up com álcool do que propriamente vinho.
Quando se fala de entradas, queijos ou enchidos as hipóteses são várias, porque dependendo das características de cada comida pode-se beber branco, tinto, rosé ou espumante. Num curso de prova que frequentei fiz uma prova cega em que nos deram rosé para acompanhar tâmaras enroladas em bacon. Toda agente achou que ligava na perfeição. Por isso, não há nada como ir experimentando para tirar conclusões.
3º - Branco e verde bebem-se frescos e tinto bebe-se à temperatura ambiente. Esta fica para a próxima, para concluir.

Kroniketas, sempre kontra as tretas e o racismo vinícola

terça-feira, 27 de julho de 2004

O país de novo em chamas

Tal como há um ano, e tal como se previa, o país continua a arder de norte a sul quando o calor aperta. E tal como há um ano, não há meios de combate suficientes.
Há um ano, eu perguntava-me o que é que se iria fazer desde lá até agora, e palpitou-me que nada iria mudar.
Agora pergunto o que é que se fez e o que é que mudou. Pela amostra, a resposta é a mesma, como já foi salientado pelo Tuguinho mais abaixo: NADA!
O ministro continua a ser o mesmo inútil de há um ano, portanto as soluções só poderiam ser as mesmas. Lembram-se do que então foi dito? Que se tinha aprendido com a nefasta experiência e se iam tomar as medidas necessárias? Onde é que elas estão?
Será que isto só pára quando já não houver uma única árvore para arder?

Kroniketas, sempre kontra as tretas

segunda-feira, 26 de julho de 2004

A voz do asno (periódico com coice certo) – O imbecil da Madeira

O idiota inútil voltou a dar uns coices nos cubanos do Cont’nente. Não há ninguém que o atire ao mar, sem jangada nem colete?

blogoberto, chico-esperto

Ladrando às Chamas (24) - Os Filhos da Puta

Algumas noticias dos jornais:
Promoção livra juiz suspeito – O juiz suspeito de auxílio a Fátima Felgueiras foi promovido e escapa ao inquérito disciplinar.
É fácil quando se conhece as pessoas certas: foi-o com Fátima Felgueiras, que teve quem lhe soprasse aos ouvidos que estava a um passo da cela e foi-o também agora, para que o presumível culpado escapasse a um processo disciplinar do Conselho Superior de Magistratura. O problema resolve-se com uma promoção que o fez passar da alçada da magistratura judicial para a magistratura administrativa e fiscal – como os órgãos disciplinares são diferentes, qualquer processo disciplinar não será efectivo. Qual é a expressão que vos vem à memória? Pois, é essa.
Falta de meios agrava incêndio em Alqueva – O Ministro Figueiredo Lopes negou um helicóptero à região para apoiar o combate aos fogos.
E na semana passada arderam 5000 hectares, quando podiam ter sido incrivelmente menos se existissem meios aéreos lá sedeados. Um helicóptero, por exemplo. Tanto o governador civil como a protecção civil e os responsáveis dos bombeiros estavam de acordo com a necessidade. O ministro não. Ah! Já me ia esquecendo! Agora já vai passar a haver helicóptero.
E hoje lá foi Monchique, lá foi Arrábida… Mas isso eu já sabia.
Qual é a expressão que vos vem à memória? Pois, é essa.
Santana deixa câmara mais pobre – A autarquia tem menos património, o túnel do Marquês está suspenso e a requalificação do Parque Mayer vai custar 130 milhões.
E 80 milhões de euros de dívida em dois anos é obra! O João Soares só conseguiu uma dívida de 20 milhões e num maior período de tempo. E quer-me parecer que ainda deverão surgir mais umas contitas… Entretanto o malfadado túnel está parado – querem apostar que nunca mais ouviremos uma palavra sair da boca de Santana Lopes sobre o assunto? Entretanto todos os que têm de entrar em Lisboa vão sofrer as consequências daquela espécie de coito interrompido. E sabem quando é que vamos ver o Parque Mayer recuperado? Calma! “Nunca” é forte demais! Ainda acontecem milagres por aí – está certo que não têm passado de santinhas a chorar e não houve nada na área da construção, mas que diabo, há sempre a esperança! Que mal tinha um honesto e desconhecido arquitecto com um honesto e funcional projecto que servisse para aquilo que se queria? Talvez não desse tanto tempo de antena na TV, mas funcionava na mesma, por uma fracção do preço.
Qual é a expressão que vos vem à memória? Pois, é essa.

Isto já sem falarmos num ministro do ambiente com cargos em empresas ligadas ao sector. Não quer dizer que haja mal nisso intrinsecamente, mas não é um início encorajador…
A incompetência não possui ideologia. Há incompetentes em todos os quadrantes, o que torna mais perigosa a escolha de uma formação partidária em quem votar, sendo a incompetência tão abrangente. Isto não quer dizer que um governo tenha de possuir técnicos especializados como ministros. Ser ministro é um cargo político. Um ministro não tem de ser um especialista na área, mas deve abster-se de dizer bacoradas ou de as fazer; deve é ter uma equipa, essa sim, de especialistas que o apoiem e definam tecnicamente a política a implementar - não uma equipa de partidocratas, os famigerados boys (and girls).

Se eu der uma martelada num dedo, só me prejudico a mim. Por cada martelada que estes gajos dão, somos todos nós a ficar com os dedos inchados e roxos… Qual é a expressão que vos vem à memória? Pois, é essa: Filhos da Puta!

tuguinho, cínico chamuscado (pelas idiotices e vigarices dos poderes)

Não há nada que aconteça ao Schumacher

11 vitórias em 12 Grandes Prémios disputados! 81 vitórias, mais do que a Lotus, 4ª equipa mais vitoriosa da Fórmula 1! Além de já ter igualado o seu próprio “record” de vitórias numa época, já conseguiu 6 vitórias consecutivas, que também é “record”, e está quase a fazer aquilo que o Senna disse que queria fazer: ganhar 16 corridas e fazer 16 “pole-positions”. Para além da quase impossibilidade de isso realmente acontecer, por este ou aquele imponderável (o acidente no Mónaco é um desses casos), a verdade é que nunca se esperou que “isto” alguma vez pudesse acontecer na Fórmula 1. Até porque as regras actuais foram feitas justamente com a intenção de o evitar.
A grande diferença entre Michael Schumacher e Ayrton Senna é que Senna julgava-se um Deus, enquanto “Schumi” se limita a ser melhor do que todos os outros e melhor do que alguma vez alguém foi. Só isso. E tanto faz partir à frente como atrás, parar 2, 3 ou 4 vezes para reabastecer, o resultado é sempre o mesmo.
A McLaren bem se esforça e o Raikkonen promete, assim como o Alonso e o Button, mas o que é que se há-de fazer contra esta combinação carro-piloto? Talvez esperar que o homem se canse de ganhar e de bater recordes. Até lá é ir-lhe fazendo companhia nos “outros” lugares do pódio e ouvir os hinos italiano e alemão todos os 15 dias, no final de cada Grande Prémio.

Kroniketas, sempre kontra as tretas e à espera que o Schumacher chegue às 100

domingo, 25 de julho de 2004

Néctares de Baco (3) – Fácil de beber é mau?

