domingo, 25 de abril de 2004

Sempre, a 25.

Pois é – o inexorável decorrer dos anos acaba por transformar tudo, primeiro em memória cada vez mais vaga, depois em comemoração ritual sem ligação ao que é comemorado.
O que é para mim (e para quase todos, aliás) o 5 de Outubro, todos os anos? É um dia feriado! É evidente que sabemos (ou devíamos saber, mas aí já entramos no campo da ignorância) que o 5 de Outubro foi uma data importante da nossa história em que a república substituiu uma ancilosada monarquia, mas para mim como pessoa, que não a vivi, é apenas isso, e no campo mais prático das coisas do dia a dia, é uma folga que às vezes permite gozar pontes… E isto é uma coisa que ninguém conseguirá evitar, qualquer que seja o acontecimento e a sua importância.
Por outro lado existem coisas basilares da vida numa sociedade moderna e aberta, democrática, como a liberdade de expressão e de associação, que são tão importantes que as damos por garantidas. E isto é tanto mais verdade quanto mais recente é a geração – aqueles para quem o 25 de Abril já é uma comemoração ritual que não lhes diz nada enquanto data. É um feriado…
Mas precisamente porque antes de 25 de Abril de 1974 nada do que é hoje a base da nossa vida em sociedade existia, não devemos tornar a data numa mera comemoração, num dia feriado. Isto não quer dizer que transformemos, todos os anos, o dia 25 do mês de Abril numa gigantesca movimentação popular que idolatre a data. Isso é estúpido, oco e contribui para transformar ainda mais a data num ritual.
A verdadeira comemoração do 25 de Abril deve ser feita explicando aos que não o viveram, e portanto não o podem ter na memória, o que significou para a evolução de Portugal e o que ele garantiu para todos nós. Não é comemorar uma data, é explicar o que ela permitiu! Eu posso não comemorar o 5 de Outubro, mas sei o que ele significou e compreendo o que ele permitiu. Posso não comemorar o 25 de Abril, mas sei que foi ele que me permitiu estar hoje a escrever neste blog sem ter algum censor a cortar as minhas palavras! É que quando as pessoas deixarem de saber o que ele significou, será sempre possível que se volte atrás, e que uma outra ditadura possa substituir-se à democracia. A liberdade nunca está garantida, conquista-se dia a dia, lutando por ela – seja combatendo caciques arruaceiros, patos bravos que querem cimentar o país, Sousas Laras que dão mau nome à ignorância ou tentativas de reescrever a história por iniciativa de jovens turcos da pseudo-tecnocracia!
E não me venham com tretas de que os comunas em 1975 quiseram dominar o país e transformá-lo num satélite de Moscovo (pois quiseram), e que se cometeram erros nos primeiros anos (pois cometeram), para desvalorizar o acontecimento! A verdade é que estamos aqui, 30 anos depois, e que apesar de termos um governo de merda e problemas a mais num país do nosso tamanho, podemos mudar tudo isso se o quisermos. Porque vivemos numa democracia! Porque vivemos numa democracia desde o 25 de Abril de 1974!
É por isso que nós, que o vivemos ou o compreendemos, o devemos explicar a quem só agora o pode começar a entender – é a melhor forma de conseguir o que o slogan batido diz: 25 de Abril sempre!!
E já agora que falamos de slogans, se é verdade que possibilitou a evolução, não é isso que pretende transmitir o slogan bacoco do governo, que pretende extirpar o sentido revolucionário, de ruptura, que o 25 de Abril teve. A evolução veio depois, a revolução foi a 25.

tuguinho, cínico encartado (mas de cravo vermelho ao peito)