segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Os moralistas de sacristia

Eis-nos então a uma semana do novo referendo sobre a descriminalização do aborto até às dez semanas. Neste momento devem estar a interrogar-se: olha, este gajo deixou de saber escrever! Felizmente, acho que ainda não me aconteceu isso – quis antes enfatizar aquilo que se vai decidir no domingo que aí vem. Ninguém vai dizer se é contra ou a favor do aborto, até porque penso que isso é uma decisão do foro íntimo de cada mulher e da situação em que se encontre. A ÚNICA COISA A QUE VAMOS RESPONDER COM O NOSSO VOTO É SE ACHAMOS QUE QUEM REALIZA UM ABORTO ATÉ ÀS DEZ SEMANAS DE GESTAÇÃO DEVE SER PENALIZADA CRIMINALMENTE OU NÃO. Só isso.

Os moralistas de sacristia saem sempre debaixo das suas pedras húmidas nestas alturas e tentam impor a sua moralidade bafienta e salazarista aos outros. Eu, por mim, não tento impor nada a ninguém, até porque me conto na parte masculina da humanidade e nunca sentirei esse problema na carne. Só que eu não considero a minha moral superior à dos outros, e por isso não quero impor a minha posição favorável à despenalização a quem acha que isso é um crime! Por mim, podem fazer-se prender se alguma vez incorrerem no acto. Podem mesmo continuar a aparentar serem exemplos de virtude no regresso de Badajoz. Ou podem simplesmente não o fazer nunca e respeitarem aquilo em que dizem acreditar. MAS NÃO TENTEM IMPÔR AOS OUTROS COMO LEI UMA COISA QUE SÓ DIZ RESPEITO A CADA UM! Neste caso, cada uma.

Os moralistas de sacristia começam sempre de fininho, muito circunspectos e leais, prometem uma campanha com extrema elevação e acabam na utilização de métodos terroristas, acolitados por párocos das cavernas e bispos que deviam repousar na pirâmide de Quéops, ou debaixo dela. Acabam com manipulações de inocentes, demagogia a rodos e excomunhões sortidas, como se estivéssemos na idade média. Deve ser a apregoada tolerância da igreja que, aliás, sempre foi pela vida e nunca matou ninguém, directa ou indirectamente, como sabemos…

Os moralistas de sacristia vêem a mulher como um poço de pecado, que deve expiar na vida toda a maldade que lhe foi instilada por uma certa Eva há já alguns anitos, na melhor tradição da caça às bruxas (literalmente). Daí que deva ser tratada como uma pobre de espírito, uma pecadora a quem deve ser mostrado o caminho. E o caminho são as inúmeras instituições de apoio a grávidas que quem tão generosamente apoia a campanha do Não criou nos últimos anos. Hmmm… Acho que estas pessoas devem sofrer de uma espécie de síndrome Floribela, maleita ainda não classificada cientificamente, mas que parece fazer com que os pacientes vejam o mundo todo em cor de rosa, assim num tom pastel que fica bem em qualquer casa de tia.

Por último, por favor deixe-nos comentários, pró ou contra, com qualidade! Nada de récitas de sermão nem de divagações poético-vomitórias, peço-vos. Se se sentiu atingido, era mesmo de si que estava a falar! É evidente que não os vamos apagar (só se fossem mesmo ofensivos), mas baixam-nos a qualidade do blog e não beneficiam nada os autores das lengalengas. Obrigado.

No próximo domingo, vote sim ou vote não, vá votar! Ou quer deixar os outros decidirem por si?

tuguinho, cínico encartado