Tínhamos ficado a dissertar sobre os fundamentalismos acerca da qualidade dos vinhos de cada região. Afirmei no post anterior que é errado colocar uma região acima das outras só por uma questão de princípio. Existe uma certa corrente que faz crer que os vinhos do Douro são melhores que todos os outros. Sempre ressalvando que é tudo uma questão de gosto, devo dizer que não concordo, porque mesmo nalguns parâmetros objectivos em que o vinho deve ser apreciado, a região do Douro tem sido aquela em que tenho apanhado mais e maiores decepções, por diversas razões.
Não é que eu não me esforce por tentar descobrir em todos os vinhos que bebo alguma qualidade, mas já tive uma sucessão de experiências com vinhos de produtores de nome conceituado que não me deixaram saudades. Não sei o que dizer de abonatório quando um vinho não tem corpo, não tem aroma, não tem acidez e quase não tem sabor, mas é o que me tem acontecido vezes demais com os vinhos do Douro. Não quero com isto dizer que não há vinhos excelentes, mas quanto mais alargo o leque de provas nesta região mais concluo que devo ficar pelos mesmos. Dentro daquilo que considero preços decentes (fixei um patamar nos 15 € e já não é pouco), alguns exemplos de vinhos que nunca me deixaram ficar mal: Messias Reserva, Scarpa (não sei se ainda existe porque não o tenho visto à venda), Quinta do Côtto, Evel ou Vila Régia. Destaco sem dúvida o Duas Quintas e o Sogrape Reserva (branco e tinto), sem dúvida os meus preferidos nesta região (quero deixar aqui este alerta pessoalíssimo: ainda não encontrei um vinho da Sogrape que não fosse bom!). Claro que não estou a pensar em vinhos de 30 ou mais euros, porque com um preço desses qualquer vinho tem que ser excepcional, mas não são esses que fazem o padrão médio duma região. Não se pode tomar como bitola o Barca Velha ou o Reserva Especial Ferreirinha, mas o que está ao alcance da generalidade do comprador que procura um vinho de qualidade mas não quer pagar uma fortuna por 7,5 dl de líquido. Eu, pelo menos, é assim que faço as minhas apreciações, embora alguns supostos entendidos na matéria pareçam esquecer-se deste “pormenor” do preço, como se as pessoas que lêem os guias que eles escrevem fossem comprar ao desbarato! Quem faz guias de vinhos não pode ter em conta apenas o seu próprio gosto, mas considerar que se está a dirigir a pessoas que não têm os mesmos parâmetros de avaliação nem sequer as mesmas possibilidades de provar centenas de vinhos de borla!
Neste sentido, volto ao Alentejo para dizer que, não sendo melhor que as outras regiões, tem maior quantidade de vinhos que, pelo conjunto das suas características, são fáceis de beber e de gostar pela maioria das pessoas. São bem encorpados (enchem a boca), são aromáticos quanto baste, geralmente macios porque têm pouca adstringência e estão prontos para beber pouco tempo depois da colheita. O que é que existe de errado aqui? Nada, na minha opinião. São características que resultam em grande parte do clima, onde as uvas atingem um estado de maturação elevado mais facilmente do que noutras regiões do país e até do estrangeiro. Um exemplo de sucesso no Alentejo são os vinhos da casta francesa Cabernet Sauvignon. Por causa do seu maior amadurecimento devido ao clima, mesmo isolada permite obter vinhos muito mais macios do que em Bordéus, donde é originária e onde tem que ser misturada com a Merlot para amaciar o vinho.
Há contudo quem escreva nos guias e tenha a opinião de que “os vinhos do Alentejo são muito fáceis”, dando a esta opinião uma carga pejorativa. Mas eu digo-vos: se querem um vinho tinto que fique bem com quase todos os tipos de comida e agrade ao mais leigo dos consumidores, o Alentejo quase sempre satisfaz. Por isso se diz também que é a região da moda. Sem prejuízo das marcas mais caras que citei no post anterior, que são de qualidade muito acima da média, há muito mais por onde escolher com resultados satisfatórios a preços razoáveis. Daí a razão de cerca de 1/3 da minha garrafeira ser constituída por vinhos desta região.
Não caiamos, no entanto, no exagero oposto de achar que, por este motivo, só se deve beber vinho alentejano, porque é o único que não arranha ou arranha menos que os outros. Vinho não é groselha, é uma bebida alcoólica e tem que ser apreciado como tal. Por isso há que procurar outras características noutras regiões. Os vinhos do Dão, quanto a mim, são até aqueles que, quando atingem o ponto ideal de envelhecimento, se tornam mais macios sem perderem a acidez. Já partilhei com os comparsas habituais algumas garrafas dos anos 70 e 80 que foram experiências fantásticas de vinhos velhos que mantêm uma elegância incomparável, como não encontrei em mais nenhuma região do país. Ainda recentemente comprovei isso com uma garrafeira de 85 de Dão Messias.
Do outro lado está a Bairrada. São os vinhos mais difíceis porque enquanto novos são muito adstringentes por isso arranham muito na boca. Mas a partir dos 10 anos desenvolvem um conjunto de aromas com uma profundidade e complexidade que não se encontra nos outros. Por vezes quase vale a pena só aspirar o aroma do vinho e deixá-lo ficar no copo. É preciso algum tempo e paciência para aprender a apreciá-los, mas com pratos bem temperados conseguem-se algumas refeições memoráveis. Experimentem um Frei João, que até é barato, com fondue de carne ou bife na pedra e verão se não calha a matar.
Acresce que alguns produtores, como Luís Pato, começaram a fazer os seus vinhos de modo a torná-los mais bebíveis enquanto novos, o que facilita a compra sem nos obrigar a guardar a garrafa 5 ou 10 anos. E convém não esquecer que algumas empresas bairradinas são das mais famosas e antigas no ramo, como as Caves Aliança e as Caves Messias.
Existem agora outros vinhos em clara ascensão e que começam a impor-se, como os da Estremadura e do Ribatejo, que vale a pena descobrir. Durante muito tempo associava-se ao Ribatejo a imagem do vinho carrascão, de garrafão e taberna. Nos últimos anos tudo mudou e ganharam uma elegância que os coloca a par dos melhores. Basta ver a quantidade de marcas que vão aparecendo e que são garantia de qualidade, como Casa Cadaval, Fiúza ou Quinta do Falcão. Na Estremadura também há um nome que para mim é incontornável: Quinta de Pancas, que tem vindo a alargar o seu leque de opções no mercado.
Não esquecer a região de Setúbal, onde se produz a marca de vinho mais antiga de Portugal, o Periquita. Aliás, nesta região – em Azeitão, mais concretamente – estão sedeadas duas das maiores empresas portuguesas de vinhos, J. P. e José Maria da Fonseca. Daqui saem alguns dos vinhos mais conhecidos, como o Quinta de Camarate (branco e tinto), o BSE, o João Pires e o Quinta da Bacalhôa (de que aliás não sou grande apreciador porque considero que tem excesso de aroma a madeira).
Em resumo, o que vale a pena é ir à procura do que existe. Não excluir, à partida, nenhuma região, provar vinhos de todas. Quanto melhor as conhecermos mais hipóteses temos de refinarmos as nossas escolhas e, até, saber que preço é que vale a pena pagar por cada garrafa.
E agora, a questão que fica em suspenso: branco, tinto ou verde?

