domingo, 22 de agosto de 2004

Krónikas a banhos (8) – Os tugas no seu pior

Uma vergonha! Inqualificável o que se passou com a selecção olímpica de futebol. Um bando de rapazinhos malcriados encheu de vergonha o nome dum país que tanto tinha sido publicitado durante o Europeu.
Este é o espírito tuga no seu expoente máximo. Achamos que somos os maiores sem termos feito nada para o demonstrar, sonhamos alto de mais e encaramos a competição como se fosse uma mera formalidade. Depois vêm uns tipos de uns países como Iraque (pensei que só sabiam explorar petróleo e pôr bombas) e Costa Rica e enfiam-nos 8-golos-8, mandando os nossos rapazinhos malcriados para casa sem honra nem glória, mas cobertos de vergonha.
Não foram só os resultados desastrosos. O pior foi a imagem deixada, de um grupo excursionista que estava ali a fazer um grandessíssimo frete, em que ninguém se entendia nem sabia o que estava a fazer, nem dentro nem fora do campo, e culminou com 3 expulsões em 3 jogos. O desnorte foi total, e do banco nunca vieram soluções.
Afinal, do que acusamos Scolari por não ter sido campeão europeu? Muito fez ele, porque o nosso espírito tuga, a nossa verdadeira dimensão, não é a do Europeu mas sim a destes Jogos Olímpicos, do Mundial de 2002, de Saltillo, dos balneários destruídos em França por esta mesma selecção. E nunca, em nenhuma destas ocasiões, se ouviu uma voz de comando com autoridade, que pusesse os meninos na ordem e os chamasse às suas responsabilidades, a começar no treinador e a acabar no presidente da Federação. Apenas se vê um bando de incompetentes que se vão mantendo a usufruir dos seus tachos à custa dos compadrios.
Após o final do Europeu, havia vozes a pedir a demissão de Scolari porque o 2º lugar foi um fracasso. Esquecem-se é que NUNCA ganhámos o que quer que fosse a nível de selecções seniores, e que a regra não são os lugares honrosos, nem sequer a participação frequente nestas competições. Tudo junto, neste momento temos 3 presenças em Jogos Olímpicos (1928, 1996 e 2004), 3 em Campeonatos do Mundo (1966, 1986 e 2002) e 4 em Campeonatos da Europa (1984, 1996, 2000 e 2004), com um balanço de 4 presenças nas meias-finais e 1 na final. E agora, querem o quê? Chegar a qualquer lado e dizer que vamos ser campeões Olímpicos, da Europa, do Mundo? Com que base ou justificação é que atribuímos a nós próprios esse (falso) favoritismo? E qual é, invariavelmente, o resultado nessas ocasiões? O desastre completo, o fracasso total, como na Coreia, como no México com o caso-Saltillo, com os nossos jogadores armados em vedetas mais preocupados com os prémios de jogo, com as diárias e os telefonemas, com imaginárias transferências para o estrangeiro que, ou nunca se concretizam, ou redundam quase sempre em fiascos, com os jogadores a serem recambiados rapidamente para o banco ou para equipas menores.
É esta a história das nossas selecções, de um futebol que raramente sai da mediocridade e que, nos momentos em que mais é apontado como candidato a qualquer coisa (não éramos nós que já dizíamos que nos íamos vingar dos gregos e ganhar a medalha de ouro?) mais nos envergonha. Os nossos futebolistas preocupam-se mais com questões acessórias do que com o essencial. Prémios de jogo por participar numa grande competição? Eles são os principais interessados em mostrarem-se ao mundo, deviam era pagar para jogar na selecção. Deviam jogar primeiro e mostrar que merecem ganhar prémios antes de os exigirem.
Mas com a complacência de dirigentes analfabetos e incompetentes e empresários mafiosos, rapidamente se eleva um jogador vulgar à condição de vedeta só porque faz meia-dúzia de jogos jeitosos. Veja-se o recente exemplo de Miguel, que é apenas um defesa razoável mas em quem só se fala para a Juventus. Ele que vá, e veremos quanto tempo lá fica. E o malabarista Cristiano Ronaldo, a quem saiu a lotaria ao ir para Manchester, que ainda não passa dum projecto de jogador e tem muito que pedalar para chegar ao estatuto de um Figo ou de um Rui Costa, já se deve achar o melhor do mundo só porque fez uns floreados no Europeu, e nos Jogos Olímpicos começou logo por mostrar a sua classe dando uma cotovelada num iraquiano e escapando inexplicavelmente à expulsão.
Depois, quando aparece alguém com ideias, trabalho metódico e projectos com pés e cabeça, como Carlos Queirós, é rapidamente trucidado por um sistema de medíocres e invejosos, a quem só interessam os compadrios e os favores. Por isso Carlos Queirós é tão malquerido em Portugal, quando foi o único que conseguiu fazer duas selecções de sub-20 campeãs do Mundo e nem antes nem depois dele alguém repetiu o feito, sendo duvidoso que alguma vez o faça.
É este o verdadeiro espírito tuga. Em Portugal, quem tem valor não é admirado, é sim invejado e faz-se tudo para o deitar abaixo. Os incompetentes e medíocres são promovidos de tacho em tacho como prémio para os desfalques que fazem no erário público. O exemplo da gestão da TAP é paradigmático, com um brasileiro a conseguir pôr aquilo a dar lucro e a ser torpedeado por um medíocre como Cardoso e Cunha, que teve este prémio depois do buraco que deixou na Expo 98. Por isso não se iludam. Sonhar com títulos europeus e mundiais? Não nascem Figos todos os dias, e o que Figo conseguiu até agora foi à custa de muito trabalho, muito suor, muita corrida e muita, muita cabeça. Que é o que as nossas pseudo-vedetas olímpicas não têm.
A completar o ramalhete, os dirigentes sem vergonha. Como é possível que um presidente da Federação se vá mantendo em funções depois de todas as barracas que se vão sucedendo? Nunca ninguém é responsável pelas vergonhas que nos fazem passar? Simplesmente manda-se embora o Romão, vota-se o João Pinto ao esquecimento e pronto, está tudo resolvido? Não será mais do que altura de, como preconizava Queirós há 10 anos, limpar a porcaria da Federação?

Kroniketas, sempre kontra as tretas e as pseudo-vedetas