domingo, 4 de novembro de 2007

Bamian e outras histórias


Assisti há alguns dias a um documentário, penso que da National Geographic, que falava sobre a arqueologia no Afganistão (Não, não falta nenhum “e”; é como em “Amsterdão”, percebem? Ai também escrevem com “e”? Então já nada posso fazer por vós…), entre outras coisas.
A inevitável época talibã servia de contraponto à situação actual em áreas tão diversas como a arqueologia (escavações no oásis de Bamian e tesouro bactriano), a arte (pintura e escultura) e o cinema (arquivo histórico).
Os talibãs tentaram eliminar tudo o que segundo os seus diminutos cérebros não era permitido pela religião muçulmana (versão hard), incluindo a música, as representações de seres vivos na pintura e na escultura (daí a destruição imunda dos budas de Bamian) e os arquivos cinematográficos históricos do país.
Pensavam-se perdidos irremediavelmente quilómetros de filmagens históricas, bem como inúmeras obras de arte da galeria nacional. E é aqui que se vê quão estúpidos podem ser os fanáticos! Podem ter até um grande QI, mas a visão distorcida da realidade toldar-lhes-á qualquer resquício de inteligência sempre.
Não é que um empregado da galeria nacional, em conjunto com um médico pintor, se lembraram, com risco das próprias vidas, em repintar os quadros com representações de seres vivos, tornando-os em inóquas cenas sem vivalma? Pintando a aguarela sobre o óleo, depois foi só passar um pano húmido para reaver a cena original. E os imbecis dos talibãs nem sequer sonharam com esta possibilidade!
Ainda mais rocambolesco e arriscado: os trabalhadores do arquivo cinematográfico construíram uma parede falsa frente à porta que dava acesso à sala onde se encontravam os negativos dos filmes, alterando mesmo a iluminação do corredor para uma melhor dissimulação, e limitaram-se a entregar cópias aos mentecaptos, para que as pudessem destruir alegremente.
Estas duas histórias mostram, como dizia o poema do Manuel Alegre, que

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Os heróis não usam armas.

tuguinho, cínico admirado