Kronilketas, sempre kontra as tretas e a escrever ainda sóbrio

sexta-feira, 23 de julho de 2004

Parabéns Fedorentos

... e atrasados, mas sentidos (nunca os perdemos)! Como o Norte, aliás, mas isso agora não vem para o assunto.
Une-nos a gargalhada, que é bem melhor que uma união de fa(c)to, que achamos demasiado formal.
E o Santana. Na verdade, o Santana Lopes é um factor tremendo de união entre os portugueses: ninguém gosta dele e ainda ninguém acredita que ele é primeiro-ministro - só as opiniões se dividem entre uma partida a todo o povo português (ai o humor dos nossos governantes!) e a alucinação colectiva provocada pela Nossa Senhora do Caravaggio (em franca ascensão na fé das mentes simples, até pelas duas sonoras primeiras sílabas, a lembrar outras exclamações vernáculas).
São os digníssimos portanto uma lufada de ar fresco, como na tal anedota, o que até liga bem com o facto de o gato ser fedorento. Muito obrigado.
Bem hajam

tuguinho Fonseca & Kroniketas Meireles, os diletantes preguiçosos

De volta às lides...

(Não, não estou a falar de touros. Não sou de quebrar promessas.)
Estou feliz! Já tenho acentos outra vez e estou de volta à santa terrinha!
É certo que o Santana foi empossado como primeiro-ministro e que até já temos secretárias de estado comutativas, que dominam áreas tão díspares como a defesa e a cultura (será que poderemos assim crer que a Teresa Caeiro vai defender a cultura?)!
Mas temos sempre o futebol (não, os toiros não!) para nos refugiarmos das agruras da vida e ainda não conheço nenhum caso em que o bobo da corte se tenha mantido muito tempo no poder... Haja esperança!

tuguinho, cínico encartado (e ainda um pouco jetlaguisado)

quinta-feira, 22 de julho de 2004

Gato fedorento

Não resisto a citar este artigo do Gato fedorento:
"A SUA DECLARAÇÃO DE IRS, POR FAVOR": Fernando Negrão, ex-director da PJ, é o novo ministro da segurança social. É desta que a direita vai mandar prender os pobres.

blogoberto, chico-esperto

Mantorras detido no aeroporto

Parece que há indícios de falsificação no passaporte do jogador angolano. O que é que o SEF andou a fazer todo este tempo? Andaram a dormir? Ele já cá está há tantos anos, não podiam ter investigado isso antes? É preciso interrogá-lo no aeroporto quando regressa do estágio? Até parece que é um clandestino que chegou agora!
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Na ressaca do Euro 2004: Krónikas Tugas, 2 – Intelectualóides, 0

Este post estava para ser escrito há algum tempo, mas o desfecho do Europeu deixou-me sem ânimo para escrever depois da análise ao jogo da final. Mas falta acrescentar qualquer coisa, agora que a poeira já assentou.
Como sempre acontece nestas ocasiões, quem não gosta de futebol acha que estes eventos ocupam demasiado tempo de antena nos media e demasiada atenção da população. Eduardo Prado Coelho escreveu que as manifestações de entusiasmo pela carreira da Selecção Nacional estavam a atingir as raias da demência. Pacheco Pereira achou que era uma bebedeira de futebol, que tinha uma atenção que não lhe era dedicada em mais nenhum país evoluído (mas nós somos um país evoluído?). Até o José Pedro Gomes, magnífico actor da nossa praça e que tem um espaço nos “Cromos TSF” onde tem apresentado algumas crónicas fenomenais, fez uma crónica a malhar no futebol. Pelos vistos, ele não vai em futebóis (parêntesis para aconselhar que ouçam os Cromos, de 2ª a 6ª feira a seguir às 8h e às 18h, ou o compacto ao sábado a seguir ao noticiário das 12h; ou agora que o programa está de férias procurem-nos nos arquivos do site TSF).
O que eu quero dizer sobre isto é que nós, em Portugal, temos tão poucos motivos para andarmos contentes com o nosso dia-a-dia (vide o artigo que escrevi sobre as Finanças), para nos sentirmos orgulhosos do país que somos e para exibir a nossa bandeira que um acontecimento destes, que nos faz encher o ego, colocar bandeiras nos carros e nas janelas e sair à rua para dar azo à alegria, deve ser aproveitado ao máximo para nos libertarmos das tristezas e exteriorizarmos as pequenas alegrias que, infelizmente, só o futebol, o hóquei em patins ou o atletismo nos dão de vez em quando. Nunca esquecerei uma madrugada de Agosto de 84, em que quase chorei com a corrida fantástica do Carlos Lopes, lá em Los Angeles, a caminho da medalha de ouro e do “record” olímpico na Maratona.
Sempre que se fala em indicadores económicos ou sociais estamos nos primeiros lugares nas coisas más (acidentes nas estradas, doenças cardiovasculares, casos de sida, gravidez de adolescentes, taxas de analfabetismo e de iliteracia, insucesso escolar, défice económico, preços de telefones, electricidade, gasolina e automóveis, etc. etc. etc.) e nos últimos lugares nas coisas boas (salário mínimo e médio, nível de vida e poder de compra, produtividade, regalias sociais, e fico por aqui que já chega).
Então, se estes pequenos sucessos que são os sucessos desportivos nos fazem sentir orgulhosos e felizes, porque não manifestá-lo? Deixem-nos aos menos estar contentes com alguma coisa, mesmo que seja por motivos fúteis. Não é de certeza com o governo que nos vamos alegrar, pois não?
Claro que os intelectualóides da treta, que não entendem estes fenómenos de massas, acham que tudo se resume a alienação e que tudo são manobras para distrair o povo dos verdadeiros problemas. Enganam-se. O povo sabe quais são os problemas que o afligem, e por isso mesmo alegra-se com o que pode. E apesar de pouco evoluídos, já mostrámos que na hora de manifestar a nossa vontade sabemos premiar ou punir aqueles que o merecem. Se houve coisa em que evoluímos foi em maturidade política. Quase sempre o povo português tem votado de forma justa. Essa tese da distracção ou da alienação já deu o que tinha a dar, noutros tempos.
Por outro lado, vi envolvidos neste fenómeno pessoas ligadas às artes, à ciência, à cultura e ao espectáculo, como Rui Veloso, Rui Reininho, Manuel Alegre, António Vitorino de Almeida, António Pedro de Vasconcelos, Eduardo Barroso e até o psiquiatra Carlos Amaral Dias, que não me parecem propriamente alienados ou distraídos dos problemas.
Por isso, aos intelectualóides só peço: deixem-nos andar alegres algum tempo com aquilo que realmente nos diverte. Agora que voltámos à rotina, já passou a alegria.
E já agora: repararam na quantidade de referências que foram feitas ao facto de desde o 1º de Maio de 74 não se ver o povo unido daquela forma? Tirem daí alguns ensinamentos, sim? Pode ser que, afinal, os intelectuais tenham algo a aprender com a populaça. O tempo dos grandes educadores da classe operária, como se intitulava o Arnaldo Matos, já lá vai...
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas

terça-feira, 20 de julho de 2004

1000 visitas

Ena, ena. Hoje é um dia histórico para nós: 1000 visitas desde que colocámos o contador.
Obrigado a vocês que têm paciência para nos ler.
 
