sábado, 14 de janeiro de 2006

A esfinge


Confesso que nunca percebi o fenómeno Cavaco, nem durante os 10 anos de governação nem agora. Assim como nunca percebi o fenómeno IBM, o fenómeno Senna e o fenómeno Xutos. Há fenómenos que são difíceis de explicar por quem não os partilha.
Quando eu e o tuguinho nos conhecemos numa empresa estávamos sempre a ser bombardeados com o fenómeno IBM. Quando o Senna corria na Fórmula 1 era visto como um Deus, aliás ele próprio julgava-se Deus na pista, por isso acabou como acabou. Há quem diga que os Xutos são os Rolling Stones portugueses, mas como é possível andarem 30 anos por aí com um vocalista que canta como uma cana rachada?
Quanto a Cavaco Silva, já tivemos a nossa dose de governação autoritária, com laivos de Salazar pós-moderno, mas parece que o pessoal gostou e agora quer mais. Por acaso eu lembro-me que há 10 anos, depois de sair do governo pela esquerda baixa e com uma vitória anunciada do PS de Guterres, Cavaco foi derrotado à primeira por Jorge Sampaio. Os portugueses, pareceu na altura, estavam fartos de Cavaco, e disseram-lhe “chega!”. Foi um alívio para o país ver-se finalmente livre da personagem.
O que explica, então, que 10 anos depois se preparem para lhe dar mais 5 anos de poleiro, a que se seguirão outros 5? Dos que votaram em Sampaio, teremos agora muitos a votar em Cavaco? Como é que ele vai buscar tantos votos à esquerda? Confesso que não entendo. Não gosto do estilo, do ar, da pose. Nos debates, adoptou sempre aquela posição de esfinge, um ar seráfico, não se dignando olhar para os adversários de frente e olhando para o umbigo enquanto estes falavam, como se estivesse numa posição superior em relação a eles. Nunca se referia directamente ao interlocutor, dizia sempre “como aqui foi dito”.
Parece que o pessoal tem a memória curta, mas talvez haja uma explicação simples: esta tendência atávica dos portugueses para o endeusamento de quem os esmaga, de quem faz demonstrações de autoridade-tipo-chicote. Só assim se compreende que ainda haja por aí tanta mente atrasada a clamar pelo defunto de Santa Comba Dão, o ditador que nos custou 40 anos de atraso e obscurantismo. Se calhar isto ainda são as sequelas desse tempo.
Pela minha parte, há muito que o meu voto está decidido e, se houver segunda volta, vou fazer como o meu candidato: não votarei no candidato da direita.

Kroniketas, sempre kontra as tretas