quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

O país circular

Sinceramente não percebo. A maioria são pessoas inteligentes, cordatas e realmente interessadas no objectivo primordial da sua profissão – ensinar. É certo que desde o 25 de Abril, e passados todos estes anos e ministros, nunca nenhum foi propriamente acarinhado – ora foram os alunos, ora foram os professores, mas ser ministro da educação nunca foi função sossegada ou duradoura. Ao que parece nunca agradaram a gregos ou a troianos, nem sequer a palhaços ou sindicalistas. E alguns eram mesmo maus…

Os professores são essenciais. Ao longo da minha vida tive muitos professores e alguns deles foram essenciais para aquilo que sou hoje. Ainda hoje tento fazer o que o meu professor de desenho do 1º ano do ciclo preparatório nos pediu: que não nos tornássemos em adultos cinzentos, daqueles que se esqueceram que foram crianças e que perderam a imaginação e a capacidade de se maravilharem com as coisas à sua volta. Por alguma razão este pedido nunca me saiu da mente.Nem a minha professora de Física e de Química do Secundário, a professora Edmeia, responsável por aulas em que ninguém se sentia burro ou excluído. Recordarei sempre as aulas de PROEM dadas pelo Prof. Dr. Abreu Faro, que foi a única pessoa que me conseguiu fazer compreender realmente o que traduziam as equações de Schroedinger. É extraordinário como certos professores conseguem tornar o mais complexo em algo simples e entendível! As pessoas contam. Os professores contam para muitas jovens pessoas. Portanto que ninguém diga que sou inimigo dos professores – a demagogia costuma voltar-se contra os demagogos.
Se não apanhei maus professores? Claro que apanhei! Digamos que os extraordinários devem ter sido uns 10%, os normais uns 70% e os maus uns 20% (não, não são quotas). Acreditem que alguns eram mesmo maus…

Na semana passada teve lugar mais uma greve de professores contra o modelo de avaliação proposto pelo Ministério da Educação. Sinceramente não conheço os pormenores do mesmo, e até admito, por algumas explicações que tenho ouvido, que tenham alguma razão no seu descontentamento. O que já não se compreende (e como eu muito mais gente) é que os sindicatos, e a classe no geral, rejeitem liminarmente toda e qualquer proposta do ministério. Pode haver recuos e cedências, que lá virá sempre Mário Nogueira dizer “não chega”. O que chega já toda a gente percebeu: os professores não querem “esta” avaliação. O que a opinião pública não sabe é se querem alguma, porque até agora não se conhece o que pretendem.

Pelo caminho entretanto percorrido foram coleccionando antipatias. Vários comentadores na comunicação social têm criticado veementemente as posições adoptadas, o que lhes valeu desde logo serem catalogados como “inimigos da classe”, com Miguel Sousa Tavares e Emídio Rangel à cabeça. Pode-se concordar ou não com alguns termos usados por este último, mas a resposta que circulou pela internet era em forma de insulto de ordem pessoal, usando parte de uma frase retirada do contexto para gritar “chamou-nos hooligans”! O mesmo se passa com Miguel Sousa Tavares, que tem sido sistematicamente acusado de ter chamado aos professores “os inúteis mais bem pagos deste país”, afirmação que ele já desmentiu ter feito. Tem feito, isso sim, diversas críticas fundadas: “Um professor que não é capaz de substituir um colega durante uma aula, a quem não ocorre nada de útil para ocupar os alunos nesse tempo, é definitivamente incompetente e não está na escola a fazer nada” (“Expresso”, 6-1-2007), “Eu se fosse Ministro da Educação remunerava os professores pela assiduidade” (“Jornal Nacional”, TVI, 6-6-2006), que curiosamente não vi rebatidas, mas a que continua a ser usada como arma de arremesso é a que ele afirma não ter feito... Também criticou uma suposta proposta de que os professores fizessem auto-avaliação em termos mais ou menos no género de “olha se a moda pega e os alunos também se lembrassem de se querer auto-avaliar?”
Claro que a reboque vieram os ataques pessoais a estes “inimigos da classe”, um porque batia na mulher ou usou um berbequim para entrar na TSF, outro porque faz caçadas no Alentejo ou raides todo-o-terreno, como se isso tivesse alguma coisa a ver com as críticas que fizeram. Não precisam de ser anjos ou santos para poderem criticar ou ter razão.

O que os professores parecem ainda não ter percebido é que, independentemente de estarem todos unidos contra a ministra e convencidos de que isso lhes dá a razão, ainda não convenceram uma boa parte da população. Talvez fosse altura de abrirem os olhos para o país real e para a imagem que passam para a opinião pública. Por exemplo, saber o que acham os pais dos filhos que ficam pendurados na escola cada vez que há uma greve. Talvez aqueles que tão pressurosamente enviam emails a bater no MST e no Emídio Rangel devessem gastar algum tempo a ler os comentários dos leitores na Internet. Por exemplo, no Portugal Diário.

Esta cristalização de posições está a criar uma classe cada vez mais fechada sobre si, cada vez mais hermética e intolerante a opiniões divergentes, que faz de cada voz discordante um ataque à “classe”. O princípio do “quem não é por nós é contra nós” já era usado por Salazar.
Parece que há aqui alguns princípios da democracia que precisam de ser reaprendidos, porque não se pode pedir direito de greve e de manifestação contra “a vaca que está no ministério” para nós e o degredo e a expiação para os comentadores que escrevem na comunicação social apenas porque não nos dão razão.

Agora não nos digam que por ter a minha opinião passo a ser um inimigo da classe, um verme que é necessário esmagar para que os amanhãs possam cantar! Como já disse, uma parte muito importante do que sou hoje devo-o a alguns dos professores que me ensinaram. Mas não se meta tudo no mesmo saco, por favor. Hão-de existir sempre bons e maus professores, bons e maus engenheiros, bons e maus bloguistas. Não se queira é deixar tudo na mesma, para que não haja avaliação, para que não haja responsabilização, para que os bons, os maus e os medíocres continuem todos a ser tratados por igual!

É que este país me parece cada vez mais um círculo em vez de um rectângulo: voltamos sempre ao mesmo e não tem ponta por onde se lhe pegue…


tuguinho, antigo aluno


P.S. – se pretenderem lançar ovos, agradecia que o fizessem directamente na frigideira – adoro omeletes!

P.S. 2 – já há dois anos tínhamos abordado este tema; podem ler esse post
aqui.