tuguinho e Kroniketas, os diletantes preguiçosos (e babosos)

Benfica: assim, sim

Parece que as negociações para a transferência de Tiago do Benfica para o Chelsea foram suspensas porque os ingleses não aceitam a tal cláusula de que eu falava mais abaixo, que permita ao Benfica ser indemnizado se o jogador voltar para outro clube em Portugal.
É estranho, não é? Porque será que o Chelsea não aceita esta cláusula? Será que já se estava a cozinhar alguma negociata com outro clube de azul (com esta cor nunca são de confiar) nas costas do Benfica, e esta exigência veio complicar o arranjinho?
Pelo menos, parece que já começamos a deixar de ser parvos e já usamos as mesmas armas dos outros.
 
blogoberto, chico-esperto

Néctares de Baco (2) – Os fundamentalistas

Depois de um longínquo e isolado artigo sobre uma das nossas paixões na área do lazer, o vinho (ver Néctares de Baco (1) – O preço é só um começo), voltamos agora a este tema aliciante, para vos falar de alguns chavões que por vezes se vão ouvindo por aí.
Ponto assente: eu costumo dizer que as minhas opiniões só me vinculam a mim próprio. Não as tomo como verdades absolutas (não me levo tão a sério a esse ponto), reflectem apenas a minha verdade, os meus gostos, o meu modo de ver o que me rodeia. No caso concreto deste assunto, no entanto, o que aqui fica escrito reflecte a linha geral de pensamento dos autores deste blog.
Outro ponto assente: gostos não se discutem, e cada um faz as suas escolhas segundo os seus próprios parâmetros de avaliação e o seu grau de exigência.
Na compra de um bem, artigo ou serviço, o que é mais importante para mim, ou o factor que eu mais valorizo, é aquilo que vai determinar a minha decisão, e pode ser completamente diferente da pessoa que chega imediatamente antes ou depois de mim. Daí também vai depender o montante que cada um está disposto a gastar na aquisição do bem em causa. Se eu vou jantar a um restaurante com um serviço esmerado, uma ementa variada, uma carta de vinhos extensíssima e empregados de mesa de fato e lacinho, tenho um grau de exigência elevado e estou disposto a pagar por isso. Mas se entrar no McDonald’s ou na Pizza Hut não espero pagar muito por isso.
Vem isto a propósito de uma conversa sobre vinhos que tive no passado sábado, ao jantar com uns amigos. Nisto dos vinhos os critérios são ainda mais subjectivos, porque os parâmetros de avaliação têm sobretudo a ver com uma questão de gosto pessoal. Não é como nos computadores, em que tudo é mensurável em números e nós sabemos o que implica determinada velocidade do processador, capacidade de memória, espaço em disco ou memória da placa gráfica. Mas quando se abre uma garrafa de vinho, para além de não se saber exactamente o que vai sair de lá, a apreciação é individual e ainda por cima condicionada por inúmeros factores externos ao próprio vinho (temperatura do local e do vinho, comida, copos, até a companhia).
Na conversa em causa, um dos convivas citava uma opinião que tinha ouvido (ele já não se lembrava bem de quem, mas era de alguém supostamente bem informado dentro do ramo) acerca dos vinhos alentejanos. A citada opinião referia que “dificilmente o Alentejo poderá ter vinhos verdadeiramente bons, porque lhe falta uma coisa essencial: o solo de xisto”.
Logo à partida esta opinião parte duma premissa falsa. Não há nada escrito em lugar nenhum que diga que os solos onde se cultiva a vinha têm que ser de xisto. Mas o que é curioso é que a afirmação contém em si mesma várias falsidades. Ora vejamos:
1º - O tipo de solo é um dos factores mais variáveis. Existem solos de xisto, basalto, granito, argila (caso da Bairrada), areia (caso de Colares), e todos podem produzir bons vinhos.
2º - Não é sequer verdade que o solo seja o factor mais determinante na qualidade do vinho. Pode moldar as suas características, mas mais importante do que este há outros: o clima e, acima de todos, obviamente, a uva. Portanto, antes de mais nada, a natureza é que manda e qualquer um destes factores da natureza tem mais peso no resultado final do que as características do solo.
3º - Também não é verdade que não haja xisto no Alentejo e isso demonstra-se da forma mais simples possível: com o nome dum vinho do Redondo, produzido pela Roquevale, chamado precisamente “Terras de xisto”. Curiosamente, não me lembro de mais nenhum vinho em que a própria marca faça referência ao xisto.
4º - Depois não se esqueçam que não basta cultivar as uvas. É preciso fazer o vinho e aqui entra o enólogo, para além da tecnologia de que a empresa produtora dispõe. E o papel do enólogo tem cada vez mais importância na definição do estilo de vinho que se quer colocar no mercado.
Mas aquela afirmação ainda poderia ser comentada de outro modo. Ainda no mesmo fim-de-semana, almocei também com um amigo no domingo e abrimos uma garrafa de ½ litro de Touriga Nacional da Herdade do Esporão, de 2000. Contei-lhe a conversa anterior e comentei assim: “quem diz aquilo de certeza que nunca bebeu este vinho”.
De facto, só quem nunca provou algumas preciosidades que há por aí é que pode fazer uma afirmação gratuita como aquela. Experimentem comprar o Garrafeira dos Sócios, da Cooperativa de Reguengos de Monsaraz (CARMIM), o Reserva Sogrape, um dos vinhos monocasta da Herdade do Esporão (Aragonês, Trincadeira, Bastardo, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional, Syrah) ou até mesmo o Quatro castas (preços entre os 10 e 15 €); ou, se não quiserem gastar tanto, experimentem o Reguengos Reserva, o Roquevale de rótulo preto, ou os monocasta da CARMIM ou do João Portugal Ramos (entre os 5 e os 10 €). A seguir venham-me dizer que não prestam, ou que há por aí muito melhor!
Claro que há gostos e gostos. Não vou afirmar que os vinhos do Alentejo são os melhores do mundo ou do país, apesar de serem os que tenho em maior quantidade na minha garrafeira (isso é questão para mais tarde). Mas há bons vinhos em todas as regiões do país, e apreciá-los é não só uma questão de gosto, mas também de cultura e de educar o paladar e o olfacto para se conseguir captar toda a gama de aromas e sabores tão diferenciados que os nossos vinhos apresentam. E olhem que vale a pena.
O que é preciso é não sermos fundamentalistas, porque neste como em muitos outros aspectos o fundamentalismo limita-nos o raciocínio e estreita-nos a vista (neste caso será mais o olfacto e o paladar). No caso dos vinhos, é demasiadamente redutor dizer-se que “os desta região é que são bons”, “os daquela região não prestam” ou “estes são os melhores”. Assim como aquela frase que diz “vinho é tinto, branco é refresco e verde é a cor da garrafa”. Será?
Como o post já vai longo, voltaremos a este tema nos próximos dias.
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas e as ideias fêtas

segunda-feira, 19 de julho de 2004

Benfica: Tiago a caminho de onde?

