domingo, 28 de novembro de 2004

Benfica - Um jogo inqualificável

Finalmente o Benfica foi afastado do primeiro lugar do campeonato, onde se aguentava há várias semanas de forma periclitante. A fraca produção futebolística da equipa nos últimos jogos, próxima do zero, tornava inevitável este desfecho, era apenas uma questão de tempo.
Hoje, em Leiria, atingiu-se o ponto mais baixo de uma época que começou logo da pior forma, com uma derrota com o Porto na Supertaça (num jogo em que o Benfica até foi superior e merecia ter ganho) logo seguida por uma eliminação humilhante frente ao Anderlecht na pré-eliminatória da Liga dos Campeões, com derrota por 3-0. Anderlecht que tem sido o bombo da festa no seu grupo, só com derrotas. O que me leva a fazer esta pergunta ingénua: então se nós fomos eliminados por eles de forma tão clara, o que é que estaríamos lá a fazer se tivéssemos passado? Para fazer figuras tristes e levar 3 cada vez que jogamos fora, prefiro não estar lá.
As primeiras jornadas do campeonato, com três vitórias seguidas, em que chegámos a ter 6 pontos a mais que o Porto, ainda criaram a ilusão de que seria possível continuar na senda vitoriosa e embalar até ao título de campeão. Mas como eu ando a dizer há muito tempo, desta equipa nunca se sabe o que se pode esperar, porque em qualquer momento podem borrar a pintura, e pode sempre ser no jogo seguinte, seja com que adversário for. O primeiro sinal foi dado na 4ª jornada, num empate a zero em casa com o Sp. Braga, onde a equipa revelou já uma total incapacidade para marcar um golo que fosse. A partir da derrota com o Porto começou a descida exibicional, e mesmo as últimas vitórias foram de aflitos, sem que a equipa exibisse um futebol convincente. Até que, sem que a categoria dos adversários sequer o justificasse, começaram os empates arrancados a ferros, como foi o do Gil Vicente (último classificado) no último minuto, já depois de o Porto ter cedido um empate na Madeira frente ao Nacional, o que nos dava a grande hipótese de nos distanciarmos.
Os 4-0 ao V. Setúbal apenas mascararam o que era por demais evidente, e nos últimos 3 jogos fomos completamente dominados pelos adversários, que exibiram sempre melhor futebol. Não posso conceber que uma equipa que paga ordenados de 10 e 20 mil contos leve um banho de futebol do Rio Ave, em casa, estando a ganhar e com o primeiro lugar à vista, e acabe o jogo em aflição a defender o empate.
Entretanto vamos sendo embalados por aquela conversa habitual para enganar papalvos, como a afirmação de Luís Filipe Vieira de que quer festejar o título de campeão no Porto, ou as idas aos ministros para fazer queixinhas da arbitragem (é caso para dizer que era melhor preocuparem-se com o que se passa dentro de casa do que com os árbitros). Para esse peditório, eu já dei. Já não tenho paciência para esta demagogia onde só embarca quem quer. A verdade é como o azeite e vem sempre ao de cima; a categoria das equipas (ou a falta dela) também; a capacidade de gestão de um clube ainda mais.
Talvez fosse melhor explicarem-nos porque é que se foi buscar um treinador com grande curriculum, é verdade, mas famoso pela sua tendência defensiva e que acha um empate um bom resultado. Só que, 3 meses depois do início do campeonato, nem sequer a consistência defensiva que se esperava que ele desse à equipa se consegue vislumbrar. Tal como não se vislumbra qualquer tipo de automatismo, fio ou estrutura de jogo, e se cometem erros primários só admissíveis em equipas amadoras, de que são exemplo os recentes golos sofridos em contra-ataque. Parece que todos os anos se tem que começar tudo de novo outra vez, e à medida que a época avança em vez de se jogar melhor joga-se cada vez pior.
Não sei, francamente, o que é que se ganhou em relação ao Camacho. Seria porque o director-do-futebol-ex-empresário-de-jogadores não o queria lá porque isso não lhe interessava? A ida de Camacho para o Real Madrid foi apenas usada como pretexto para se verem livres do Camacho de forma airosa, apesar de Luís Filipe Vieira ter afirmado que este era o seu treinador. A verdade é que nada fizeram para o manter, mesmo quando ainda não se sabia se ele queria ir ou não para o Real. Se quisesse ir teriam que obrigá-lo a dizer.
Também gostaria que alguém explicasse porque é que se mandou embora o Fernando Aguiar (um jogador tosco mas com capacidade de luta) e se foi buscar o Paulo Almeida que é, simplesmente, uma nulidade. Porque é que se vendeu o Tiago e se ficou sem organizadores de jogo a meio-campo, mantendo o Zahovic, pago principescamente, como única opção para número 10 que, ou joga meia-hora (a passo, de preferência) ou pura e simplesmente anda por ali a arrastar-se pelo campo. Como resultado, quando Petit não joga o meio-campo não existe. Porque é que se continua a não ter uma defesa estável e minimamente segura e se depende tanto do Miguel, que é uma adaptação a defesa. Como é que não se arranjam centrais de categoria (o único é o Ricardo Rocha), continuando a sofrer golos de cabeça de forma absolutamente caricata, em que os centrais nunca estão no sítio certo ou, quando estão, são sistematicamente batidos no jogo aéreo. Neste particular o caso mais flagrante é o Luisão, que alguns agora querem tornar imprescindível e que seria bom, quando muito, para poste no basquetebol. Quando é preciso enfrentar adversários altos, ele com o seu 1,92 m, está sempre fora da jogada. O Argel é anedótico e quando joga fica quase sempre ligado aos golos que nos derrotam, por lentidão ou fífias inadmissíveis num profissional.
Estas é que são verdadeiramente as questões importantes no futebol do Benfica, e eram estas que deviam ser respondidas. Mas os 90% de sócios que elegeram Luís Filipe Vieira como se ele fosse o Messias não querem saber disso, querem é continuar a pôr as culpas no Olegário Benquerença que não viu a bola chutada pelo Petit e largada pelo Vítor Baía ultrapassar a linha de golo. Como se isso fosse desculpa para não ganharmos há 3 jogos e nos últimos 5 só termos ganho um! O jogo com o Porto foi há mais de um mês e daí para cá nada fizemos para justificar o primeiro lugar.
Ou muito me engano ou, por este andar, na próxima época nem à Europa vamos … Eu, se estivesse no lugar do Simão, ia-me embora. Ele deve estar farto de pregar no deserto, como o João Pinto fez durante tantos anos.

Kroniketas, sempre kontra as tretas