quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Krónikas a banhos (3) – Os veraneantes de pocilga

As campanhas de sensibilização para limpeza das praias têm o mesmo efeito que as campanhas de segurança rodoviária: nenhum. Umas e outras continuam a ser o espelho do nosso atraso 30 anos depois da revolução, que ainda não chegou às mentalidades.
Basta uma chuvinha de verão para que centenas de carros se espatifem nas estradas e voltem a surgir os números assustadores de mortos. Os imbecis do volante que se acham todos uns verdadeiros Schumacher’s, que pensam que têm carros de corrida e que a estrada é a pista de Monza, que nas auto-estradas voam baixinho pela faixa da esquerda e dão com os máximos em qualquer condutor que esteja a fazer uma ultrapassagem, digamos, a 120 ou 130 km/h (que lesmas!!!) a 100 metros de distância, e que a 160 vão a meio metro do carro da frente – que para eles é apenas um empecilho –, conduzem com a mesma soberba e inconsciência quer esteja sol, chuva, granizo ou nevoeiro. Depois dão aquelas explicações idiotas de que não tiveram tempo de travar porque não viram o carro da frente. A sua estupidez não lhes permite raciocinar o suficiente para perceber que com chuva ou nevoeiro não se pode circular como num dia de sol com estrada vazia. Só é pena que não se matem sozinhos, e arrastem sempre outros consigo.
O que se passa nas praias é um sintoma semelhante. Por muitas reportagens que apareçam na televisão a mostrar jovens voluntários que limpam o lixo que os javardos lá deixam, por muitos cartazes que existam a dizer “Mantenha a praia limpa”, por muitos sacos de lixo que estejam espalhados pela praia, o resultado é sempre o mesmo: continuamos a ver uma lixeira espalhada pela areia e pela água.
Um dia destes, passeando pela Praia da Rocha com o meu filhote, enquanto a maré subia, fomos encontrando uma colecção diversificada de objectos que os veraneantes (que devem confundir a praia com a pocilga onde possivelmente foram criados) vão deixando atrás de si. E fomos anotando.
Na areia e, o que é mais impressionante, à beira-mar e vogando ao sabor das ondas, deparámo-nos com:
latas de bebida (cerveja, Sumol, Fanta, Coca-Cola, Pepsi), garrafas de água, um pacote de Doritos, maços de tabaco, folhas de jornal, sacos de plástico, iogurtes, papéis de gelado e, pasme-se, uma caixa de gelado Carte d’Or!
Este ano ainda não encontrei: preservativos, pensos higiénicos, tampões e cagalhões a boiar. Mas até ao fim do mês ainda há tempo e não se deve perder a esperança!
Esta espécie de banhistas javardos continua a manter o espírito do garrafão e melancia que marcava as nossas praias há 30 anos. Parece que mesmo as mentes mais novas não acompanharam o progresso. Enquanto os efeitos da revolução não se fizerem sentir na educação, é tempo perdido andar a fazer campanhas. O pessoal é demasiado bronco para perceber.

Kroniketas, sempre kontra as tretas e a javardice dos banhistas

PS: E também já vi o Zezé Camarinha…