Ou muito me engano, ou um dia destes o Tiago vai seguir o mesmo caminho do Ricardo Quaresma e vai parar ao Porto. Só espero é que desta vez não esteja toda a gente a dormir e incluam uma cláusula no contrato que impeça o Tiago de vir para outro clube português. O Porto fez assim com o Fernando Couto, pelos vistos o Sporting não fez com o Ricardo Quaresma, como já não tinha feito com o Simão Sabrosa.
 
Será que não aprendem nada com o gajo lá de cima, a não ser os aspectos negativos?
 
blogoberto, chico-esperto

Ladrando ao Universo (23) – Ministério das Finanças: a gatunagem

Aquilo a que se assiste neste momento por parte do Ministério das Finanças em relação aos contribuintes (ou pelo menos em relação àqueles que não têm grandes meios para escapar) é um autêntico assalto à mão armada. A Direcção-Geral dos Impostos vale-se de todos os meios – lícitos ou ilícitos – para sacar dinheiro ao pessoal. É um vale tudo.
Há algumas semanas recebi uma carta a dizer que o meu pedido de isenção de contribuição autárquica ia ser indeferido porque, diziam eles, eu não reunia as condições de isenção visto ter cerca de 2200 € de IVA em dívida. Claro que não tinha, porque a declaração trimestral do IVA, que enviei pela Internet, tinha um valor errado e já depois de a ter enviado, dentro do prazo, enviei uma outra, cerca de duas semanas mais tarde, já com os valores corrigidos, e tratei de entregar ao fisco o valor de IVA que estava nessa segunda declaração. Resta aqui acrescentar que, ao fazer a nova declaração, o próprio sistema assumiu-a como “Declaração de substituição”. O que acontece é que lá nos serviços do IVA, pelos vistos, eles não sabem o que quer dizer substituição e o sistema tinha duas declarações minhas: a primeira por pagar e a segunda paga. Donde, concluíram eles, eu devia-lhes o montante declarado na primeira, apesar de ter pago a segunda que substituiu a primeira!!!
 
Substituição – permuta; troca; muda; transferência; acto ou efeito de substituir
Substituir – comutar; mudar; trocar; revezar; deslocar; sub-rogar; tirar; suprir; equivaler-se (dicionário de sinónimos da Porto Editora); pôr (uma pessoa ou coisa) em lugar de outra; fazer em vez de; fazer as vezes de (dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora – 5ª edição)
 
No sistema do serviço de cobrança do IVA isto não é válido. Pelos vistos na repartição de Finanças também não, porque o funcionário com quem falei disse-me que na declaração de substituição deveria ter posto apenas a diferença de valores entre as duas declarações e pago a primeira, em vez de fazer uma nova!!!
Depois de muito esperar, recebi outra carta a dizer que era credor dos mesmos 2200 € de que antes diziam eu ser devedor, após o que veio mais uma carta a dizer que afinal me foi concedida a isenção de contribuição autárquica, pelo período de 3 anos! Quanta generosidade destes senhores!
Como se não bastasse, ainda me chegaram mais duas cartas (já depois da isenção ter sido concedida) a cobrar a contribuição de 2002 e 2003!!! E pelos módicos valores de 1300 e 1900 €! O que é que se pode dizer perante isto? 1900 € de contribuição autárquica? Vão roubar prá puta que os pariu! Qualquer dia é trabalhar o ano todo só para alimentar esta gatunagem. O que é que pode justificar que se pague quase 400 contos por ano por ter um apartamento? Já não bastaram os 800 contos de sisa que lá ficaram?
Agora chegou mais uma: enquanto espero pelo reembolso do IRS de 2003, que deverá andar por mais de 600 contos (cálculos feitos pelo programa de simulação das Finanças), vêm-me notificar para fazer um pagamento por conta no valor de 400 €. Isto porque no ano anterior tivemos que pagar cerca de 40 contos. Vai daí, eles querem 80!
Mas não é tudo: a minha mãe recebeu uma demonstração de juros compensatórios, em que supostamente deverá pagar 1913 € por ter entregue a declaração relativa a 2000 quatro dias fora do prazo. Baseiam-se num valor de 10.000 € ao qual aplicam uma taxa de 7% durante 3 anos e mais 4% durante um ano. Esta dívida deverá ser abatida no reembolso de IRS a receber, que é muito inferior a este montante. E agora pergunto: com que direito vêm estes senhores cobrar uma coisa destas 4 anos depois, com uma taxa e um valor saídos não se sabe donde, por um valor de quase 400 contos? Não deveriam ter cobrado a multa na altura? Então quanto mais anos passarem melhor para eles, porque mais juros aplicam! E que eu saiba a multa por atraso na entrega da declaração são cerca de 25 €. É a gatunagem descarada!
Porque é que não vão chatear aqueles que não pagam? Se calhar porque é mais fácil roubar os pequenos, aqueles que não devem nada. Aí é aplicar as taxas que lhes der na gana e ameaçar que se não pagarmos descontam noutra coisa qualquer.
Não há dúvida que neste país, com este sistema fiscal, o que dá mesmo é ser aldrabão e enganá-los o máximo que for possível.
Será que tudo isto é para pagar os 5 mil contos de ordenado que o chulo que lá puseram está a ganhar? 
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas e furioso com os gatunos das Finanças

domingo, 18 de julho de 2004

Olha mais um para pores os acentos...

E os bons acentos/assentos sao como os bons conselhos: devem seguir-se!
 
tuguinho, cinico estafado (ontem houve festa até tarde...)

As palavras são como as cadeiras: devemos saber onde pomos os acentos

Como já devem ter reparado, há aqui uma alteração aos textos que o meu colega do lado enviou lá dos States. Parece que eles lá não sabem o que é a acentuação das palavras, por isso não têm estes caracteres no teclado.
 
Mas para não nos deixar ficar mal, dei-me ao trabalho de rever os textos e corrigi o que era necessário. Por isso, apesar das referências à falta de acentos nos dois posts anteriores, a partir da 1 da manhã deste dia o texto que aparece já tem os acentos nos sítios certos. Porque lá dizia o Fernando Pessa: as palavras são como as cadeiras - devemos sempre saber onde pomos os acentos/assentos. E apesar dos assassínios de que é vítima todos os dias, nós aqui continuamos a pugnar pela pureza da língua portuguesa. Até porque já outro Fernando (o Pessoa) dizia: a nossa pátria é a língua portuguesa.
 
Kroniketas, sempre kontra as tretas

sábado, 17 de julho de 2004

...And now for something completely different!

