quarta-feira, 12 de maio de 2004

Ladrando à Lua (16) – Um Santana de pau carunchoso

Um pouco de história: apesar da tacanhez e modorrice do antigo regime (além de outros epítetos menos inofensivos), ele teve algumas pessoas de mérito nas suas fileiras. O que nos interessa para hoje chamava-se Duarte Pacheco, e além de ministro das Obras Públicas foi presidente da câmara de Lisboa nos idos de 40 do século XX. Homem dinâmico, marcou o país com obras emblemáticas como os edifícios do IST na Alameda ou a auto-estrada que hoje se chama A5 e naquela época ia até ao Estádio Nacional, outra obra de sua iniciativa. Além do cimento deixou-nos uma outra coisa que denota uma visão de futuro, coisa que falta aos nossos actuais políticos míopes, que só vêem ao perto, geralmente até às eleições seguintes: foi o Parque de Monsanto, criado a seu mando e que transformou cabeços nus há 60 anos na mancha verde que é hoje. Acaba aqui a lição de história.
Apesar de ratada por pequenos avanços de betão, a tal mancha permaneceu verde e, nos últimos anos, foram mesmo dados passos positivos para de lá erradicar a prostituição e devolver o espaço às famílias. Ainda me recordo de fazer piqueniques nos Montes Claros, sem perigo de ser assaltado ou de encontrar preservativos usados debaixo do cesto do lanche.
Até que nos apareceu um Santana de pau carunchoso, que resolveu fazer de Monsanto a carpete da capital e para lá varrer todos os projectos abortados ou abortivos da sua (des)governação mediática – desde a Feira Popular (será que os esquilos gostam de cheiro de sardinhada?) ao Hipódromo e seus apoios (quantas árvores serão destruídas? – a menos que os cavalos façam slalom pelo meio delas), dos campos de ténis (para o povo de Lisboa, como é lógico; já estou a ver as famílias a acorrerem em massa com as suas raquetes de fibra de carbono numa mão e o farnel na outra!) ao campo de tiro (que já lá está mas não devia estar! – é tão absurdo como se estivesse no Parque Eduardo VII).
Estou convencido que ainda lá vamos ver projectados o novo Parque Mayer, as torres de Alcântara, o túnel do Marquês e o casino do Gehry, tudo como num magnífico Portugal do Santanita, emulação do Portugal dos Pequenitos - o que condiria com a dimensão política do referido - qual Las Vegas de pesadelo às portas de Lisboa!
Como já disse aqui noutras ocasiões, o país somos nós, e nada de bom advém de carneiradas de absentismo e desinteresse! Por isso vão a http://www.ipetitions.com/campaigns/por_monsanto/ e assinem a petição – é um primeiro passo para evitar a tragédia. Depois podemos fazer um golpe de estado ao nível da capital, defenestrar o Santana Lopes e substitui-lo por alguém com cérebro e sensatez, embora quando olhamos para a fileira dos políticos (usar “fileira” está na moda agora, lançada por uns quantos economistóides) essa se perfile como uma tarefa árdua…
Estaremos dispostos a perder o único verdadeiro pulmão de Lisboa por causa das manobras politico-circenses de um diletante inconsequente? Entre um Monte Santo e um Santana de pau carunchoso não tenho dúvidas na escolha. Alguém tem?

tuguinho, cínico encartado (mas amante sincero da natureza)
Kroniketas, sempre kontra as tretas
Blogoberto, chico-esperto
Valter Rego, observador desassombrado (deste circo que é a vida)
Mónica Galho, cronista da sóçaite e consultora sentimental
...e outros artistas convidados