domingo, 29 de janeiro de 2006

Um jogo horrível

Há mais de 30 anos que vejo futebol e assisti (ao vivo ou pela televisão) a quase todos os “derbies” desde 1973, o que deve dar para cima de 70 ou 80 jogos, contando com os da Taça de Portugal, Taça de Honra e Supertaça. Pois não me lembro, em jogo nenhum, de ver o Benfica ser tão dominado e massacrado como esta noite ao longo de 90 minutos. Ao contrário já tinha visto muitas vezes.

Além disso, desde 1954, ano em que inaugurou o Estádio da Luz, só no “anus horribilis” de Artur Jorge como treinador é que o Benfica tinha perdido os dois jogos do campeonato com o velho rival.

O desequilíbrio foi tão grande que, quando Liedson fez o 2-1, para mim o jogo acabou ali e saí do estádio. Acho que este jogo atingiu mesmo as raias da humilhação. O Benfica não conseguiu, do princípio ao fim, controlar o adversário, pegar no jogo e impor o seu ritmo, como era de esperar. E mais uma vez temos de assacar culpas ao treinador por este jogo horrível duma equipa que vinha de 9 vitórias consecutivas e tinha estado 7 jogos sem sofrer golos.

Desde o início se viu que o Benfica era uma equipa perdida em campo, em que o meio-campo não funcionava, não conseguindo estancar os ataques do Sporting nem, pior que isso, organizar jogadas de ataque com princípio meio e fim. O que se viu em todo o jogo foi os defesas e médios (???) atirar charutadas lá para a frente, para os desamparados avançados e extremos que viam chegar-lhes a bola pelo ar e tinham que lutar com os adversários, de costas para a baliza, para tentar dominá-la. Daqui resultou que Geovanni, Nuno Gomes e Manduca não estiveram em jogo... porque não tinham jogo. Simão Sabrosa durante a primeira parte só se viu quando marcou (exemplarmente, aliás) o penalty.

Perante este naufrágio da equipa na chuva e na onda verde, que fez Ronald Koeman? Durante quase 60 minutos, nada. Manteve em campo esse pseudo-jogador que é o Beto, um verdadeiro pesadelo para os espectadores, que não acerta um passe, não consegue construir uma jogada, perde ou destrói todas as jogadas de ataque em que intervém. A culminar mais uma noite horrorosa, cometeu um penalty completamente estúpido, por lentidão e falta de discernimento. Esta teimosa insistência de Koeman em Beto começa a ser patológica e já começou a sair cara ao Benfica. Com ele em campo joga-se com um a menos e não temos um organizador de jogo, que tanta falta fez nesta partida. Por que raio o holandês embirrou com o Nuno Assis? O que tem ele contra o Karagounis? Porque é que continua a deixar Manuel Fernandes de fora de início?

Depois tentou remendar o que já não tinha remendo. A entrada de Marcel foi uma inutilidade (era mais um lá à frente à espera de bolas que não chegavam) e, finalmente, a do francês Robert foi já em desespero de causa, para tentar o impossível. De que serve ter avançados quando não se consegue atacar? O pecado original de Koeman foi a constituição duma equipa que nunca conseguiu mandar no meio-campo. Para isso era necessária outra estrutura e outros jogadores. Mas, a par da sua fatal tendência para inventar, vem a sua deficiente leitura do jogo, não conseguindo perceber o que se passa em campo. Só assim se explica a insistência em Beto.

A partir do momento em que o Sporting empatou, perante a total incapacidade do Benfica em atacar (na segunda parte foi penoso ver a equipa ser barrada sistematicamente à entrada do meio-campo adversário e voltar a ser empurrada para trás) era apenas uma questão de tempo até o Sporting dar a volta ao resultado. A defesa foi aguentando as investidas do leão enquanto pôde, muitas vezes atabalhoadamente, mas perante a auto-estrada que se abria no meio-campo, as falhas acabariam fatalmente por surgir. Nesse aspecto Alcides (que para mim é o melhor defesa central do Benfica) esteve desastradíssimo e já na primeira parte tinha perdido bolas comprometedoras, mas aquela fífia do segundo golo acabou com a resistência. O tão cantado guarda-redes Moretto não revelou a segurança de outros jogos e já na primeira parte andou perdido várias vezes.

Ou seja, perante este cenário, só podia acabar tudo em desastre. Por isso o jogo acabou, para mim, aos 73 minutos. Só fico a pensar se o “velho” Trapattoni, que tantas vezes criticámos aqui e noutros fora, deixaria o Benfica ser dominado desta maneira. Parece-me que não.

Kroniketas, sempre kontra as tretas