Já conheço a constituição do governo... Fez-me lembrar os elencos daqueles espectáculos de província, do tipo "Vasco Narciso e o seu Órgão Maravilhoso, dia 17 de Agosto, na Festa do Emigrante em Sarrabulhos Fundos!". Vamos de mal a pior, mas é melhor não entrarmos em depressão - mais vale rirmo-nos. Rirmo-nos muito (eu já comecei).
 
tuguinho, cínico sem acentos (ainda e por mais alguns dias)

sexta-feira, 16 de julho de 2004

Tuga exportado (mas por pouco tempo)

Directamente de Atlanta, sem acentos mas com planta - Olá Tugalândia! Apenas um breve post só para dizer que não emigrei por causa do Santana, só estou aqui em serviço e volto em breve. Nos entretantos o Kroniketas vai tomando conta da loja. Neste momento ainda não sei a constituição do novo governo, nem quero saber para já porque fica mal ter um ataque de riso ao pé dos colegas... É quando venho a estes sítios longínquos e para lá de onde o Judas perdeu as botas, que realmente constato que, verdadeiramente, só 2 ou 3 por cento do planeta é realmente habitável - nos outros 90 e tal por cento só se sobrevive a custo. Mas vá lá que desta vez, apesar do calor, não tem estado muita humidade e até se suporta. Presumo que deverá ser uma anomalia para o clima que normalmente por aqui faz. Subscrevendo-se atenciosamente,  
 
tuguinho, cínico encartado (e com sorte por não ter neste texto de escrever cagado!)

quarta-feira, 14 de julho de 2004

Durão Barroso em francês

Ontem vi na televisão o ex-primeiro-ministro a responder a algumas perguntas na comissão europeia em francês. E gostei. Gostei da pronúncia e do desembaraço.

Independentemente do resto, se há coisa em que os nossos políticos não nos deixam ficar mal (Mário Soares à parte) é na expressão de outras línguas. Já tinha visto Jorge Sampaio e António Guterres também a falar inglês e francês e, pelo menos a esse nível, não nos envergonhamos.

Kroniketas, sempre kontra as tretas

segunda-feira, 12 de julho de 2004

Argumentos falaciosos

A propósito do post que escrevi mais abaixo, “Eu votei em Jorge Sampaio e agora sinto-me traído”, recebi dois comentários engraçados que me fazem voltar à carga, porque a minha resposta ao primeiro comentário não foi suficiente.
O primeiro leitor, no seu comentário, diz que eu sou mesmo TUGA e pergunta se eu acho que Jorge Sampaio “devia ter feito um jeitinho aos colegas de partido em vez de cumprir a lei e a Constituição”, ao que eu respondi que ele devia ter feito um jeitinho aos portugueses e deixá-los dizer o que querem. E retorqui perguntando onde é que a Constituição diz isso, qual é o artigo que diz que o PR não pode convocar eleições.
Este argumento do nosso leitor é falacioso. Se Jorge Sampaio tivesse convocado eleições estaria a cumprir a lei e a Constituição, tal como o fez tomando a decisão que tomou. Aliás, foram os especialistas em Direito Constitucional que o disseram (nomeadamente Pedro Bacelar de Vasconcelos), não fui eu. Até porque se o PR não pudesse convocar eleições, não valia a pena estar a perder duas semanas a ouvir pessoas antes de decidir o que iria fazer.
Mais engraçado foi o comentário que o segundo leitor (anónimo) fez ao meu comentário. Pergunta-me ele onde é que a Constituição diz o contrário!!! Não sei se isto é desconversar ou misturar alhos com bugalhos, mas mais uma vez o argumento é falacioso. Dizer o contrário era o quê? Que o Presidente era obrigado a convocar eleições? Mas alguém o referiu? Se alguém acha que convocar eleições é violar a Constituição digam-me qual é o artigo onde isso está escrito, mas argumentar que a Constituição não diz o contrário não só não acrescenta nada à discussão como ainda a deturpa: ninguém usou o argumento da violação da Constituição para obrigar o PR a convocar eleições; os partidários da manutenção do governo é que invocaram essa tese (falsa, como facilmente se comprova).
Portanto, o que está aqui em causa é uma questão de opinião política e não de legitimidade constitucional, porque essa permitia ao PR tomar a decisão que tomou ou tomar a inversa. Por isso insisto no comentário que fiz: um hipotético artigo que impeça Jorge Sampaio de convocar eleições só deve existir na imaginação de alguns.
Sabem, é que nós, aqui nas Kronikas, podemos ser TUGAS e politicamente incorrectos, mas não somos mentirosos. Não gostamos (não gostamos mesmo NADA) de argumentar com base em pressupostos falsos.

Kroniketas, sempre kontra as tretas

domingo, 11 de julho de 2004

Defesa do consumidor

Defende os teus direitos! Subscreve a petição a ser entregue à DECO:
"Pagámos cherne e dão-nos carapau de corrida"

blogoberto, chico-esperto

sábado, 10 de julho de 2004

Eu votei em Jorge Sampaio

E agora sinto-me traído

Kroniketas, sempre kontra as tretas

Crime e Castigo

Entrámos definitivamente no período cómico-patético da nossa história.
Já aqui tinha dito que pensava ser melhor para o país haver eleições antecipadas.
Já aqui tinha dito que até poderia aceitar que não houvesse eleições, se um nome credível fosse proposto ao Presidente da República.
Já aqui disse que Santana Lopes não é credível.
Nunca disse aqui que o Sampaio é um coninhas, mas é. Os meninos não ficam na História por comer a papa toda. Para ficar na História há que ousar, que arriscar. Voos tão altos como a barriga de um crocodilo não colocam ninguém no mapa das altas considerações.
Tudo isto nos apanhou após um isolamento de três horas para meditação no interior do Restaurante XL, num debate arriscado com um bife diluído em duas garrafas de Trincadeira da Casa Cadaval (calma, que éramos quatro! O senhor aí atrás que nos chamou alcoólicos pode sair, por favor). Ou seja, depois do paraíso vimo-nos caídos no duro inferno da realidade.
E o mais cómico de tudo isto é que esta situação em que estamos seria apenas uma anedota se fosse contada há um mês atrás! Não sei se estão a apanhar o ridículo da situação.
A única coisa boa disto tudo (há sempre um lado positivo mesmo na mais absoluta das adversidades) é que o Ferro Rodrigues se demitiu! Haja uma boa notícia no meio deste turbilhão de alarvidades.
Em suma: o Sampaio cometeu o crime de aceitar Santana como primeiro-ministro, mas nós é que vamos pagar o castigo por ele estar à frente do governo…

tuguinho, cínico encartado (e a pensar seriamente em emigrar pela primeira vez...)

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Vale e Azevedo em liberdade

Então libertaram o Vale e Azevedo? Olha que pena.
E ainda vai ter que pagar uma caução de 50 mil contos? Isso para ele são trocos. Com o que gamou no Benfica dava para pagar várias liberdades condicionais...

blogoberto, chico-esperto

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Chora no meu blogombro Especial: Exclusivo Krónikas - A Tomada de Posse vista por Mónica Galho

