domingo, 13 de março de 2005

Os inimputáveis

Facto 1 – A mãe da criança morta (ou desaparecida) no Algarve, na aldeia de Figueira, apareceu no jornal com a cara cheia de nódoas negras, ao que tudo indica vítima de agressões por parte da força policial nos interrogatórios.
Facto 2 – A semana passada em Lagos um cidadão foi agredido à porta dum bar por 6 ou 7 polícias (que valentes) e depois levado para a esquadra. Às 4 da manhã telefonou à irmã a pedir-lhe que arranjasse um advogado. Uma hora depois a polícia telefonou à irmã a dizer que o irmão estava morto. Versão oficial: enforcou-se na cela com as próprias calças.
Aquilo que me repugna nas forças policiais, que foram criadas para prender os malfeitores e proteger os cidadãos e não para os perseguir, é este sentimento de impunidade que se apodera daquela gente só porque usa uma farda. Já na tropa é a mesma coisa. O indivíduo mais comum, assim que se vê com uma farda em cima e umas divisas nos ombros acha que tudo lhe é permitido e nada lhe pode acontecer.
Em Portugal já são demais os casos em que a brutalidade policial com cidadãos que provocam desordens por esta ou aquela razão acabam com estes “suicidados” nas esquadras. Mais repugnante ainda é esta reacção corporativa que sempre vemos acontecer, em que se pretende esconder o óbvio e desculpar o indesculpável, com justificações esfarrapadas. E ninguém é punido, porque a palavra da autoridade faz lei. Até se chegar ao ponto de um preso ter sido decapitado numa esquadra de Sacavém e a sua cabeça escondida, lembram-se?
É tempo deste país fazer jus ao que se diz ser um estado de direito, e começar a responsabilizar os responsáveis pelos crimes, mesmo que estes sejam os que deviam proteger a população da acção dos criminosos. Para mim não pega aquela treta de que palavra de oficial faz lei. Não há nenhum borra-botas que só por ter uma farda e um distintivo seja mais verdadeiro do que eu, ou mereça mais respeito do que eu mereço. Casos como estes, pelo contrário, só fazem a “autoridade” merecer ainda menos respeito do que aquele que, desconfio, a maioria das pessoas normalmente já lhes tem.
É uma vergonha que casos destes passem impunes, e os autores destes crimes deviam ser processados, julgados em tribunal e severamente punidos, porque a sua responsabilidade ainda é maior que a do cidadão comum. Pelo menos essa regra aprendi na tropa. Deve ter sido a única coisa útil que fiquei a saber no tempo em que lá estive.

Kroniketas, sempre kontra as tretas

PS: a este respeito escreveu Miguel Sousa Tavares no Público