terça-feira, 29 de janeiro de 2008

As músicas da minha vida 1 - Fim de 1973: Procol Harum - "Grand Hotel"


É melhor avisar desde já que estas krónikas serão totalmente parciais. Não há aqui espaço para democracia, igualdade e etc. Vão ser totalmente despóticas e falar apenas da música de que eu gosto ou de que já gostei. Posto isto, vamos começar.

A história começa mais ou menos na primeira metade dos anos setenta porque, dos anos sessenta, só me lembro de ouvir “San Francisco” do Scott McKenzie na rádio. Portanto, muito pouco.
Claro que todos começamos por ouvir aquilo que nos impingem. E se hoje o impingem muito mais cedo (basta olhar para os tops para ver a catrefada de discos infantis que se vende), não sei com que consequências nefastas na formação do gosto futuro dos infantes*, por essa altura as coisas vinham mais naturalmente, através do festival da canção, de uma rádio controlada pelos gostos da ditadura e de outros nefandos programas de música da RTP, ao bel-prazer do que nos chegava ao ouvido.
Andava eu pelos enviesados caminhos das Vicky Leandros e dos Demis Roussos desta vida quando, por graça do senhor**, o meu primo mais velho começou a levar discos de outro estilo lá para casa. Por discos entenda-se aquelas rodelas de vinil preto que rodavam a 33 1/3 rotações por minuto no prato de uma coisa que muito a propósito se chamava gira-discos. Nunca é demais ser pedagógico para com os leitores de menos idade***.
Os ditos discos eram de cantores e grupos como Cat Stevens, Genesis, Jethro Tull, Deep Purple, Yes, etc., etc. Como vêem, um salto certamente maior do que os que dava o Evil Knievel, porque da Tonicha ao Ian Anderson a distância é tudo menos dispicienda…
Mas, “in the very beginning” (esta tinha de ir em inglês), houve um grupo que reuniu um estranho consenso lá em casa – meio dandies, meio hippies, com uma música entre o barroco e o mainstream da época. Estou a falar de uns senhores que davam pelo nome de Procol Harum e do álbum que na altura cimentou a sua fama, depois de alguns êxitos anteriores, como o single “A Whiter Shade of Pale” (embora com uma formação um pouco diferente da inicial). Falamos de “Grand Hotel”.
Convém salientar que na altura ainda não era muito usual comprar LP’s (Long Play’s, assim mais granditos que os outros discos) e quando nos referíamos a discos falávamos quase sempre dos Singles, rodelas mais curtas apenas com uma ou duas canções de cada lado (sim, os discos de vinil tinham dois lados com gravação – pensem nos DVD dual layer e façam a analogia, mas com a obrigação de os virar no gira-discos para ouvir o outro lado). Portanto, comprar um LP ainda não era um acto vulgaríssimo e a coisa ganhava foros de prenda de Natal desejada.
O que me apraz dizer hoje, tantos anos depois de ouvir pela primeira vez este disco no meu gira-discos mono? Que a idade lhe deu uma patine agradável – não se tornou datado e continuam a ouvir-se com prazer todas as canções do álbum – do embalo sinfónico do tema-título à leveza de "Fires (Which Burn Brightly)", do balanço charrónico de "A Souvenir of London" à simplicidade de "Toujours L’Amour"; e muitas bandas actuais não desdenhariam ter uma canção com o balanço de "Bringing Home the Bacon".
Nisto da música é difícil explicar o que são e como são as canções, porque cada um sente de uma forma diferente, e aquilo que cada uma nos traz tem inevitavelmente a ver com o momento em que as conhecemos e com o que a memória lhes ligou. Este há-de lembrar-me sempre Natais frios e aconchego, numa altura em que a vida se me começava a abrir. Portanto, mais do que eu me desfazer em explicações impossíveis, o melhor mesmo é tentarem ouvi-lo.

tuguinho, cínico musicado

Notas:
* sim, porque eu não acredito que quem tenha de ouvir inúmeras vezes as músicas do fantasminha brincalhão com tenra idade alguma vez se recomponha completamente!
** por “senhor” entenda-se o meu primo, como é óbvio…
** “menos idade” e não “mais novos”, porque isso de ser novo ou velho tem pouco a ver com a idade biológica…