quinta-feira, 30 de março de 2006

Golos a dobrar

Depois do intenso jogo Benfica-Barcelona (quando cheguei a casa ainda estava cansado depois daquela segunda parte sempre em alta voltagem), ouvidas várias análises na rádio e na televisão, esta 4ª feira dei uma espreitadela no jornal “O Jogo”. Na página 3 é feita a apreciação geral ao resultado do jogo e às perspectivas para a segunda mão, e no último parágrafo surge uma preciosidade que já há algum tempo não encontrava, mas que continua a ser dita com a maior desfaçatez nos órgãos de comunicação social:

“O Barça terá de atacar para seguir em frente, mas não poderá sofrer golos que valerão, em caso de empate, por dois”.

Há mais de 30 anos que ando a ouvir este disparate. Sempre me tenho perguntado onde é que estes jornalistas inventaram esta. Golos a valer a dobrar? A que propósito? Só se quem os vê estiver bêbado!
Não há golos a valer a dobrar, o que há é um factor de desempate introduzido pela UEFA nos anos 70 para evitar a necessidade de realizar jogos suplementares em situações de igualdade no fim dos dois jogos das eliminatórias. Actualmente esse sistema vigora em todas as competições mundiais, e foi uma forma de premiar as equipas que, jogando fora, marcassem mais golos do que aqueles que sofriam em casa, de modo a dissuadir as equipas visitantes de jogar apenas à defesa.
Assim, quando houver igualdade em golos após dois jogos, quem marcar mais golos no terreno do adversário ganha. Tão simples como isto. 0-0 e 1-1, 1-1 e 2-2, 1-0 e 1-2, 1-2 e 3-2, 2-0 e 1-3, são tudo exemplos de situações de igualdade em que o maior número de golos marcados fora dá a vitória a uma das equipas. Daqui a dizer-se que os golos fora valem a dobrar vai uma distância enorme. É uma rematada estupidez, porque se assim fosse quem perdesse por 3-2 acabaria por ganhar por 4-3, e isso não existe. No caso concreto do Benfica-Barcelona, se houvesse golos a dobrar até poderíamos perder em Barcelona por 2-1, porque o “golo a dobrar” fazia 2-2, ou se empatarmos 1-1 ganhamos por 2-1. A estupidez desta expressão é tal que há alguns anos o Boavista perdeu por 2-1 fora e até havia quem pensasse que, por causa do famigerado “golo a dobrar” marcado fora de casa, bastava ao Boavista empatar o 2º jogo para seguir em frente. Santa estupidez!
Portanto vamos ver se nos entendemos: não há golos a dobrar, o que há é marcar mais golos fora de casa do que o adversário na nossa casa. E ponto final. Daí resulta a vantagem que o Benfica pode tirar deste 0-0. Como não sofremos golos em casa, qualquer golo marcado fora dá-nos logo vantagem porque obriga o Barcelona a marcar mais um. Ou seja, o Benfica pode empatar para seguir em frente (1-1, 2-2), enquanto o Barcelona, como não marcou nenhum golo fora, tem mesmo que ganhar. Já o mesmo se tinha verificado com o Liverpool e foi um aspecto fundamental para o sucesso do Benfica. Assim se justifica a preocupação de Koeman em não sofrer golos em casa.
É pena que alguns jornalistas sejam tão pouco rigorosos no que dizem e escrevem, muitas vezes desinformando em vez de informar.

Kroniketas, sempre kontra as tretas