Foi o má-xi-mo! Olá ricas! Olá quiduxos! Desculpem-me a excitação (eu ouvi, malandreco, não estou a falar dessa excitação!) mas ainda nem estou em mim. Não é que fui convidada para a posse do novo governo? Eu ainda acho que foi um erro na meilingue liste da discoteca onde o acto decorreu. Ou então foi o Kokas, meu antigo namorado, e que trabalha há dez anos a lavar copos nessa mesma discoteca, que meteu alguma cunha por mim. Ainda bem que não acreditei quando ele me disse que o futuro dele ia ser luminoso – só se for do brilho do superpop limão nos copitos… Mas adiante.
A decoração estava des-lum-bro-sa! Era toda à base de bandeirinhas recicladas dos países que vieram ao Europeu, à mistura com restos de cartazes que anunciavam obras que nunca foram feitas na cidade de Lisboa. No centro estava um grupo de músicos que executava afanosamente os concertos de Chopin para violino. Tenho de dizer ao Adolfito para comprar o CD!
E quem foi que a rica lá viu, quem foi? Além dos habituais que estamos fartas de ver nas revistas e dos políticos que se pelam por uísque de graça e são iguais aos outros que vêm nas revistas, fiquei admiradérrima com a quantidade e-nor-me de representantes de casas reais que lá estava: ele era o Rei dos Frangos, a tentar cobrar uma dívida do tempo da Figueira, ele era o Rei das Farturas, curioso por saber onde vai ficar a feira popular, ele era o Princípe das Bolas de Berlim que por uma vez deixou as areias da Caparica. Só não vi por lá o Rei dos Amendoins – disseram-me depois que ficara arruinado porque lhe tinham roubado a alcofa com a mercadoria. A vida é assim, num minuto somos reis, no outro não somos nada…
Os ministros foram empossados (é assim ou com ç?) ao som do uí ar da champions, dos Cuím. A Cinha, ao tomar posse (é assim ou com ç?), escreveu mal o nome por 3 vezes e se não era o Portas ter uma borracha de tinta com ele, não sei se o governo tinha entrado em funções! Por falar em Portas, ia muito elegante no vestido de lantejoulas mas as argolas à cigana não lhe ficavam bem. Mas antes assim do que gramar com os tálhoures da Ferreira Leite! E o Paulo sempre tem melhor cara.
De quem não gostei nada foi do ministro do desporto, o Pinto da Costa – não achei nada bem que os secretários de estado dele lhe tivessem de beijar a mão. Só tinha visto fazerem isso ao Papa e àquele artista que morreu agora, o Marlon Brando, e não consigo perceber porquê!
Depois da estopada das assinaturas acabar é que foi giro, com o Pedrito a dançar breicdance e o governo todo à volta a aplaudi-lo. É escusado será dizer que acabou tudo bêbado e que a noite terminou por volta das 8 da manhã no Cacau da Ribeira.
Querem saber, minhas queridas? Gostei! E até já consegui arranjar um convite para o próximo conselho de ministros! Desta vez vou levar o Adolfo – pode ser que singre na política já que não lhe vejo jeitinho para fazer mais nada.

Mónica Galho – cronista da sóçaite e consultora sentimental

terça-feira, 6 de julho de 2004

“Atentado ao futebol” ou “Um Campeão aberrante” ou “Os deuses estão loucos”

Qualquer um destes títulos, e muitos outros mais, serviriam para esta crónica, tal é a diversidade de adjectivos possíveis para classificar o desfecho deste Campeonato da Europa.
Mas eu já tinha avisado algumas pessoas (não o escrevi aqui por total falta de tempo, mas aqui o meu colega do lado sabe disso porque eu lho disse), porque depois de ter ido ao Porto na 5ª feira ver a meia-final entre a República Checa – para mim a melhor equipa do torneio – e esta mesma Grécia, previ que isto pudesse acontecer. Aquele jogo deu-me a fotografia do que poderia ser a final, e nunca partilhei do optimismo de quem achava que o título estava no papo, que ia ser a vingança com os gregos, ou a vitória mais fácil de todos os jogos, e até havia quem falasse em goleada. Eu não confundo pensamento positivo, esperança ou mesmo optimismo com irrealismo, e quem pensava assim estava a ver o filme completamente ao contrário. Só há duas explicações para isso: ou um total irrealismo ou então quem o disse não percebe patavina do que se passa dentro do campo.
De facto, só dois cenários eram possíveis: ou marcávamos cedo e isso obrigaria os gregos a abrir e aí sim, a vitória poderia ser facilitada ou, o que eu temia, iam ser 90 minutos a bater no muro e os gregos à espera de um golo caído do céu, tal e qual como contra os checos. Infelizmente foi isso que aconteceu.
Mas eu também tinha dito que preferia os checos na final, por duas razões: porque se perdêssemos, perdíamos com a melhor equipa do torneio, o que não é nada desprestigiante, e se ganhássemos era em glória, pelo mesmo motivo. De qualquer modo, seria um espectáculo, com duas equipas de ataque. Com os gregos, seria um jogo chatíssimo, como foi a meia-final, se ganhássemos não fazíamos nenhuma proeza e perdendo era uma vergonha. Não uma vergonha por nós, mas uma vergonha para o futebol.
Depois do desfecho, mantenho a ideia que já antes tinha da Grécia: não joga nem deixa jogar. Tal como o Tuguinho escreveu ali em baixo, ganhou o anti-futebol, mas eu vou ser mais incisivo: foi um crime de lesa-futebol uma equipa destas ganhar o campeonato. Eles pura e simplesmente não jogam futebol e, para mim, é uma completa aberração que uma equipa assim, que só destrói, vá ostentar durante 4 anos o título de Campeã da Europa. É um nome que lhes fica bastante mal, porque não fizeram, em nenhum jogo do torneio, NADA que justificasse ganhar fosse o que fosse, nem sequer passar à segunda fase. Foram ganhando jogos sem saber ler nem escrever. Na final, um canto, uma cabeçada, um golo, e por aí se ficaram.
Agora dizem-me: mas os golos é que contam e fazem os resultados, e eles ganharam à Espanha, França, República Checa e a nós duas vezes. É a eficácia, e só. Mas com vitórias destas, o futebol retrocedeu 40 anos: eles foram desenterrar o “catenaccio” que os italianos tinham inventado na década de 60. Se é esta a fórmula para se ganhar campeonatos daqui em diante, vou deixar de ver a bola. Pensava que já ninguém jogava assim. E de facto, ninguém joga. Porque eles jogar é coisa que não fazem.
Qualquer equipa de segundo plano joga mais futebol do que este caricato campeão europeu. Suécia, Dinamarca, Holanda, Espanha, Itália, França, Croácia, até a própria Suíça, uns mais e outros menos, mas todos fizeram alguma coisa para jogar futebol. A Grécia será, seguramente, uma das equipas que menos jogou neste campeonato e em toda a história do futebol, em campeonatos do Mundo e da Europa. Eu já vejo estes torneios desde 1974 e apenas uma vez uma equipa tão anti-futebol esteve perto de ganhar um campeonato: foi a Argentina no Mundial de 1990. Foram eliminando adversários nos “penalties” e também com um jogo ultra-defensivo. Na final com a Alemanha estiveram quase a levar o jogo para prolongamento, mas felizmente uma intervenção oportuna do árbitro a 5 minutos do fim inventou um “penalty” que deu a vitória à Alemanha. Mas foi melhor assim do que se tivesse havido um campeão aberrante como este.
O que mais me enraivece não é ter perdido, mas ter perdido assim. Razão tinha eu para querer os checos. Ao menos, se perdêssemos, era contra uma equipa de classe.
Mas nestas coisas é preciso também uma pontinha de sorte, e esta não quis nada connosco nem com os checos. De facto, os deuses do Olimpo enlouqueceram completamente.
Resta-nos o consolo, para além de ficarmos em 2º lugar, de termos sido os campeões das restantes 15 equipas, aquelas que quiseram jogar e dignificar o futebol. De resto, não foi só Portugal que perdeu: todos perdemos, perdeu o futebol em toda a linha.
Depois disto, estou como o Tuguinho: vamos ver se se qualificam para o Mundial. Espero que os futuros adversários encontrem o antídoto que varra do panorama futebolístico mundial um concorrente tão negativo. Até porque eles não têm nada para mostrar ao mundo. Nos futuros arquivos do campeonato da Europa, quando o nome da Grécia lá aparecer, alguém se vai lembrar de algum facto de relevo desta equipa? De algum jogador? De alguma característica, a não ser o anti-futebol?
Todos os vencedores, e muitas vezes os vencidos, deixaram a sua marca para a história. A Hungria de 54 perdeu a final do Mundial com a Alemanha mas tinha-a goleado por 8-3 na primeira fase. Era a melhor equipa do mundo na época. O Brasil de 58 mostrou um jovem de 17 anos de nome Pelé, com Garrincha, Didi, Vavá. A Inglaterra de 66 tinha Bobby Charlton, Bobby Moore, Gordon Banks. O Brasil de 70 foi das melhores equipas de sempre em todo o mundo, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto. Diz-se também que foi o melhor campeonato de sempre. Em 74, ganhou a Alemanha de Beckenbauer, Maier, Breitner, Hoeness e o “bombardeiro” Müller, e perdeu a “laranja mecânica” de Cruijff, Neeskens, Rep, Krol. Perdeu mas nunca mais ninguém se esqueceu dessa Holanda, que voltou a perder em 78 na Argentina, já sem o seu mítico número 14. E quem não se lembra do Brasil em 82, com Zico, Sócrates e Falcão, que foi posto fora de prova pela Itália de Paolo Rossi (que marcou os 3 golos nesse jogo memorável), Conti, Tardelli, Cabrini, Gentile, Scrirea e Zoff, que seria a campeã? E em 86 a Argentina de Maradona e a sua mão de Deus? Do Europeu de 92 todos se lembram da Dinamarca de Brian Laudrup, que interrompeu as férias para ser campeã da Europa. Em 88 foi o ressurgir da grande Holanda, com o famoso trio Gullit, Van Basten e Rijkaard e o não menos famoso Ronald Koeman, outra equipa para a história que resgatou as derrotas de 74 e 78. Em 84 foi a geração de Platini, Giresse, Tigana, Fernandez e Bossis que deu à França o título europeu, para em 98 e 2000 serem Zidane, Thierry Henry, Desailly, Deschamps e companhia a dar um duplo título mundial e europeu aos franceses. Poderia continuar por aqui fora a evocar equipas que ficaram na História, sem esquecer os portugueses em 66 com Eusébio, em 84 com Chalana ou em 2000 com Figo, Rui Costa e João Pinto.
E agora pergunto: desta Grécia, qualquer dia, alguém se vai lembrar de quê?

