terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

O estigma da culpa

Só é pena que o Dr. Gentil Martins tenha usado na TVI de uma argumentação tão carregada de preconceitos e tabus, provavelmente de origem católica, ao dizer que, "evidentemente o SNS não vai ter capacidade de absorver e dar resposta aos casos de aborto, já que o mesmo serviço tem listas de espera até para o cancro". E prossegue brilhantemente: "não se vai colocar numa lista um aborto à frente de um cancro, pois do cancro as pessoas NÃO TÊM CULPA, AO PASSO QUE DO ABORTO, TODA A GENTE SABE COMO É QUE SE FAZ AQUELE SER QUE ESTÁ ALI."...
Sr. Dr., que argumentação lamentável, que tal como na Idade Média colocava a actividade sexual, uma das mais naturais da humanidade, como coisa do Demo, que devia ser reprimida com as eternas penas do inferno...
Sempre o estigma do pecado e da culpa!
V. Exa. deve saber muito bem, como médico que é, que para ter uma gravidez indesejada, basta para tal incorrer numa qualquer interacção medicamentosa, desconhecida da maior parte das utentes, quando se está tomar a pílula anticoncepcional. E um filho a mais pode ser uma sobrecarga incomportável para a classe social de algumas mulheres.
Não para a de V. Exa., certamente, pois as madames de há muito que vão a Londres resolver esses incómodos às escondidas da muito pia e virtuosa society em que se movem...
Quanto às pessoas que têm cancro estarem isentas de culpas, isso é discutível.
Se eu todos os dias me encharcar de bebidas alcoólicas destiladas, enfardar comidas gordurosas e sem fibras e me entupir com o fumo de 40 ou 60 cigarros, é quase certo que um dias destes vou acabar sem cabelo e sem bocados do meu corpo nos serviços de V. Exa.
Tratar as consequências para a saúde de todas estas irresponsabilidades, que não sofrem anátemas e são socialmente aceites, custam uma pipa de dinheiro aos cofres do estado, fora a quantidade de vidas que se perdem todos os anos, neste país, tão católico e de tão brandos costumes...
Quanto a ter relações sexuais das quais resultam gravidezes não desejadas, deixem os pais de bloquear o Ministério da Educação a respeito da introdução nos curricula da disciplina de Educação Sexual.
Talvez seja a primeira medida a tomar com vista a uma diminuição acentuada dos abortos...!

Lelé Batita, artista convidada