sexta-feira, 16 de abril de 2004

A outra direita...

Tenho reparado (eu e o Kroniketas somos muito observadores) nas minhas viagens pelos blogoceanos – esta saiu bem! Sim, porque se há blogosfera devem existir também blogoceanos! –, que está na moda arvorar posições de direita como se isso fosse anel de brasão ou diploma de superioridade. Tal como existe uma esquerda folclórica, que é sempre contra, usa sandálias, fuma charros e abraça todas as causas minoritárias (por muito bizarras que sejam), também existe a direita do blazer e sapatinho de vela, com valores que julga os melhores, tiques de autoritarismo serôdio e intolerância bacoca a rodos. Uns são filhos do Maio de 68, outros são filhos do Paulo Portas (sem ofensa!) ou são produções Independentes (o que vai dar ao mesmo e me parece incestuoso!).
Ora se olharmos um pouco para os últimos, digamos, 300 anos, a evolução da humanidade deveu-se por um lado à revolução tecnológica e científica e, do lado social, às lutas dos mais desfavorecidos por uma vida melhor. Nunca me constou que existissem ricos e abastados a defender os direitos dos desfavorecidos na linha da frente das barricadas de rua. Quer isto dizer que os pobres são bons e os ricos maus, os de direita, horríveis, e os da esquerda, santos? Nem por sombras!
Deixemo-nos de maniqueísmos e de demagogias – ninguém é detentor da razão absoluta! Mas há uma certa diferença entre um Freitas do Amaral, que com o decorrer dos anos me habituei a respeitar, e os fedelhos armados em carapaus de corrida, cheios de ideias neoliberais ainda frescas dos canhenhos que andaram a consultar para dar alguma substância ao ar de arrogância que ostentam. Por favor, haja decência! E o pior é que estes salazaritos parecem multiplicar-se por cissiparidade, como as bactérias ou certos vermes…
É que (adivinharam!) eu sou da outra direita, aquela da loura da anedota. Pois, sou de esquerda! Mas não tenho partido (detesto espartilhos), penso por mim e não alinho em carneiradas nem unanimismos, sou conservador numas coisas e liberal noutras e não me julgo detentor da verdade, qual redentor que vai salvar o mundo, julgando-o.
Essencialmente, penso. É verdade que o faço a partir de uma matriz social cristã, mas a base dessa matriz é a mesma do humanismo ocidental, e mesmo não professando essa (ou qualquer outra) religião, revejo-me em valores morais (não confundam com a moral de catequese) e de comportamento que provêm dessa área e são afinal o substrato da nossa civilização ocidental – que pode ser muito má, mas é como a democracia: ainda não vi inventarem nada melhor.
Foi nesta civilização que o nível de vida geral das populações melhorou, que o acesso ao ensino se massificou, que a liberdade se implantou. Isto não tem nada a ver com comunismos – os amanhãs que cantam há muito que ficaram afónicos –, nem com igualitarismos utópicos e inatingíveis. A igualdade é uma coisa má – eu não quero que o calaceiro ao meu lado seja igual a mim! Quero que todos tenham igualdade de oportunidades e a garantia de condições de vida minimamente dignas – depois cada um que se amanhe e seja o mérito de cada um a escalonar-nos. Qualquer ideologia que não tenha em conta o indivíduo está condenada ou vai condenar-nos, como já aconteceu no passado recente.
Mas, voltando aos filisteus de pacotilha: pode ser moda. Será? Espero que sim, e que como todas as modas foleiras acabe no fundo do roupeiro, a alimentar as traças.

tuguinho, cínico encartado (e anarquista de bolso nas horas vagas)