domingo, 7 de novembro de 2004

A cidade eterna

Ladrando à Lua (26)
Não sei se já repararam, mas nos últimos anos têm surgido em Lisboa várias pústulas que demoram imenso a curar – umas foram provocadas por incúria, outras por gabarolice. O grande problema é que essas feridas na cidade vão provocando mazelas irreversíveis na urbe e em quem ainda lá mora. É sintomático que num inquérito apresentado hoje no Expresso, em que se questionaram as pessoas sobre o melhor local para morar, apenas uma muito baixa percentagem escolheu o centro da cidade.
Há quanto tempo se arrastam as obras do metro no Terreiro do Paço? Já nem me lembro como era o cais das colunas – há anos que só lá vejo uma lagoa fétida. O Metro é necessário? Pois é, mas quem escolheu o método mais arriscado na operação que provocou a inundação do túnel devia ser responsabilizado.
Lisboa dá-se mal com os túneis: o do Metro meteu água, o do Rossio meteu água e do Marquês também, embora figuradamente.
Agora vamos ter o túnel do Rossio fechado durante ano e meio. Não se discute a justeza dos prazos e a necessidade das obras, discute-se antes o que não foi feito durante décadas para se chegar a esta triste situação. Devia explicar-se à CP/Refer/Governo que a palavra manutenção tem outros significados além do relacionado com as classificações desportivas… Ou talvez fosse uma cabala involuntária dos terrenos sobre o túnel. Se calhar também houve pressões!
Quanto ao túnel do Marquês, estamos falados. Este é um problema que só existe porque um certo presidente de câmara que empurraram para primeiro-ministro queria deixar obra que marcasse, já que nunca na vida o tinha feito. Mas mais uma vez deixou por acabar o que começou, pela leviandade e negligência (e pressa, claro) com que o processo foi tratado. Mas é uma obra que está a marcar, e muito, milhares de portugueses, e nem foi preciso acabá-la (olha, outra vez a tal coisa involuntária)!
Mas há mais! Parece que o caneiro de Alcântara – lembram-se? Foi aquele que engoliu o autocarro no ano passado – está em risco iminente de colapso. O relatório sobre o seu estado foi entregue no início do ano, o processo arrastou-se (mas há alguma coisa que não se arraste por gabinetes e comissões, neste país?) e agora parece que obras só depois de passar a época das chuvas... O pior é se ao caneiro lhe apetece desmoronar-se antes dos consertos – é coisa de pouca monta: só ficaríamos, possivelmente, com a Avenida de Ceuta e o comboio da ponte cortados. Isso não é nada para quem já suporta os incómodos nos cais do Terreiro do Paço, o metro apinhado porque não há comboio até ao Rossio ou os engarrafamentos nas Amoreiras. Um cortezito de meses numa avenida que para pouco serve (é só um acesso e uma saída da ponte, entre outras coisitas de somenos) ou num comboio que só torna a vida mais fácil a quem vive do outro lado do rio, não é nada! Estas coisas até dão um certo sal à existência.
É muito difícil prever quando se verá luz ao fundo destes túneis em que nos meteram. Pois é, Lisboa dá-se mal com os túneis. Por isso esperemos que essa luz, quando aparecer, não seja apenas a do farol de um comboio...

tuguinho, cínico alfacinha