segunda-feira, 24 de julho de 2006

Cuspir no prato em que se come


Sou um dos muitos portugueses que começaram a leitura de jornais por “A Bola”, há muitos anos considerada a Bíblia do desporto português. Há pouco mais de 30 anos, aí pelos meus 12, comecei a ler as crónicas dos jogos de futebol, que nalguns casos eram verdadeiros tratados de escrita. Pontificavam nessa altura alguns monstros do jornalismo português, como Alfredo Farinha, Aurélio Márcio, Homero Serpa, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, director do jornal, Vítor Santos, chefe de redacção e considerado como referência pelos seus pares que o tratavam por “chefe”. Vinha depois uma retaguarda que os secundava composta por Santos Neves, Vítor Serpa, filho de Homero Serpa, João Alves da Costa, filho de Aurélio Márcio, Joaquim Rita. Mais tarde foi-se compondo outra geração com Leonor Pinhão, filha de Carlos Pinhão, e Rui Santos, sobrinho de Vítor Santos. Eles próprios diziam que o jornal era quase familiar, e para entrar nada como ser pela mão de quem já lá estava.
Muitos destes nomes já estão reformados e outros já lá não estão. Entre esses quero destacar Rui Santos, que parece ter saído em litígio com o jornal e hoje escreve regularmente no Correio da Manhã, sendo comentador residente na SIC Notícias.
Não me atrevo a discutir os conhecimentos de Rui Santos na matéria, até porque ele será talvez a pessoa que mais e melhor acompanhou a “geração de ouro” de Carlos Queirós desde o seu nascimento até ao seu ocaso, que se dá agora com a saída de Figo da selecção e o aproximar do fim da carreira dele e de Rui Costa, João Pinto, Vítor Baía, Jorge Costa, entre outros. Mas há muito tempo que algumas atitudes de Rui Santos enquanto comentador me andam atravessadas e a impulsionar-me para escrever sobre ele.
Em primeiro lugar, o seu auto-convencimento. Rui Santos fala sobre futebol, sobre a selecção, sobre os clubes, sobre os jogadores, sobre os árbitros e sobre os dirigentes como se fosse o dono da verdade absoluta e inquestionável e soubesse mais que todos os outros. Já cheguei a vê-lo na sua tribuna da SIC Notícias a discutir com Jorge Coroado sobre arbitragem, quando se sabe que Coroado, com todos os defeitos que lhe queiramos apontar, foi um dos melhores árbitros da década de 90, a par de Vítor Pereira. Pode não se concordar com ele, mas que saberá de arbitragem mais que Rui Santos, não tenho qualquer dúvida. Só o próprio Rui Santos achará que não.
Depois, Rui Santos analisa com uma certeza exasperante os motivos que levam os dirigentes dos clubes a actuar desta ou daquela maneira, sabendo até antecipadamente como vão os sócios e adeptos desses clubes reagir. Também aqui, ele pretende saber mais do que aqueles que estão lá dentro.
Mas o que eu mais estranho é a sua sanha infindável contra o jornal “A Bola”. Não perde uma oportunidade para mandar umas farpas contra a linha editorial do jornal e contra a sua direcção, e fá-lo assiduamente na sua coluna do Correio da Manhã. Vai mais longe, até, ao disparar em várias direcções, contra a comunicação social em geral e a desportiva em particular, como se ele fosse o imaculado e pairasse na sua omnisciência acima de todos os outros. Ataca os jornais desportivos em termos de ética, mas esquece-se da sua própria ética, pois ele próprio só tem alguma visibilidade graças a ser comentador desportivo. E não está, certamente, isento dos pecados que imputa aos outros. O que me choca (se assim se pode dizer) é o ódio que manifesta contra “A Bola”. E porquê? Porque foi precisamente “A Bola”, pela mão do seu tio chefe de redacção, que lhe deu o ser. Se não fosse “A Bola”, ninguém conheceria o Rui Santos comentador desportivo que tanto ataca “A Bola”.
Para mim a gota de água foi um debate do “Clube de jornalistas”, no canal 2, acerca do tempo de antena dado ao Mundial de Futebol. Lá estava o Rui Santos a representar o jornalismo desportivo. Pois o bom do Rui, a certa altura sai-se com esta: as bandeiras nas janelas são um acto de subcultura. Mas não vive o Rui Santos (não num órgão de comunicação social, mas em dois!) dessa mesma subcultura? É o que se chama cuspir no prato em que come. É graças aos subcultos que põem bandeiras nas janelas (é verdade, eu também tive uma bandeira na janela, um cachecol no carro e outro em cima da televisão, e não me senti menos culto enquanto eles lá estiveram nem mais depois de os ter tirado…) que o Rui Santos ganha os seus dois salários num jornal e numa televisão. É para esses subcultos que ele fala e escreve, porque os outros, os que não querem saber de futebóis, certamente nem sabem quem ele é, ou se sabem não lhe ligam pevide.
Pois é, meu caro Rui, cuspir no prato em que se come não costuma ser boa ideia. Talvez fosse bom deixar em paz o jornal que o fez ser alguém no seu meio e não desconsiderar todos aqueles que gastam o seu tempo a ouvi-lo chamando-lhes subcultos. Porque se arrisca a que um dia destes já ninguém tenha pachorra para ouvi-lo.

Kroniketas, sempre kontra as tretas