terça-feira, 14 de junho de 2005

Tudo de uma vez

E de repente aconteceu tudo. Quando apenas esperávamos pachorrentamente pelos resultados das Marchas deste ano, entrou-nos pela porta um verdadeiro dilúvio de acontecimentos. Mas vamos por partes (o assunto é sério, coisas da vida, da morte, ou de outra coisa qualquer, e não vou referir a piada do Jack, o Estripador, nem que me peçam de joelhos!)
Acontecimento 1: Arrastão Tuga – em pleno 10 de Junho, umas largas dezenas de empreendedores resolvem criar uma empresa de pesca de arrasto que não se envergonhe perante as congéneres brasileiras. Embora padeça de um problema estrutural para uma empresa pesqueira – não tem barcos – isso não impediu os sócios de pescar todo o tipo de presa que lhes veio à mão na praia de Carcavelos. A ANJE decidiu imediatamente atribuir-lhes um prémio especial pelo empreendedorismo, que será entregue na Cova da Moura, sob escolta policial. Bem hajam!
Acontecimento 2: Vasco Gonçalves também faleceu durante este fim de semana. Com a excepção de ter sido o primeiro-ministro que quase colocou metade do país em luta com a outra metade e de ter inspirado esse grande monumento da canção revolucionária que é “Força, força Camarada Vasco”, não lhe vejo assim nada que justifique outra coisa, mesmo um prémio da ANJE. Acho que era boa pessoa, mas isso não é coisa que por cá fique.
Acontecimento 3: Álvaro Cunhal despediu-se desta vida sem acreditar noutra. Admiro o escritor, o anti-fascista, a coragem, a pessoa, mas não a sua coerência, embora possa compreendê-la – agarrarmo-nos a ideais estraçalhados pela realidade não os torna positivos, embora sem eles a nossa vida possa ficar sem significado. Penso que não era o caso, porque o homem era bastante mais que o político. Coerência a mais pode ser apenas teimosia – não transforma o seu objecto em dogma.
Acontecimento 4: Eugénio de Andrade passou-se para outro nível, num desfecho já antecipado há algum tempo. É costume dizer (e já foi dito à exaustão nas peças jornalísticas dos diversos canais de TV) que se perdeu o homem mas que a obra perdura. Ainda bem que assim é! Como, com excepção do Matusálem, as nossas vidas são bastante limitadas em duração, as únicas impressões que perduram são mesmo as obras – não as do trolha Augusto mas as do poeta Andrade. Como alguém disse hoje num dos elogios fúnebres, os poetas são o que nos resta dos deuses.
Acontecimento 5: Já nos estertores do dia de hoje, chegou-nos outra importante ocorrência (chamo-lhe isto à falta de melhor termo) – Michael Jackson fora absolvido de todos os crimes de que era acusado, não sei se por inocência se por ausência de arma para cometer o tal tipo de crimes. Com todas as operações plásticas a que já se sujeitou, sabe-se lá por onde lhe anda o pirilau! Enfim, tudo está bem quando acaba bem, na alegre Terra do Nunca.
Estes fins de semana prolongados de Verão são sempre maus – acontecem demasiadas coisas que nos apanham a estiolar e quando vamos ver já nada é como era…

tuguinho, cínico entalado na vida