terça-feira, 13 de junho de 2006

Momentos sublimes



Passada uma semana sobre o fim do Rock-in-Rio, não tendo havido tempo na semana subsequente venho agora dar conta das impressões recolhidas nas minhas duas deslocações ao festival.
Um festival deste género é para ser aproveitado ao máximo, pois é uma oportunidade única de ver desfilar em pouco tempo um grupo alargado de artistas que normalmente não teríamos oportunidade de ver em tão pouco tempo. E quando se investe no bilhete, há que aproveitar ainda melhor.
Não são só os artistas que me fazem deslocar ao festival. Depois da experiência de 2004, a vontade de voltar (e logo duas vezes) deve-se também a todo o ambiente que se vive, o desfrutar daquele espaço tão animado e com tantas pequenas distracções. Para além dos espectáculos no Palco do Mundo, há os outros palcos onde actuam artistas menos mediáticos, a tenda electrónica, o slide, as pinturas, os passatempos, etc. Claro que participar nisto tudo exige tempo e paciência para estar nas filas. Mas também é engraçado ver. Passeia-se pelo recinto, pinta-se a cara e o cabelo ou põe-se uma peruca cor-de-rosa, põe-se um lenço ao pescoço ou no pulso, descansa-se deitado na relva olhando para o céu. É um dia de distracção e despreocupação.
O prato forte, naturalmente, é o Palco do Mundo. É pelos concertos que lá vamos. E mesmo aqueles que não são das nossas preferências acabam por nos prender a atenção no meio de toda aquela animação que chama o espectador para junto do palco. Este ano a minha escolha recaiu nos dias 2 e 4, mas nos outros dias vi pela televisão todos os concertos que pude.
A grande expectativa era para dia 2, com um cartaz de luxo. Rui Veloso foi reincidente, mas o concerto foi melhor que o de há 2 anos. Não sei se pela hora mais tardia (em 2004 foi ainda bem à tarde, com o sol alto), a verdade é que houve um maior envolvimento com o público. De Rui Veloso, que já vi actuar ao vivo umas 20 vezes, espera-se sempre que cumpra com a competência habitual e que nos brinde com os clássicos. E foi o que fez.
A seguir veio Santana. Rodeado de um naipe de músicos excepcionais, deu-nos uma hora e meia espectacular, deliciando-nos com a sua mestria na guitarra eléctrica que faz dele um dos melhores do mundo, mantendo sempre aquela sonoridade inconfundível de “rock latino” em que se destaca o jogo de percussões, onde o imparável Raul Rekov (o homem das quatros mãos, como lhe costumo chamar, tal é a destreza com que toca as congas), que o acompanha há mais de 20 anos, é figura de proa. Com uma carreira de 50 anos, Carlos Santana continua em grande forma. Mesmo para quem o conhece há muito tempo, vê-lo em palco é quase extasiante. Aquilo é que é tocar, e está tudo dito. Ali o que vale é o talento dos músicos em palco. Tinha visto o concerto no Pavilhão Atlântico há uns anos, e este esteve muito acima. Óptimo som e fantástica performance.
Mas o que todos esperavam era Roger Waters, alma-mater dos Pink Floyd e figura incontornável para os fãs do grupo. Tal como em 2002 no Pavilhão Atlântico, Waters voltou a transmitir-nos aquela sensação de estarmos dentro do grupo, vivendo e sentindo aquelas canções. E é o próprio Roger Waters que passa isso para o público, com o empenho e a alma que põe na sua actuação. As suas canções não são apenas música, são mensagens que ele vive e sente enquanto actua. Vê-se na sua expressão em palco que não está apenas a cantar. Os músicos que o acompanham, alguns já como suporte de palco desde o tempo dos Pink Floyd (como o guitarrista Snowy White), estão completamente à altura da função, encarnando bem o seu papel de substitutos dos originais. Claro que seria diferente ver lá o David Gilmour, mas os dois guitarristas presentes não o deixam ficar mal.
Num concerto que excedeu as expectativas, com a duração de quase 3 horas, Waters percorreu algumas das peças mais importantes da história dos Pink Floyd: “Another brick in the wall part 2”, “Mother”, “Comfortably numb”, “In the flesh”, “Shine on you crazy diamond”, “Wish you were here”, “Sheep” (uma surpresa do álbum “Animals”, quando se esperaria “Dogs”), e até recuou a 1968 para ir buscar “Set the controls for the heart of the sun” ao álbum “A saucerful of secrets”. Depois do intervalo, outra surpresa: o “Dark side of the moon” tocado de princípio a fim, com o rigor adequado à fama que granjeou (apesar de eu preferir os 3 que se lhe seguiram, mas isso é outra conversa).
Em suma, estivemos quase até às 3 e meia da manhã a assistir a estes momentos sublimes, que nos reconciliam com as coisas boas da vida, resistindo ao cansaço. Se o concerto de 2002 tinha sido fantástico, este conseguiu ser ainda melhor.
No segundo dia da minha presença, o cansaço ainda se fazia sentir e, ao contrário das intenções iniciais, acabei por assistir apenas aos concertos de Anastacia e Sting. Mas voltou a valer a pena.
Anastacia, de quem não conhecia sequer grande coisa nem nunca tinha visto actuar, entrou com grande alegria e muita comunicação com o público, criando um ambiente muito animado. Tinha assistido ao concerto de Shakira pela televisão e percebi que só mesmo lá se consegue absorver aquele ambiente e entusiasmo transmitidos pelos artistas. Porque um concerto também é isso, a interacção com o público.
Para finalizar, Sting, que também tinha visto pela televisão há 2 anos. Desta vez (e felizmente), optou por um alinhamento mais baseado nas canções dos Police entrecortados com alguns dos seus maiores sucessos a solo. Começou em grande estilo com “Message in a bottle” e ao longo de uma hora e meia percorreu alguns dos maiores sucessos, como “Roxanne”, “Walking on the moon”, “Every little thing she does is magic”, “Shape of my heart”, terminando novamente em grande com “Every breath you take”. Pelo meio ainda foi buscar alguns temas menos tocados de “Zenyatta mondatta”. A acompanhá-lo mais um naipe de excelentes músicos, com destaque para o guitarrista Dominic Miller, um excelente executante que o acompanha em palco desde 1990, após ter tocado com Phil Collins no álbum “But seriously”, tendo já actuado em mais de mil concertos de Sting e participado em todos os seus álbuns desde “The soul cages”.
Por fim, vencidos pelo cansaço e porque no outro dia era 2ª feira, abandonámos o recinto antes da actuação de encerramento do festival pelos GNR, que ainda pude acompanhar na parte final pela televisão. Mas fica a satisfação de ter assistido à actuação de alguns dos melhores músicos de agora e de sempre, e a promessa de voltar em 2008, pelo menos para mais dois dias.

Kroniketas, audiófilo exausto mas realizado