quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Reflexões pós-eleitorais

Cavaco Silva foi eleito Presidente da República com a 2ª menor votação de sempre.
Ramalho Eanes foi eleito com 2.960.000 e com 3.260.000 votos.
Mário Soares foi eleito com 3.000.000 e com 3.460.000 votos.
Jorge Sampaio foi eleito com 3.000.000 e com 2.410.000 votos, numa eleição com 49% de abstenções em 91.
À primeira eleição, Cavaco Silva teve 2.745.000 votos e ficou 20.000 votos acima dos 50%, numa eleição com 37% de abstenções (houve mais abstenções que votantes a eleger o novo presidente). Daqui se conclui que a esquerda perdeu por falta de comparência, pois aqueles que votam à esquerda e ficaram em casa podiam facilmente ter forçado a realização da segunda volta. E olhando para as votações dos presidentes eleitos à esquerda, sempre na casa dos 3 milhões de votos, também se percebe que essa votação voltaria a derrotar Cavaco Silva, como em 1996.
Aliás, é curioso verificar também que a votação de Cavaco Silva em 2006 não foi muito diferente da de 1996, em que teve 2.600.000 votos. Portanto, em 10 anos o professor não cresceu muito na sua base eleitoral. O que sempre provocou o seu grande avanço nas sondagens e a quase certeza de que seria eleito à primeira volta deve-se, afinal, única e exclusivamente à baixa votação nos candidatos da esquerda. Mais uma vez com grande responsabilidade do PS, que pareceu mais preocupado em arranjar um cordeiro para o sacrifício do que um candidato vencedor. Até os apelos pungentes de Jorge Coelho para a desistência dos outros candidatos a favor de Mário Soares se mostraram desajustados da realidade, porque foi claríssimo a partir de certa altura que Mário Soares era um erro de “casting”. Também se diz à boca cheia que o PS estava mais interessado na derrota de Soares, para se livrar do soarismo, e na vitória de Cavaco, porque este será um bom presidente para a política que o governo está a seguir. Depois daquela inconcebível aparição de Sócrates em cima do discurso de Alegre, já nada me admira vindo dali.
Quanto aos 1.100.000 votos de Manuel Alegre, por muitas explicações complicadas que se tente arranjar à volta das ideias que tem ou não e da campanha boa ou má que fez, o dado fundamental, que poucos parecem ter percebido (se calhar agora já perceberam) resume-se a esta frase lapidar: há mais vida para além dos partidos. E foi esse o grande trunfo de Alegre, cuja candidatura corporizou a libertação do eleitorado do espartilho partidário. Por isso ele apareceu também como o candidato do protesto. Há muitos factores em jogo na decisão do sentido de voto, e restringi-los às “ideias para o país” é francamente redutor.
Era bom que todos percebessem isso: os políticos, os directórios partidários, os analistas... Porque, como diz uma politóloga no Diário de Notícias, se os partidos não perceberem que o eleitorado se quer libertar deles, serão eles a sucumbir ao eleitorado. Se não é exactamente assim, é mais ou menos isto.

Kroniketas, sempre kontra as tretas