sexta-feira, 26 de novembro de 2004

As palavras dos outros

“Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?”
E, já agora: recebeu a Carta de Direitos Fundamentais? Conhece a regra das votações por maioria qualificada? Faz a mínima ideia do que é o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa? Ah, não sabia que já havia uma Constituição para a Europa?
Concorda com a pergunta, cozinhada pelo “centrão” político que, em nome dos portugueses que não foram tidos nem achados, aderiu à Comunidade Económica Europeia, ratificou a união económica e monetária, instaurou a União Europeia, subscreveu o Acordo de Schengen, adoptou o Pacto de Estabilidade e Crescimento, criou a moeda única, assinou uma Constituição? Considera normal e democrático que, até hoje, jamais tenha sido consultado sobre qualquer uma destas decisões?
Diga lá, já que estamos em maré de perguntas e respostas: já ouviu falar de uma Carta Europeia dos Direitos Sociais e da coesão europeia? Sabe que, 18 anos após a adesão à Europa, Portugal é o primeiro dos 25 em analfabetismo, abandono escolar e formação com o ensino secundário e o penúltimo no número de licenciados? Que é dos países mais caros da Europa, com o salário mínimo mais baixo e com um poder de compra de 75 por cento da média europeia, com maior desigualdade entre ricos e pobres e maior taxa de população em risco de pobreza? Que é dos países com população mais endividada, o terceiro estado mais corrupto da União e que, segundo The Economist, bateria toda a concorrência se existisse um índice europeu para a vaidade? Viu passar os fundos estruturais destinados a aproximar Portugal da Europa? E então? Considera-se europeu? De primeira?

João Paulo Guerra, "Diário Económico", 22-11-04