segunda-feira, 9 de maio de 2005

Caro Tuguinho, é mais grave que isso

O Benfica é uma caricatura de equipa. Qualquer equipa com um mínimo de personalidade, com 6 pontos de avanço a 7 jornadas do fim tinha liquidado a concorrência em dois tempos. Mas não: confirmando a sua tendência para o suicídio, no momento em que tinha tudo a seu favor para fazer um fim de campeonato em festa e aproveitar a “onda vermelha” que o presidente pediu e que os benfiquistas, como sempre tão generosamente, lhe ofereceram, fazendo com que todos os jogos fossem disputados “em casa”, tais as falanges de apoio que lhe proporcionaram (em Vila do Conde, Algarve e Penafiel a maioria de benfiquistas nas bancadas era esmagadora), a equipa em vez de se atirar para cima dos adversários e resolver os jogos como lhe competia entregou-se a uma modorra inconsequente à espera que o tempo passasse, como se contasse que a vitória lhe caísse do céu, esquecendo-se que os jogos têm 90 minutos e têm que se começar a ganhar logo no 1º.
Em nenhum dos jogos deste ciclo decisivo o Benfica jogou com um ritmo e qualidade aceitáveis durante os 90 minutos (também, se não o fez durante toda a época, porque havia de fazer agora?). Em Vila do Conde a primeira parte não existiu. Na 2ª parte, quando acordaram e perceberam que o jogo era para ganhar, veio ao de cima a habitual ineficácia nos lances de bola parada: cada canto ou cada livre lateral é marcado com uma displicência e uma incompetência inqualificáveis numa equipa profissional. Nos jogos daí para cá tenho reparado neste fenómeno: as bolas cruzadas de canto e livre vão parar invariavelmente à cabeça do primeiro defesa que está no caminho. Não há distribuição de jogadores na grande área pelas posições-chave (1º poste, 2º poste), não há jogadas estudadas de modo a desequilibrar a defesa contrária, é tudo ao molho e fé em Deus, e pode ser que ao fim de 20 livres um deles vá parar a um dos nossos e, com sorte, até pode ser que ele acerte com a baliza. Aconteceu contra o Estoril, mas estávamos em superioridade numérica, pelo que acabaram por aparecer brechas na defesa. Voltou a acontecer com o Penafiel: em lances de bola parada, que me lembre, só duas vezes o Benfica rematou… para fora.
Também não se vê ninguém a tentar aproveitar as bolas devolvidas para a entrada da área, porque não está lá ninguém. A maioria dos cantos a nosso favor resulta muitas vezes em perigosos contra-ataques dos adversários. Já tinha acontecido na 1ª volta com o Rio Ave, em pleno estádio da Luz, no 3º golo que apanhou a equipa completamente desorganizada. Mais grave, em Vila do Conde sofremos o golo da derrota no último minuto num contra-ataque igualzinho a esse da 1ª volta. Ou seja, em meio campeonato ninguém aprendeu nada: era preciso ganhar o jogo, mas era mais importante não o perder. O que aconteceu foi que toda a gente estava lá à frente a fazer não se sabe o quê e quando o Rio Ave foi por ali fora ninguém estava a defender onde devia. Como sempre, o único que tentou salvar o desastre foi o Petit, que tentou tapar o buraco dos defesas-centrais, que nunca estão no sítio certo. Ou seja, a conclusão a tirar desta inoperância atacante e do desastre defensivo é que ninguém sabe o que anda a fazer em campo. A defesa não se sabe posicionar (são incontáveis os golos sofridos à entrada da pequena área com os defesas fora do seu lugar, no que aliás o Luisão é um modelo…), o ataque não tem jogadas estudadas, não há trabalho de casa que se veja. Dezenas de vezes já me perguntei esta época: o que é que estes tipos andam a fazer durante a semana? Não é para essas coisas que serve um treinador? Para tornar os jogadores melhores do que eles são? Para aproveitar ao máximo todas as suas potencialidades?
Nada disso se vê no Benfica. Ao longo da época a equipa não melhora, pelo contrário, parece que vai sempre piorando. E quando por vezes há uns assomos de melhoria, logo volta à mediocridade habitual, incapaz de manter um nível de jogo decente e sem fazer por merecer qualquer tipo de apoio. Felizmente que os bilhetes para o “derby” se esgotaram antes deste fim-de-semana. Caso contrário, será que os benfiquistas ainda acreditariam o suficiente para ir ver o jogo com o Sporting?
É por estas e por outras que acabei por não alinhar na onda dos lugares cativos a preços baratos para os últimos 4 jogos em casa. É simples: para ver espectáculos medíocres e estar-me a aborrecer, prefiro fazê-lo em casa, comodamente instalado no sofá, ou em companhia de amigos e com um bom prato e um bom vinho. E assim a SportTv sempre sai mais barata…
Com este panorama negro, ainda iremos ser campeões? Conseguiremos ganhar ao Sporting e ao Boavista? Pela capacidade da equipa não acredito, mas este ano tudo pode acontecer, como o Porto demonstrou hoje mesmo com o Moreirense, perdendo a hipótese de ficar a um ponto e aproveitar o facto de Benfica e Sporting se defrontarem na próxima semana. Mas o facto de ainda estarmos à frente, com uma equipa que é das que menos joga neste país, mostra bem como estão os outros…

Kroniketas, benfiquista desencantado