terça-feira, 16 de novembro de 2004

Graça com Todos

O leitor mais boçal, que começou lançado a ler este post já a antecipar o gozo de um texto a puxar ao malandreco e desejoso de saber quem era a tal Graça, pode retirar os pequenos equídeos da actividade pluviométrica. Esta peça vai falar sobre o humor e alguns dos seus intérpretes em Portugal. Não estando interessado, vá a www.persiankitty.com e pode ser que lá encontre a Graça que procura. Adiante.
Este blog foi em peso ver os Gato Fedorento ao Tivoli. Embora não sejam actores, eles estão a ser uma lufada de ar fresco no panorama nacional (onde é que eu já ouvi isto?) e desembrulharam-se bem das armadilhas da actuação em directo (isto é deformação televisiva), conseguindo uma prestação de bom nível (agora pareço um comentador de futebol… isto está bonito, está). É que desde que o Herman apareceu em força, lá pelos idos de 1983 (não estou a considerar o que fez antes disso), que não havia uma sacudidela no nosso meio humorístico, já de si tão avaro em talentos. E o que tinha surgido na área desde então fora pela mão do próprio Herman, ou promovido por ele. Isso e tudo o que de bom fez lhe devemos e o que vou escrever a seguir em nada diminui o que realizou. Mas, embora me custe muito como fan de primeira hora, o Herman já há uns tempos que deixou de ter graça…
Não sei se foi falência criativa ou somente preguiça, aburguesamento (sem conotações políticas, please). O que é certo é que, onde a graça era subversivamente brejeira, passou a ser objectivamente grosseira. Onde se via um trabalho de criação de bonecos imaginativo, passou a estar uma displicência rotineira, um abastardamento que atingiu até personagens anteriores memoráveis, como o fabuloso Diácono Remédios! E o delicioso caos que certos sketches transportavam, do Nélito de boa memória ao inolvidável sketch dos Caixões Paticho, perdeu-se também na teia de bom comportamento que as amizades e os conhecimentos sociais geraram. Domesticou-se.
O que faríamos nós se estivéssemos na situação dele, com posição (que conquistou) e com dinheiro (que mereceu)? Provavelmente o mesmo. Descansaríamos. Mas isso não invalida a nossa premissa: o Herman deixou de ter graça! O Santana Lopes consegue ser mais engraçado (involuntariamenre, mas é) e o ministro das pressões, o Gomes da Silva, teria êxito em qualquer lado com aquele sketch da porta que não se abria quando tentou fugir após a conferência de imprensa! E isto é triste, quando amadores ultrapassam os profissionais.
Vejam “O Quintal dos Ranhosos” e anotem quantas gargalhadas deram. Um aviso: não vão precisar do lápis. Graça tem o “Tal Canal”, que está a ser reposto no Canal Memória! Graça tinha quando não estava açaimado por Lilis Caneças e políticos e senhores doutores, e podia morder em quem lhe apetecesse! E destruir cenários com uma caçadeira!
Não estamos aqui a esculpir nenhum epitáfio! Ainda acredito que do rame-rame do programa que anda a fazer há quase dez anos surja uma faísca que lhe incendeie a verve. Basta que queira e não tenha medo de ofender este ou aquele.
É que os Gato Fedorento são bons – e outros há por aí, actores ou simplesmente comediantes, de bom nível –, mas um Herman José fará sempre muita falta!
Graça, volta que estás “aperdoada”!

tuguinho, cínico enfastiado