terça-feira, 4 de maio de 2004

Ladrando à Lua (14) - Ponha…ponha…ponha…

Arranjam-se 3 ou 4 pretensos especialistas, muito directos, muito pós-modernos e cheios de certezas absolutas elucubradas em 5 segundos. Juntam-se candidatos à humilhação bem frescos e ingénuos, mistura-se com 2 apresentadores com à vontade e uma montagem modernaça e serve-se em doses limitadas durante várias semanas numa estação de televisão, para fazer render o peixe. Esta descrição lembra-vos alguma coisa?
Pois é, não é necessário ser espectador assíduo, basta estar a fazer zapping e dar de chofre com estes abastardamentos do que devia ser um programa de entretenimento. Dos Big Brothers de má memória ao Masterplan que gerou um ícone pimba de nome Gisela, dos Sobreviventes da treta ao Ponha… ponha… ponha… que quase deu mau nome às iguanas, existe uma coisa em comum a todos estes programas: a devassa da intimidade dos participantes de um ou outro modo – pela exploração das fobias de cada um, pelo abastardamento das relações entre pessoas, pela humilhação do que devia ser íntimo e não exposto a um universo de voyeurs javardos(as).
A SIC descobriu (comprou!) agora uma nova fórmula que resultou: a humilhação mascarada de procura de novos talentos. Foi o que aconteceu em parte no Ídolos e está a acontecer no Sonho de Mulher, até porque o tema – a beleza – se presta mais a isso.
É notório que uma boa parte das candidatas a este concurso, que desembocará na eleição de Miss Portugal, foram iludidas pelo amor-próprio, pelos namorados à procura de mais extensos favores, ou pela simples e santa ingenuidade daquelas idades mais tenras (sem bocas, por favor, que isto é sério!). Isso sempre aconteceu e sempre acontecerá. Mas, no passado, a destruição de semelhantes ilusões passava-se à porta fechada e não perante a multidão de telespectadores ávida do sofrimento dos outros. Sim, muitas eram feias, mas era preciso dizer-lhes daquela maneira? As coisas só se passam assim porque, mais do que a eleição da Miss, o que se procura mostrar no programa é a amargura das rejeitadas, a revolta das eliminadas, a vergonha, o choro, mais ainda do que a alegria das escolhidas que tem muito menor impacto para o teleconsumidor deste lixo emocional. Ou seja, o objectivo deste programa não é eleger a Miss Portugal, é mostrar o processo de eleição! E quanto mais sangue e humilhação houver, melhor! Pão e circo, lembram-se? Resulta há mais de dois mil anos…
Deixem-me então ser mauzinho e, por breves instantes, travestir-me de júri e dissertar sobre as quatro peças que agora nos é dado ver e apreciar:
Ana Borges – a ex-manequim habituada a lidar com carne, cheia de certezas e certamente a pensar que o mundo gira em volta dela.
Xana Guerra – quando diz que não gosta da roupa, ou do rosto, ou do corpo das candidatas já olhou realmente para si? Já viu que parece uma lésbica bêbeda e com mau gosto, com roupa horrível e aspecto desleixado?
Manuel Serrão – um caso perdido da bimbice que existe em certas regiões. Se fosse presidente de câmara seria um émulo do cacique Torres, assim é apenas um parvalhão alegre, que mesmo com um Armani vestido continuará a parecer um aprendiz de taberneiro.
Vítor Nobre – apesar de ser o menos acintoso dos quatro, não deixa de ser afirmativo demais e aquele ar e modos de pederasta que está bem na vida acabam por traí-lo.
Pronto, já estou mais aliviado. Não gostaram, pois não? Fiz juízos apressados, foi isso? Fui injusto? E olhem que tive bastante mais do que uns segundos para os analisar e depois opinar!
É preciso também dizer que há muito tempo que este tipo de concursos deixaram de ser de beleza e passaram a ser de modelos – mais que a Miss Portugal, elege-se a Manequim Portugal! É por isso que o júri, independentemente do processo utilizado, julga as candidatas usando o estereótipo da mulher cabide (óptima para passar roupa) e não os parâmetros de beleza de gente normal. Sim, porque não aceito que uma modelo anoréctica possa ser o ideal de beleza de alguém.
É mesmo preciso telelixo para se atraírem audiências? Ou é apenas mais fácil e mais barato? Por outras palavras, será que uma televisão comercial não pode ter qualidade para ter sucesso? O sucesso será inimigo da qualidade? Recuso-me a acreditar que seja assim.

tuguinho, cínico encartado e heterossexual inveterado