Kroniketas, sempre kontra as tretas e o anti-futebol

domingo, 4 de julho de 2004

Pois é, lá ganhou o anti-futebol...

Juro que não é dor de cotovelo. A verdade é que o vencedor deste campeonato europeu é injusto! A Grécia ganhou a Portugal como ganhou à Rep. Checa: não fazendo quase nada para ganhar e acabando por marcar um golo na sequência de um canto... tal como tinha acontecido com a Espanha, tal como acontecera com a França... Convenhamos que é pouco para um campeão europeu. Aposto convosco que a Grécia nem para o próximo Mundial se vai apurar. Não me custaria nada perder com a Rep. Checa, ou com a Inglaterra, ou mesmo com a Holanda. Custa-me perder com quem jogou um futebol super-defensivo durante todo o campeonato. Pois é, lá ganhou o futebolzinho, só que desta vez nem era o nosso porque nós já nos deixámos disso.
Fica para a próxima.

tuguinho, cínico vencido (mas de forma nenhuma convencido)

sábado, 3 de julho de 2004

Para definitivamente vermos a Luz

Toda a Tugalândia está em festa! Portugal está na final do Europeu, o Durão fugiu para Bruxelas e, se Deus existir, Santana Lopes continuará a só poder cavar buracos no concelho de Lisboa.
Nestes tempos de euforia e mudança, em que tudo parece acontecer à velocidade da luz (que como sabemos só é ultrapassada pela velocidade do boato), convém arrastarmo-nos para fora de cena para olharmos desassombradamente o desenrolar da trama. Só assim nitidamente se poderá discernir a escondida transitoriedade de quase tudo o que parece importante.
É, por exemplo, mais importante uma vitória no Europeu de futebol do que a ida de Durão Barroso para Bruxelas, para um cargo em que ser tuga ou inuit tem para Portugal exactamente a mesma influência. Acreditem que é! O facto de Durão ser presidente da comissão não vai arrastar hordas de turistas ao nosso país, mas o Europeu de certeza que terá uma influência real e positiva nessa área. Além do que já fez pelo nosso amor-próprio (auto-estima é coisa para depressivos) e pelos fabricantes chineses de bandeiras, este campeonato foi muito mais além do contabilizável: deu-nos confiança – para andar para a frente, para escolher a competência e eliminar pústulas paleolíticas como o Torres e o Jardim da pele da nação. As pessoas estão fartas de mediocridade e a selecção de futebol fez-nos ver que é possível. Basta querer.
Ser tuga é ser contraditório e nessa mesma contradição encontrar as razões para existir como tal. Não é ser medíocre – esse é o lado malsão da aventura de ser tuga. Não é a inevitabilidade.
E depois existem aquelas coisas que de tão naturais só nos merecem a leitura do título, que surgem com a inexorabilidade da existência e cuja importância não é legível pelo olhar desatento: faleceu Sophia de Mello Breyner Andresen. Não marcou golos, não foi para Bruxelas, mas creiam que, quando todos nós formos apenas dados estatísticos, o nome dela ainda andará por cá. Cantou o mar, a liberdade por que lutou e principalmente a luz – aquela luz cálida que só existe numa parede caiada de branco e que encerra toda a verdade do mundo. Até sempre.

Cal

Lutar por mares diferentes
não foi sina – foi das escolhas
a que a liberdade prefere;
Porque antes a espuma branca
sem limites, que o pedestal
dourado que só cerceia.

É por lutar por mares só desses
que o mundo em si se encanta
e se eleva da luz a cor de ti,
mediterraneamente branca…

(poema gentilmente cedido pel’A Esfinge na Face)

tuguinho, cínico encartado (esperando também que amanhã, na Luz, haja Luz)

quinta-feira, 1 de julho de 2004

Ladrando ao Sol (22) - Avelino outra vez

O cacique arruaceiro voltou a atacar. Depois de conhecer a sentença que o condenou a prisão com pena suspensa e perda de mandato, o (ainda) presidente da Câmara de Marco de Canavezes disse que “a sentença é uma merda”, que ninguém o tira da Câmara e que vai concorrer à Câmara de Amarante.
Pergunto: não será altura de calarem este indivíduo? Como todos os mafiosos, ele pensa que está acima da lei? Pode dizer e fazer o que lhe apetece que ninguém lhe toca? Quando é que nos veremos livres deste tipo de escroque, que é o representante do grau mais reles da política e da sociedade?

Kroniketas, sempre kontra as tretas e a escumalha