sexta-feira, 9 de junho de 2006

Segredos de Alqueva



O trocadilho é barato* mas justificado, pois esta história parece mais uma intriga de comadres do que outra coisa. O problema é que a comadre que ficou lixada na intriga somos todos nós.
Qual JC em dia de milagre, o plano para o Alqueva multiplicou, não pães e peixes, mas camas! E não, caro leitor, estas camas não vão beneficiar a indústria do móvel – estas são mais para os patos bravos e para o turismo destruidor.
Como disse na passada terça-feira Miguel Sousa Tavares na sua intervenção no jornal nacional da TVI, fomos todos enganados: disseram-nos que o maior lago artificial da Europa ia ser a revolução da agricultura alentejana e que ia haver apenas 500 camas turísticas, só para os olivais dos espanhóis não se sentirem sós, e etc. Pespegam-nos agora, que nos apanharam a olhar para o lado, com 16 mil leitos para camone usar, mai-los respectivos campos de golfe e afins. Agora é que percebo para que era precisa aquela água toda!
Acho que fazem muito bem! Enganaram-nos mas fizeram muito bem, porque o povo é ignorante e não vê os benefícios que tudo aquilo vai trazer: ele é empregos como criados de mesa e jardineiros, ele é a necessidade de caseiros e seguranças, empregadas de limpeza e dançarinos de rancho folclórico. Tudo empregos qualificados e que vão lançar o país em áreas que são o estado da arte do desenvolvimento sustentado. Se tivessem dito a verdade ele era manifestações, pedidos de demissão de governantes, em suma, agitação desnecessária.
Afinal de contas, por que é que o Alentejo não pode ter o seu Algarve? Como está a demorar muito a rebentar com a costa alentejana, porque não fazer também pequenas Quarteiras e Vilamouras no interior da transtagana província? Ai são só Vilamouras? Quem quer sardinhadas e garrafões de 5 litros tem de procurar outras paragens? Turismo de luxo? Está bem, sempre há mais uns empregos na área da geriatria e do aluguer de chicha.
É que é só vantagens! Imagine-se o leitor deitado na praia, olhando para as motos de água que passam céleres a rasar a margem, e que chegou a este paraíso muito mais depressa do que ao Algarve. Não é bom?
Devíamos agradecer quanto antes ao(s) magnífico(S) urdidor(es) deste plano e oferecer-lhe(s) uma enorme medalha, que lhe(s) podia ser aposta no extraordinário cenário da barragem. E para figura(s) deste calibre menos que 10 quilinhos de betão na medalhita seria insulto.**
Só tenho uma dúvida: quando chegassem à água, muitos metros abaixo, o conjunto homem-medalha faria “tchibum”?

tuguinho, cínico de alcova

* para os que não perceberam o trocadilho, procedeu-se à substituição de “alcova” por “alqueva”; se mesmo assim não perceberam, azar.
** este parágrafo compensa largamente a ausência de parêntesis no post anterior.