sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

Patético



Hoje pensei que me tinham colocado na caixa de correio uma daquelas cartas em cadeia, do estilo "se não deres todo o teu dinheiro aos pombos do Rossio, daqui a três dias cair-te-á uma coisa que muito prezas", etc. e tal.
O sobrescrito não tinha identificação, só uma frase enigmática: “se não costuma votar, leia esta carta”. Como eu costumo votar sempre ia deitá-la fora, mas a curiosidade falou mais alto. Abri-a. E dei comigo perante o mais patético panfleto político que me foi dado conhecer!
Tal como as cartas em cadeia instava-nos a não parar de ler, porque senão estávamos a fazer uma maldade idêntica à que o senhor Presidente lhe tinha feito. E logo depois pedia-nos uma coisa: o nosso voto. E porquê? Para poder prosseguir com as políticas que favorecem os desfavorecidos e exigem mais aos mais ricos. Decerto os sete e qualquer coisa por cento de desempregados apreciarão este estilo robin-dos-bosques. Ou não. E a classe média com certeza também apreciou o fim dos benefícios fiscais. Toma Belmiro, que agora já não vais lucrar mais com o teu PPR!
E depois são invocados uns certos “Eles”, poderosos obviamente, e o famigerado sistema. Olhei para o fundo da missiva à procura da assinatura do Dias da Cunha, mas só encontrei a do PSL. Portanto, Sporting, estás perdoado.
A parte final acho que tem a ver com os tais pontapés ao querubim na incubadora e a umas facadas nas costas, mas tudo escrito no melhor estilo de novela mexicana, e penso ter descortinado um apelo velado à constituição de um grupo de pressão dos coitadinhos atraiçoados, porque afirma que “já são vários” e que lhes quer fazer (a “Eles”) frente. E pede-me o favor de ir votar. Ó senhor Lopes, não é favor nenhum! Lá estarei a pôr a cruzinha num partido que não será o seu nem o dos seus associados, pode ter a certeza.
Francamente, ó senhor Einhardt Brazuca, até pode ser que o estilo “calimero” resulte no Brasil, mas olhe que por aqui tenho as minhas dúvidas e até o aconselho já a ir procurando outro empregozito numa outra área que não a de construtor de imagem, porque desconfio que vai ficar desempregado na segunda-feira.
Depois disto tudo só espero ouvir, no fim da noite eleitoral, o menino-guerreiro a exclamar com voz dorida “it’s an injustice, it is!” e a afastar-se a choramingar à procura de algum colo.

tuguinho, cínico admirado (com tamanha desfaçatez!)